As mensagens trocadas entre Bruno Henrique, atacante do Flamengo, e familiares próximos trouxeram novos contornos ao já conhecido caso de suspeita de manipulação de apostas esportivas. Segundo reportagem exibida neste domingo (21) pelo Fantástico, da TV Globo, os diálogos obtidos pela Polícia Federal reforçam a hipótese de que o jogador teria avisado previamente que receberia um cartão amarelo na partida contra o Santos, pelo Campeonato Brasileiro, no dia 1º de novembro de 2023.
As conversas fazem parte do relatório da PF, elaborado após a análise de celulares e computadores apreendidos em novembro do ano passado. O material aponta que Bruno Henrique teria fornecido informações privilegiadas ao irmão, Wander Nunes Pinto Junior, que por sua vez as repassou a um grupo de apostadores que incluía familiares e amigos. No total, dez pessoas foram indiciadas — entre elas o próprio jogador, que pode responder por fraude em competição esportiva e estelionato.
“Contra o Santos”: a promessa de um cartão
Em uma das mensagens reveladas pelo Fantástico, enviada dois meses antes da partida, Wander pergunta ao irmão se ele já estava pendurado com dois cartões amarelos e pede que avise quando fosse “forçar o terceiro”. Bruno Henrique responde de forma direta: “Contra o Santos”. Três dias antes do jogo, o atacante retoma a conversa e liga para o irmão, em um contato que a polícia acredita ter sido feito para confirmar a execução do plano.
Envolvimento familiar e contas de terceiros
As mensagens inéditas revelam ainda o envolvimento dos pais dos irmãos e da esposa de Wander, Ludymilla Araújo Lima. Em conversa com a mãe, Wander reclama que sua conta em uma das operadoras foi bloqueada por excesso de apostas no nome de Bruno Henrique. Ele então solicita dados de terceiros — como CPF, e-mail e data de nascimento — para abrir novas contas e continuar as apostas. Também encaminha boletos de apostas para que a mãe efetue os pagamentos.
Em outro trecho, Wander conversa com Ludymilla sobre uma quantia atrelada a uma conta em nome dela, afirmando que se trata do pagamento de uma aposta que ele fez. A PF investiga se era ele quem, de fato, operava essas contas.
Um mês após o jogo, Wander volta a procurar Bruno e relembra: “No dia que você me deu a ideia do cartão, eu apostei R$ 3 mil pra ganhar R$ 12 mil. Só que até hoje ele não pagou. Está sob análise. O dinheiro tá todo preso lá”. A frase reforça a suspeita de que o cartão teria sido planejado e usado como alavanca para as apostas.
Apostas concentradas e origem comum
A Polícia Federal descobriu que até o dia da partida foram registradas 14 apostas em casas diferentes, feitas a partir de 13 contas — sendo seis criadas na véspera do confronto. Todas as apostas tinham como foco o cartão amarelo para Bruno Henrique, e a maioria delas vinha de Belo Horizonte, cidade natal do jogador. O padrão das operações chamou a atenção das casas de apostas e foi o ponto de partida para o alerta repassado à PF por uma associação internacional que monitora o mercado.
Caminho judicial e esportivo
Com o relatório em mãos, cabe agora ao Ministério Público decidir se apresenta denúncia formal à Justiça, o que transformaria os indiciados em réus. Na esfera esportiva, o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) irá analisar a documentação. Bruno Henrique pode seguir atuando normalmente até que uma eventual denúncia seja aceita e julgada. Em caso de condenação, ele pode ser suspenso ou até banido do futebol.
A defesa do jogador, em nota assinada pelo advogado Ricardo Pieri, afirma que Bruno Henrique “é conhecido e respeitado por sua simplicidade e comprometimento com o esporte”, nega qualquer envolvimento com esquemas de apostas e reforça que o atleta defende a regulação mais rígida do setor. O Flamengo declarou que acompanha o caso com atenção, reafirma seu compromisso com a ética esportiva e defende a presunção de inocência do jogador.
A íntegra das mensagens e outros detalhes do caso estão disponíveis nas plataformas digitais e podcasts do Fantástico.





