A escritora, ilustradora e cineasta iraniana Marjane Satrapi, autora da aclamada graphic novel “Persépolis”, morreu aos 56 anos. A informação foi confirmada por familiares nesta quinta-feira (4) à agência AFP.
Em comunicado, a família atribuiu a morte ao profundo sofrimento causado pela perda do marido, Mattias Ripa, falecido em abril de 2025. Produtor, ator e diretor, Ripa era companheiro de longa data da artista e teve papel importante em sua trajetória pessoal e profissional.
“Marjane Satrapi morreu de tristeza mais de um ano após o falecimento de Mattias Ripa, seu marido e o amor de sua vida”, diz o comunicado.
Reconhecida internacionalmente por transformar sua própria história em uma das obras mais influentes dos quadrinhos contemporâneos, Satrapi construiu uma carreira marcada pela crítica política, pela defesa das liberdades individuais e pela denúncia da repressão no Irã.
Uma infância marcada pela Revolução Islâmica
Nascida na cidade de Rasht, no norte do Irã, Marjane Satrapi viveu a infância em meio às profundas transformações provocadas pela Revolução Islâmica de 1979. Filha de uma família progressista, estudou inicialmente em uma escola laica e bilíngue, mas viu sua rotina mudar radicalmente após a ascensão do novo regime.
Aos dez anos, foi obrigada a frequentar uma escola religiosa e a usar o véu, uma das mudanças impostas pelo governo instaurado após a queda do xá Reza Pahlevi.
As experiências vividas nesse período se tornariam a base de sua obra mais famosa. Em “Persépolis”, Satrapi narrou a infância sob o regime dos aiatolás, as restrições impostas à sociedade iraniana, a repressão política e o difícil processo de deixar o país para viver na Europa.
Lançada na França em 2000, a graphic novel rapidamente conquistou leitores ao redor do mundo. O sucesso levou à publicação de três continuações, concluídas em 2003, consolidando a obra como uma das mais importantes autobiografias em quadrinhos já produzidas.
Consagração internacional
O reconhecimento mundial de Satrapi se ampliou com a adaptação cinematográfica de “Persépolis”, dirigida por ela em parceria com Vincent Paronnaud. O filme recebeu elogios da crítica internacional e conquistou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes de 2007.
A animação também alcançou uma indicação ao Oscar de Melhor Filme de Animação, ampliando ainda mais a projeção da artista fora do universo dos quadrinhos.
Ao receber a homenagem em Cannes, Satrapi destacou o significado político da obra e sua ligação com o povo iraniano.
“Embora este filme seja universal, quero dedicá-lo a todos os iranianos”, declarou.
Ao longo dos anos, a autora continuou utilizando sua visibilidade internacional para chamar atenção para a situação política e social do Irã, tornando-se uma das vozes mais conhecidas da oposição ao regime dos aiatolás.
Defesa dos direitos humanos
Exilada na França desde 1994, Satrapi tornou-se cidadã francesa em 2006. Mesmo vivendo longe de seu país natal, manteve uma atuação constante em defesa da liberdade de expressão, dos direitos das mulheres e da democracia.
Em 2024, recebeu o prestigiado Prêmio Princesa das Astúrias de Comunicação e Humanidades. A premiação destacou seu papel como “uma voz essencial para a defesa dos direitos humanos e da liberdade”.
A artista também chamou atenção por suas posições contundentes diante da política internacional. Em 2025, recusou receber a Legião de Honra, uma das maiores condecorações da França, como forma de protesto contra a postura do governo francês em relação ao Irã.
Na ocasião, Satrapi criticou publicamente as dificuldades enfrentadas por dissidentes iranianos que buscavam refúgio ou oportunidades na Europa.
“Há algum tempo realmente tenho dificuldade em entender a política da França em relação ao Irã”, afirmou a artista no Instagram.
Ela também lamentou o tratamento dispensado a opositores do regime iraniano.
“Jovens iranianos amantes da liberdade, dissidentes, artistas, têm seus vistos negados”.
Legado que atravessa gerações
A morte de Marjane Satrapi encerra uma trajetória marcada pela arte, pelo ativismo e pela capacidade de transformar experiências pessoais em narrativas universais.
Por meio de seus livros, filmes e posicionamentos públicos, ela ajudou a apresentar ao mundo uma visão íntima das transformações políticas e sociais do Irã contemporâneo. Sua obra permanece como um testemunho da luta pela liberdade, da resistência diante da repressão e da força da expressão artística como instrumento de transformação social.
Mais de duas décadas após o lançamento de “Persépolis”, a história de uma menina iraniana tentando compreender as mudanças em seu país continua inspirando leitores e espectadores em diferentes partes do mundo.






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