O mercado onde um policial militar de folga baleou pelas costas um home que furtara alguns pacotes de sabão em pó, na Zona Sul de São Paulo, continuou funcionando mesmo depois do acontecido. Imagens do vídeo interno da loja mostram clientes entrando e saindo do estabelecimento tranquilamente, apesar do corpo caído a poucos metros, no estacionamento.
A execução de Gabriel Renan da Silva Soares, de 26 anos, ocorreu no último dia 3 de novembro. Imagens do sistema de monitoramento da rede de mercados Oxxo mostram que Gabriel entrou no local às 22h44 e furtou quatro pacotes de sabão. Na saída, o policial militar Vinícius Lima Brito, que estava no caixa pagando itens, sacou sua arma da cintura e disparou várias vezes pelas costas da vítima. Segundo o boletim de ocorrência, foram 11 disparos. O policial alegou legítima defesa, mas as imagens desmentem essa versão.
Procurada, a Oxxo se manifestou lamentando profundamente o ocorrido, esclarecendo que o episódio envolveu duas pessoas “sem qualquer vínculo com nosso quadro de colaboradores ou terceiros”. A empresa informou que, imediatamente após o ocorrido, os colaboradores da unidade acionaram as autoridades competentes e iniciaram os protocolos de fechamento da loja, que ficou fechada das 23h até as 8h do dia seguinte. Durante esse período, a loja ficou à disposição das autoridades para investigação e perícia. A rede reiterou seu compromisso em colaborar com as investigações e se solidarizou com a família e os amigos de Gabriel.
Também em nota, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) informou que o policial foi afastado das atividades e que o caso é investigado pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). O caso foi registrado inicialmente no 98º Distrito Policial, do Jardim Miriam.
“As imagens mencionadas foram captadas, juntadas aos autos e estão sendo analisadas para auxiliar na apuração dos fatos. Familiares da vítima foram ouvidos e diligências estão em andamento para identificar e qualificar a testemunha que esbarrou na vítima durante sua fuga do estabelecimento comercial, momentos antes de ser alvejado. A Polícia Militar acompanha as investigações, prestando apoio à Polícia Civil”, diz a pasta. Ainda segundo a secretaria, caso seja comprovada a responsabilidade criminal do agente, há “a possibilidade de processo disciplinar que poderá resultar na sua exclusão da Instituição”.
A advogada e tia da vítima, Fátima Taddeo, contou ao GLOBO que o sobrinho era usuário de drogas K e que estava tentando largar o vício. A família se preocupou quando, pela manhã do dia 4, uma segunda-feira, o jovem ainda não havia voltado para casa. O irmão da vítima passou em frente ao mercado e ficou sabendo que alguém havia sido baleado e avisou os pais, que foram até o local, onde descobriram que a vítima era seu filho.
— Quando a gente correu para a delegacia, vimos no BO, morte por intervenção policial, tentativa de roubo e resistência. Só que aí a gente falou: no mesmo boletim fala que tem 11 perfurações no corpo. Se ele estava tentando furtar, por que está roubo aqui? Furto é um crime cometido sem grave ameaça, por que um policial, teoricamente preparado, precisava de 11 tiros para deter um usuário de drogas tentando furtar? Isso não é legítima defesa — disse.
Desde o ocorrido, a família sempre questionou a versão do militar e pedia imagens do estabelecimento para apurarem a dinâmica dos fatos e foram várias vezes ao DHPP acompanhar como estava o inquérito. Os registros das câmeras só foram encaminhados aos investigadores no dia 29 de novembro.
No boletim, o policial afirmou que Gabriel “estava armado, colocando a mão dentro da blusa” e “afirmou estar armado”, o que “obrigou Vinícius a efetuar disparos” contra a vítima. Ele morreu no local. Um atendente do mercado corroborou as falas do PM.
— Mas as imagens já confirmam tudo o que a gente já sabia, que ele tinha sido executado, e que os depoimentos tanto do policial quanto do atendente eram mentirosos. E as imagens mostram que nada disso é verdade, que ele entra, furta, escorrega no papelão na saída da loja e o policial simplesmente saca a arma e atira, sem dar uma palavra com ele. O Gabriel não soube nem de onde vieram os tiros, muito cruel — acrescentou Fátima Taddeo.
O secretário de Segurança Pública, Guilherme Derrite, publicou uma nota em suas redes sociais afirmando que a ação será punida, e fez referência a outro caso de violência policial, na qual agentes jogaram um homem em um rio. “Anos de legado da PM não podem ser manchados por condutas antiprofissionais. Policial não atira pelas costas em um furto sem ameaça à vida e não arremessa ninguém pelo muro. Pelos bons policiais que não devem carregar fardo de irresponsabilidade de alguns, haverá severa punição”, disse.
O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) também se manifestou sobre os dois casos em suas redes. “Policial está na rua pra enfrentar o crime e pra fazer com que as pessoas se sintam seguras. Aquele que atira pelas costas, aquele que chega ao absurdo de jogar uma pessoa da ponte, evidentemente não está à altura de usar essa farda. Esses casos serão investigados e rigorosamente punidos. Além disso, outras providências serão tomadas em breve”, escreveu em uma publicação.
O estado de São Paulo vive uma escalada na letalidade policial na gestão Tarcísio, e em novembro já havia registrado a morte de 673 pessoas, segundo dados do Grupo de Atuação Especial da Segurança Pública e Controle Externo da Atividade Policial (Gaesp), do Ministério Público de São Paulo. O número é 46% maior do que as mortes decorrentes de intervenção policial registradas em todo o ano passado, um total de 460.
Com informações de O Globo.





