Quatro meses antes de ser alvo de uma ordem de prisão da Justiça Federal de Brasília, o empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, teria recebido arquivos confidenciais relacionados a investigações em curso no Ministério Público Federal (MPF). O material incluía procedimentos sob sigilo que tratavam de irregularidades envolvendo a negociação do banco com o BRB. As informações são da repórter Malu Gaspar, em O Globo.
Mensagens obtidas por investigadores mostram que os documentos foram encaminhados ao banqueiro em 24 de julho de 2025 por Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como ‘Sicário’. O conteúdo foi encontrado no celular apreendido pela Polícia Federal após a primeira prisão de Vorcaro, quando ele tentava embarcar para Dubai com escala em Malta.
Entre os arquivos compartilhados estavam três relatórios da Procuradoria da República no Distrito Federal. Dois deles tratavam do controverso acordo entre o Banco Master e o BRB, classificado pela Justiça como um negócio marcado por favorecimentos. O terceiro procedimento analisava suspeitas de que um triplex avaliado em cerca de R$ 60 milhões teria sido usado como propina nas negociações.
Investigação ainda estava em estágio inicial
O procedimento relacionado ao imóvel de luxo ainda estava em fase preliminar de coleta de informações quando o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou o envio de investigações ligadas ao caso para análise da Corte em dezembro do ano passado.
As mensagens analisadas confirmam o envio dos documentos a Vorcaro, embora a sequência completa das conversas não tenha sido localizada pelos investigadores. Ainda assim, os registros indicam que o banqueiro tinha conhecimento antecipado de apurações sensíveis conduzidas pelo MPF.
De acordo com a Polícia Federal, Vorcaro e aliados utilizavam palavras-chave como ‘Banco Master’, ‘Vorcaro’ e ‘Nelson Tanure’ para localizar procedimentos confidenciais. Tanure é apontado pelos investigadores como possível sócio oculto do banco.
Problemas financeiros pressionavam banco
Na época em que as mensagens foram enviadas, o Banco Central já havia identificado dificuldades financeiras do Banco Master. O órgão regulador alertava para riscos de liquidez e a possibilidade de adoção de medidas preventivas para evitar colapso financeiro.
A negociação com o BRB era considerada crucial para a sobrevivência da instituição. Meses antes, em abril de 2025, o Banco Central notificou o Master de que as medidas adotadas até então não haviam sido suficientes para reduzir os riscos financeiros do conglomerado.
Auditoria do Tribunal de Contas da União apontou ainda irregularidades em carteiras de crédito cedidas ao BRB. Segundo o relatório, teriam sido utilizados artifícios contábeis para mascarar a real situação financeira do banco, incluindo operações consideradas suspeitas e sem comprovação adequada.
Suspeita de vazamento da ordem de prisão
Além de acessar dados do MPF, as investigações indicam que Vorcaro teve acesso indevido a sistemas internos da própria Polícia Federal e até de organismos internacionais como FBI e Interpol.
A Polícia Federal também investiga a possibilidade de vazamento da ordem de prisão do empresário. A suspeita surgiu após a defesa do banqueiro enviar uma petição à Justiça no mesmo dia em que a decisão judicial foi assinada pelo juiz Ricardo Leite, da 10ª Vara Federal de Brasília.
A manifestação dos advogados chegou ao tribunal apenas 18 minutos após a assinatura da ordem de prisão, levantando questionamentos entre investigadores sobre como a defesa teria tido conhecimento prévio da decisão.
Hackeamento e acesso ilegal a sistemas
A terceira fase da operação Compliance Zero, autorizada pelo ministro André Mendonça, apontou que Vorcaro possuía informações antecipadas sobre diligências e procedimentos ligados às investigações.
Segundo a decisão judicial, o comparsa conhecido como Sicário realizava consultas e extrações de dados em sistemas restritos de órgãos públicos utilizando credenciais funcionais de terceiros. Dessa forma, conseguia acessar bases protegidas por sigilo institucional.
Entre os sistemas comprometidos estavam bancos de dados da Polícia Federal, do Ministério Público Federal e de organismos internacionais de cooperação policial.
Golpe digital contra servidores públicos
As investigações também revelaram que o grupo utilizou uma técnica conhecida como spearfishing para obter credenciais de acesso de servidores do MPF. O método consiste no envio de e-mails falsos simulando páginas oficiais de troca de senha.
De acordo com fontes ligadas à apuração, Sicário criou uma interface digital praticamente idêntica ao sistema utilizado por funcionários da Procuradoria-Geral da República, aumentando as chances de sucesso do golpe.
Servidores que receberam as mensagens falsas foram levados a inserir seus dados de acesso no ambiente fraudulento. Com isso, o grupo conseguiu obter credenciais válidas e acessar procedimentos sigilosos que investigavam o Banco Master.
Defesa evita comentar investigação
Procurada pela reportagem, a defesa de Daniel Vorcaro afirmou que não comentará informações provenientes de supostos vazamentos de material sigiloso.
Segundo os advogados, os fatos já estão sendo analisados em investigação criminal conduzida por determinação do ministro André Mendonça no Supremo Tribunal Federal.
A defesa acrescentou que qualquer manifestação pública sobre conteúdos obtidos dessa forma poderia contribuir para a disseminação de dados cuja divulgação também está sob apuração pelas autoridades.






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