O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, afirmou que o número de casos suspeitos de intoxicação por metanol deve crescer nos próximos dias. A avaliação foi feita em entrevista à CNN nesta quarta-feira (01), quando destacou que o governo reforçou medidas de vigilância em todo o país e que a Polícia Federal abriu investigação para apurar se a distribuição da substância tem dimensão nacional e relação com o crime organizado.
Segundo Padilha, as equipes médicas foram orientadas a notificar imediatamente qualquer indício de intoxicação e a seguir protocolos específicos de diagnóstico e tratamento. “O reforço dado pelo Ministério da Saúde no nosso sistema de vigilância vai nesse sentido de chamar a atenção dos profissionais de saúde, que estão lá na ponta, que atendem os casos, que aumentem o número de notificação de casos suspeitos. Esse é o esforço”, afirmou.
Sintomas e protocolos
O ministro explicou que os sinais mais frequentes de intoxicação são náuseas, cólicas e alterações visuais, e reiterou a necessidade de atenção de médicos e cidadãos. “Nossa expectativa é que isso aumente a atenção também dos cidadãos. Quando chegam à unidade, às vezes contam os seus sinais, seus sintomas, mas não fazem alerta específico: ‘fui a um lugar, bebi algo de que eu não sabia a origem’. Tudo isso reforça. A minha expectativa é que a gente possa identificar mais casos suspeitos”, disse.
Padilha também orientou a população a observar três cuidados ao consumir bebidas alcoólicas: não dirigir, manter-se hidratado e bem alimentado, e garantir a procedência da bebida.
Antídotos e medidas emergenciais
Na entrevista, o ministro explicou que o principal antídoto contra o metanol é o etanol farmacêutico, diferente do usado em combustíveis ou em bebidas comuns, e que deve ser administrado sob supervisão médica. Ele também citou o fomepizol, medicamento cuja eficácia já foi comprovada, mas que não está disponível no Brasil nem em outros países do continente.
“O Ministério da Saúde já acionou o contato com a Organização Panamericana de Saúde e hoje vou fazer contato com as empresas que já produziram esse antídoto para vermos a possibilidade de importar e ter um estoque de reserva”, afirmou Padilha.
O alerta surge em meio ao aumento de casos em São Paulo, onde já foram registradas cinco mortes e 22 ocorrências suspeitas em setembro. O número equivale, segundo o ministro, à metade da média anual de intoxicações por metanol no país, o que classificou como “uma situação anormal”.
Avanço para outros estados
A crise ultrapassou as fronteiras paulistas. Em Pernambuco, dois homens morreram e outro perdeu parte da visão, com casos registrados em Lajedo e João Alfredo. O Hospital Mestre Vitalino, em Caruaru, notificou as ocorrências à Agência Pernambucana de Vigilância Sanitária (Apevisa), que iniciou fiscalizações em distribuidoras de bebidas.
No plano nacional, a PF abriu inquérito próprio para investigar a cadeia de adulteração e distribuição. O ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, reforçou a suspeita de que a contaminação não esteja restrita a São Paulo. “Tudo indica que há uma distribuição para além do estado de São Paulo, o que atrai a competência da PF”, afirmou.
Bares interditados e medo em São Paulo
Autoridades paulistas interditaram três estabelecimentos, incluindo o bar Ministrão, nos Jardins, onde a designer de interiores Radharani Domingos, de 43 anos, perdeu a visão após consumir caipirinhas com vodca. Outros bares e um minimercado tiveram produtos apreendidos. Em Americana, uma fábrica clandestina foi fechada, com 18 mil itens apreendidos.
Diante do risco, clubes tradicionais de São Paulo, como Hebraica, SPAC e Sírio, suspenderam a venda de destilados. “Por questão de saúde pública, está temporariamente suspensa a venda e a distribuição de bebidas alcoólicas destiladas no clube”, publicou o Hebraica.
Risco de falta de antídotos
A preocupação também se estende ao sistema de saúde. O Centro de Informação e Assistência Toxicológica (CIATox) da Unicamp alertou para a escassez de antídotos no país. Fabio Bucharetti, coordenador do centro, afirmou que hospitais podem precisar recorrer a alternativas emergenciais. “Pouca gente tem estoque em hospital. Muitas vezes a alternativa é utilizar uma bebida destilada por sonda até ter o antídoto. É o que recomendamos em algumas situações”, explicou.
Enquanto as investigações avançam, comerciantes e consumidores enfrentam um cenário de medo e desconfiança, que ameaça a rotina da vida noturna e levanta preocupações sobre segurança alimentar e saúde pública em diversas regiões do Brasil.
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