Moradores de bairros da Zona Norte relatam novo tiroteio após megaoperação

Confronto ocorre dois dias após ação conjunta das polícias Civil e Militar na região

Dois dias depois de uma ação conjunta das polícias Civil e Militar, que terminou com um taxista e um PM do Batalhão de Operações Especiais (Bope) baleado, moradores de bairros como Vila Kosmos e Vicente de Carvalho, na Zona Norte do Rio, alertaram para mais um tiroteio, na tarde desta quinta-feira (28).

Segundo as primeiras informações, a troca de tiros teria acontecido no Conjunto do Ipase, em Vila Kosmos, local dominado pelo Comando Vermelho (CV). Procurada, a PM informou que o comando do 41º BPM (Irajá) tomou conhecimento de um tiroteio na comunidade. “Os policiais foram até o local, mas os criminosos não foram encontrados. O policiamento foi reforçado na região”, informou a corporação.

Nas redes sociais, moradores comentaram o incidente. “Dias depois de um taxista ser atingido, começa um novo tiroteio aqui no Ipase. Não é brincadeira, um monte de gente na rua e do nada acontece. Não está fácil”, desabafou uma mulher. “Estava em um ponto de ônibus na Avenida Vicente de Carvalho e tive que correr para trás de um carro estacionado. Um monte de carro e ônibus passando. Sorte que não pegou em ninguém”, relatou outro.

Operação deixou dois baleados

Na ação, duas pessoas foram baleadas: o taxista Robson Teixeira, de 49 anos, atingido por uma bala perdida na perna próximo ao Carioca Shopping, em Vicente de Carvalho, e um sargento do Bope ferido na perna no Conjunto do Ipase, em Vila Kosmos.

A vítima foi levada para dentro do centro comercial até a chegada do Corpo de Bombeiros, acionado às 8h11. Ele foi levado para o Hospital Estadual Getúlio Vargas, na Penha, e já recebeu alta.

O estabelecimento fica na Avenida Vicente de Carvalho, uma via movimentada, repleta de comércios e que cruza a Avenida Meriti, uma das principais da Zona Norte. Em frente, há um ponto de táxi que atende moradores e frequentadores da área.

“A brigada prestou os primeiros socorros ao taxista, acionando o Samu para encaminhá-lo ao hospital”, diz a nota do Carioca Shopping.

O disparo ocorreu durante uma megaoperação das polícias Civil e Militar em diversas comunidades: Morro da Serrinha, Campinho, Morro do Fubá, Juramento, Juramentinho e Conjunto do Ipase.

Por conta da ação, as avenidas Vicente de Carvalho (Vila Kosmos) e Edgar Romero (Madureira) chegaram a ser parcialmente interditadas. Na Serrinha, traficantes usaram barricadas para impedir a entrada dos agentes.

“Óbvio que a gente não quer efeito colateral algum, a única coisa que eu fico feliz nisso é ver as polícias trabalhando juntas. Torcer para que tanto o policial quanto o taxista possam estar de volta as suas atividades o mais rápido possível. A gente não vai parar, o trabalho da segurança pública vai continuar”, disse o governador do Rio, Cláudio Castro.

Três pessoas foram presas, um fuzil, uma pistola e drogas apreendidas, 22 veículos recuperados e 18 seteiras destruídas. Em outra área, os policiais localizaram um esconderijo com rota de fuga para a mata.

Rotina de medo

A rotina em dois dos principais bairros do subúrbio da Zona Norte do Rio tem sido marcada pelo medo e interrupção da vida cotidiana. Vila da Penha, Vila Kosmos, Penha Circular e Vicente de Carvalho, conhecidos por seu comércio ativo e localização estratégica, entre grandes vias como as avenidas Vicente de Carvalho e Meriti, vivem uma escalada de confrontos armados que levaram comerciantes a fecharem as portas e moradores a reverem hábitos básicos, como sair para trabalhar ou levar filhos à escola.

Segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), a área do 41º BPM responsável pelo policiamento desses bairros e de outros como Irajá, Colégio, Pavuna e Anchieta, registrou um aumento de 31,6% na letalidade violenta no primeiro semestre de 2025 — foram 100 casos entre janeiro e junho deste ano, contra 76 no mesmo período de 2024. Esse indicador inclui homicídios dolosos, mortes por intervenção de agentes do Estado, latrocínios e lesões corporais seguidas de morte.

Apesar da sensação de que a violência chegou “de repente”, relatos indicam um processo gradual de reocupação territorial por grupos armados, com episódios mais intensos desde o fim de 2024. O motivo? A guerra entre duas facções que disputam espaço por toda a capital: Comando Vermelho e o Terceiro Comando Puro.

“Eu morava em uma rua próxima ao Morro do Juramento, dava para escutar os tiros a qualquer hora do dia. Ficava imaginando quando um deles ia entrar pela janela de casa. Por fim, achei que o melhor era juntar minhas coisas e procurar outro lugar para morar”, contou uma moradora que, por segurança, preferiu manter o anonimato.

Tiroteios diários, cidade parada

De acordo com a plataforma Fogo Cruzado, os bairros têm figurado entre os mais mencionados em alertas de tiroteio na Zona Norte em 2025. Para comerciantes da região, os dados prejudicam as vendas e o horário de funcionamento das lojas, que veem o faturamento despencar.

“Se algum deles (bandido) morrer, mandam fechar tudo. Se tem operação, a gente fica com medo. Eles ditam as regras e ai de quem não seguir. Todo dia é um filme de terror, evitamos até deixar só uma pessoa na loja trabalhando sozinha. Só esse ano, o faturamento caiu em 30%”, contou um funcionário de um estabelecimento comercial da região.

Os impactos aparecem não só nos relatos, mas em números também: de janeiro a junho deste ano, a região contabilizou 31 assaltos a estabelecimentos comerciais, segundo o ISP. 

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