Moradia, esperança e feridas abertas da cidade

Reflexão sobre fé, território e as feridas sociais que moldam o cotidiano das periferias do Rio

* Paulo Baía

A cidade do Rio de Janeiro amanheceu diferente em mim no dia 15 de novembro de 2025. Era feriado da República, mas a República real que me interessava naquele sábado se chamava povo, favela, calçada, ocupação, rua. Entrei na Catedral Metropolitana da Avenida República do Chile com a sensação de atravessar uma fronteira invisível. Trazia no corpo as imagens recentes da população em situação de rua espalhada pela cidade e no coração as favelas que há décadas são laboratório de sofrimento, resistência, inventividade e esperança. Lá dentro, no Salão de Vidro, o Fórum das Pastorais Sociais reunia agentes, militantes, pesquisadoras, religiosos e gente simples para conversar sobre moradia, favelas e a Campanha da Fraternidade de 2026, cujo tema é Fraternidade e Moradia e cujo lema ecoa o Evangelho de João: Ele veio morar entre nós.

O ambiente parecia concentrar a cidade inteira em miniatura. Havia quem viesse das comunidades da Zona Oeste, quem subisse e descesse o Morro da Providência, quem conhecesse cada viela da Maré, do Alemão, da Rocinha, da Cidade de Deus. Havia quem percorresse todos os dias as ruas do Centro convivendo com as centenas de pessoas em situação de rua que transformaram o espaço público na última possibilidade de teto. No centro desse encontro, como eixo de fé e análise da realidade, estavam as Pastorais Sociais da Arquidiocese, o Vigariato da Caridade Social e a Pastoral da Moradia e Favela, novo nome da histórica Pastoral das Favelas criada por Dom Eugênio Sales em 1977. Não eram apenas estruturas administrativas. Eram lugares vivos de uma Igreja que insiste em traduzir o Evangelho em direitos e o direito em dignidade.

A memória voltou então quatro décadas. No final dos anos 1970, ainda sob a ditadura militar, quando o projeto oficial para os morros era a remoção e o exílio urbano dos pobres, Dom Eugênio de Araújo Sales ousou criar a Pastoral das Favelas. Não se tratava de um gesto meramente espiritual. Era uma tomada de posição em defesa de territórios considerados descartáveis. Ao se colocar ao lado do Vidigal e de tantos outros morros ameaçados, ao mobilizar advogados, agentes de pastoral, comunidades eclesiais de base, universitários e lideranças comunitárias, a Arquidiocese dizia que a favela era parte legítima da cidade e que os pobres tinham direito de permanecer onde estavam. Nascia ali uma tradição que resistiria a conjunturas e governos. Uma tradição feita de coragem, fé, análise da realidade e compromisso com a vida concreta dos moradores e moradoras.

Quarenta anos depois, dois nomes se confundem com a própria história dessa pastoralidade urbana. Monsenhor Manoel Manangão, hoje Vigário Episcopal da Caridade Social, carrega em sua voz a experiência de quem caminhou por décadas nas vielas da Rocinha. Monsenhor Luiz Antônio Pereira Lopes, coordenador da Pastoral da Moradia e Favela, é um desses sacerdotes que nunca se afastaram da periferia, do chão de barro, do esgoto a céu aberto e do grito de quem luta para pagar o aluguel, de quem enfrenta a fome, de quem sobrevive à informalidade e ao desemprego estrutural. Reencontrá los na Catedral depois de tantos anos foi para mim mais do que um reencontro humano. Foi reencontrar a própria história da cidade e de sua gente. Fiquei emocionado ao ver aqueles dois homens, que atravessaram as décadas com serenidade e vigor, ainda inteiros na militância pastoral, humanitária e social.

O Fórum deste ano integrava também as atividades da IX Semana Mundial dos Pobres, refletindo sobre o tema Tu és minha esperança. A programação era espiritual, simbólica, sociológica e política. Falava do Deus em quem os pobres depositam sua esperança nas noites frias da rua. Mas falava também do Estado que tantas vezes lhes vira as costas, incapaz de oferecer teto, renda, trabalho, saúde e dignidade. Nesse cruzamento entre fé e realidade, a Campanha da Fraternidade de 2026 apareceu como síntese. Fraternidade e Moradia. Ele veio morar entre nós. Morar implica endereço, vizinhança, responsabilidade compartilhada. A encarnação, nesse sentido, é uma chave para compreender a urgência da política habitacional. Se Deus mora entre nós, como aceitar que seus filhos e filhas durmam em marquises, ocupem barracos frágeis, enfrentem despejos violentos, vivam em aglomerados sem saneamento, sem água encanada regular, sem coleta de lixo, sem transporte decente.

Entre as falas da manhã, destacou se a palestra do padre Jean Paul Hansen sobre o texto base da campanha. Em linguagem clara, carregada de experiência e densidade pastoral, ele descreveu que a campanha não trata apenas de casas, tijolos ou loteamentos. Ela fala de gente. Fala das crianças que brincam em vielas onde corre esgoto. Dos adolescentes que crescem cercados por facções criminosas e por forças policiais que transformam territórios inteiros em praça de guerra. Nessa guerra, as facções utilizam moradores como escudo humano e as forças de segurança desconhecem a população local, tratada como danos colaterais. Fala dos idosos que sobem escadarias íngremes em encostas abandonadas pelo poder público. Fala dos trabalhadores que nunca puderam pagar aluguel e, por isso, buscam refúgio em ocupações marcadas pelo improviso e pela precariedade. Fala da população em situação de rua, que cresce de maneira dramática na capital, empurrada pela desigualdade, pela crise econômica, pela especulação imobiliária e pelo desmonte de políticas sociais.

Enquanto ouvia padre Jean Paul, recordei dos dados recentes do Rio. A população em situação de rua que aumentou visivelmente entre 2024 e 2025. As mais de vinte mil pessoas mapeadas em diferentes levantamentos, muitas delas famílias com crianças. A explosão de barracas improvisadas nas calçadas da Lapa, da Presidente Vargas, da Zona Sul. A extrema precariedade de quem vive do lado de fora de tudo. Recordei também das favelas que cresceram em número e habitantes nas últimas décadas, muitas delas em áreas antes consideradas marginais à expansão urbana. Nasce favela onde nasce abandono. Nasce favela onde o Estado não chega, mas a vida insiste em brotar. Nasce favela onde a desigualdade é tão grande que criar novas centralidades se torna questão de sobrevivência.

Nos morros do Rio, o saneamento ainda é privilégio. A água encanada falta em dias alternados em muitas comunidades. As ruas são becos estreitos. A energia elétrica pesa no orçamento doméstico e frequentemente surge em forma de gambiarras perigosas. As escolas fecham por operações policiais. Os postos de saúde interrompem atendimento porque as rajadas de fuzil transformam o território em campo de medo. As linhas de ônibus deixam de circular. O comércio fecha as portas. A cidade formal desconhece esse cotidiano. E quando os jornais falam em confronto, raramente dizem que naquele confronto há crianças tentando fazer dever de casa, há gestantes que precisam ir ao médico, há idosos que dependem de remédios, há trabalhadores que não conseguem chegar ao emprego. Para eles, o morador da favela é frequentemente um dado colateral, um ponto cego, um rosto sem nome.

É nesse cenário que o trabalho das Pastorais Sociais, do Vigariato da Caridade Social e da Pastoral da Moradia e Favela adquire densidade espiritual e sociológica. A Pastoral da Moradia e Favela, ao adotar um novo nome que honra a tradição da antiga Pastoral das Favelas, reafirma que moradia não é apenas um problema técnico. É um direito humano. Uma exigência ética. Uma manifestação concreta da fé cristã. Falar em moradia é falar em urbanismo inclusivo. É falar em participação popular. É falar em políticas públicas que levem infraestrutura onde jamais houve. Falar em favela é falar em território, identidade, cultura, memória e resistência. A pastoral que une moradia e favela reconhece que tratar da questão urbana no Rio envolve luta contra preconceito, racismo estrutural e discriminação espacial.

O Vigariato da Caridade Social funciona como o coração que bombeia esse compromisso para todos os cantos da Arquidiocese. Articulando Cáritas, Banco da Providência, Pastoral do Menor, Pastoral do Trabalhador, Pastoral de rua e tantas outras expressões da caridade organizada, o vigariato transforma indignação em projeto. Ele dialoga com defensorias públicas, ministérios públicos, universidades, movimentos de moradia, associaiações de moradores e organizações comunitárias. Ele recolhe doações, mas também enfrenta o poder público. Ele organiza mutirões, mas também participa de audiências públicas. Ele oferece escuta pastoral, mas também produz diagnósticos sociais que ajudam a orientar políticas.

Nesse trabalho, Monsenhor Manoel Manangão representa o eixo institucional e pastoral que costura tudo isso. Conhece a Rocinha como poucos. Conhece o sofrimento de quem vive em áreas onde a polícia entra atirando e onde facções criminosas impõem regras, horários e medos. Ao lado dele, Monsenhor Luiz Antônio preserva a história da Pastoral das Favelas e a atualiza na Pastoral da Moradia e Favela. Foi ele quem participou de debates sobre remoção de comunidades durante grandes obras. Foi ele quem esteve ao lado dos movimentos que defendiam o direito de permanecer. Foi ele quem dialogou com a FAFERJ, com a Defensoria Pública, com universidades, com lideranças comunitárias. É um sacerdote que conhece a cidade por dentro, pelas brechas, pelos becos, pelas histórias contadas nos salões paroquiais.

Sob o pastoreio de Dom Orani João Tempesta, essa tradição iniciada por Dom Eugênio Sales permanece viva. Dom Orani poderia ter reduzido a força das Pastorais Sociais a um conjunto de ações assistencialistas. No entanto, escolheu fortalecer o Vigariato da Caridade Social e dar continuidade ao trabalho histórico da Pastoral das Favelas. Quando a Arquidiocese abraça a Campanha da Fraternidade de 2026 como expressão de sua missão, reafirma que evangelizar no Rio significa enfrentar o conflito urbano, denunciar a desigualdade estrutural, acompanhar quem sofre e defender quem não tem voz.

Ao sair da Catedral naquele 15 de novembro, a crônica parecia se estender pela cidade. Nas ruas próximas, homens e mulheres em situação de rua organizavam seus poucos pertences. Nos morros, jovens compartilhavam vídeos de operações policiais e enchentes destruidoras. Nas cozinhas apertadas das favelas, panelas borbulhavam com criatividade e coragem. Em cada canto, percebia se que a moradia não é apenas teto. É lugar de pertencimento. É espaço de encontro. É segurança emocional. É o direito de existir sem medo de remoção, bala perdida, despejo ou abandono.

As Pastorais Sociais, a Pastoral da Moradia e Favela e o Vigariato da Caridade Social não resolvem sozinhos o déficit habitacional, o saneamento precário, a violência armada, o estigma territorial, o crescimento da miséria, a explosão da população em situação de rua. Mas fazem algo decisivo. Elas organizam a dor coletiva. Transformam compaixão em política. Conectam fé e levantamento de dados, espiritualidade e urbanismo, liturgia e estatísticas. Lembram que enquanto houver alguém dormindo na calçada, haverá entre nós um Cristo sem casa. Enquanto houver favela sem saneamento, haverá entre nós um Cristo com os pés no esgoto. Enquanto houver criança sem cama, haverá entre nós um Cristo que não tem onde reclinar a cabeça.

No fim, compreendo melhor o sentido do lema Ele veio morar entre nós. Deus não veio visitar. Não veio apenas consolar. Não veio propor evasões espirituais. Ele veio morar. Morar supõe endereço, vizinhança, responsabilidade. Se Deus mora entre nós, então a luta por moradia é parte da própria fé cristã. Significa proteger a encarnação contra todas as formas de exclusão. Significa que cada barraco demolido sem alternativa é um escândalo. Cada família despejada é uma ferida aberta. Cada remoção violenta é uma negação do próprio Evangelho.

Ao lembrar do abraço em Luiz Antônio e Manangão naquele salão de vidro, sinto que minha fé ganhou corpo novo. A liturgia da Palavra se prolongou na liturgia da cidade. E entendo que nossa tarefa, como cidadãs e cidadãos, como cristãos, como pesquisadoras e militantes, é seguir construindo uma fraternidade que mora, acompanha, luta, transforma e sonha. Uma fraternidade que não deixa ninguém do lado de fora. Uma fraternidade que insiste na possibilidade de um Rio onde a moradia não seja privilégio, mas sinal vivo da presença de Deus entre nós.

 * Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ

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