Numa quarta-feira nublada de outubro do ano passado, a estátua do líder do povo temiminó Araribóia foi deslocada do local onde se encontrava, desde 1973, em frente à estação das barcas. Era uma referência cultural que “recepcionava” quem desembarcava na cidade. Ela foi inaugurada nas comemorações dos 400 anos de Niterói e substituiu um busto de bronze do morubixaba, que ficava no local desde 1914. Só que mesmo indo para a mesma calçada, cerca de cem metros à esquerda, a mudança, a terceira da história da peça, gerou controvérsia.  

Uns disseram que trocar estátua de lugar como quem ajeita os souvenires de viagem na estante era falta de consideração com o homenageado. Outros, se perguntavam por que criar um banzé em torno de um personagem que aparece na maioria dos livros escolares como nota de rodapé, quando aparece. No entanto, sem ele, a Guanabara provavelmente teria hoje nome francês, e o Rio não cometeria a injustiça de homenagear como fundador o português e nome de escola de samba Estácio de Sá. Que morreu antes mesmo de governar. 

O pesquisador Luiz Antonio Simas, um dos maiores especialistas em cultura e história do Rio de Janeiro, relatou que, nas deliberações do Comitê dos 450 anos de fundação da cidade, o nome de Araribóia “não entrou pacificamente no rol dos heróis consensuais do Estado”, despertando, nas suas palavras, “estranhamento e até oposição”. Em um país que dá a Tiradentes, um herói altamente hypado, até feriado nacional, um guerreiro brabo que literalmente salvou o Brasil de uma invasão é até hoje fonte de “estranhamento”.  

Mas ele foi um estrategista brilhante que entendeu que a sobrevivência do seu povo, os Temiminós, dependia de uma aposta arriscada com os portugueses. Araribóia não era apenas um “auxiliar”; ele era a inteligência, a força bruta e o GPS humano que permitiu que o Rio deixasse de ser um sonho francês para se tornar a realidade carioca que conhecemos. Mas, tudo bem. Vamos contar essa história direito. 

Quem era Araribóia? 

Araribóia nasceu nos anos 1520 e era filho de Maracajá-guaçu (o “Gato Grande”), principal chefe dos Temiminós, um povo que habitava o atual bairro de São Cristóvão, parte de Niterói, e a ilha que os tupis chamavam de Paranapuã (pequena terra fértil); os franceses de Isle Belle (“ilha bela”); os portugueses, de Ilha do Gato; e você conhece como Ilha do Governador. Sua localização no meio da Baía de Guanabara ajudava a repelir inimigos. 

O nome Araribóia, grafado muitas vezes como Ararigboya, tem raízes no tupi antigo. Segundo Rafael Freitas da Silva em sua pesquisa citada pela Fundação de Arte de Niterói, a etimologia remete a araryboîa, que significaria Cobra Serpente, ou Cobra Feroz. 

Segundo os jesuítas, Araribóia devia ser quase um Viltrumita. Um homem que se impunha só pela presença. Era muito mais alto que os demais Temiminós, musculoso e tinha uma capacidade nata de noções de estratégia. Não era só mais um morubixaba, era o líder dos últimos Temiminós, após a derrota para os Tamoios, com uma mãozinha da França. 


Arariboia: o guerreiro mais temido da Guanabara | Crédito: Reprodução

Os inimigos do Sul 

Os Tamoios eram a nação indígena mais poderosa e numerosa da Guanabara e do litoral norte paulista. O nome “Tamoio” vem de tamuya, que significa “os avós” ou “os mais velhos”, indicando que eles se consideravam os ocupantes originais e legítimos daquelas terras.  

Eles viviam em grandes confederações de aldeias, possuindo uma estrutura social complexa e uma capacidade de mobilização de guerra que assombrava tanto outros indígenas quanto os colonizadores europeus. Estima-se que sua população chegasse a cerca de 70 mil indivíduos espalhados em centenas de aldeias. 

A Guerra da Guanabara

As duas tribos eram inimigas históricas antes mesmo da invasão europeia. Os Tamoios, muito mais numerosos, cercavam Paranapuã por todos os lados e pressionavam os Temiminós continuamente.  

Com a chegada dos franceses à Guanabara em 1555, os Tamoios se aliaram aos invasores europeus, que forneceram arcabuzes, pólvora e até artilharia pesada de seus navios aos seus aliados indígenas, permitindo que os Tamoios dominassem a Baía de Guanabara e expulsassem os Temiminós que sobreviveram de suas terras. 

Na iminência de serem dizimados, os Temiminós, liderados pelo pai de Araribóia, Maracajá-Guaçu, pediram socorro aos portugueses. E estes os resgataram em quatro naus, transportando-os da Guanabara para o sul do Espírito Santo, onde se refugiaram.  

As alianças dos indígenas com portugueses e franceses definiram a Guerra da Guanabara | Crédito: Reprodução

Mas o que foi mesmo a França Antártica? 

Tudo bem, para você que faltou a essa aula na escola, foi uma colônia francesa estabelecida na Baía de Guanabara entre 1555 e 1567. O projeto foi idealizado pelo cavaleiro de Malta Nicolas Durand de Villegagnon, que, com o apoio do almirante Gaspar de Coligny e do rei Henrique II da França, pretendia criar um refúgio para huguenotes (calvinistas franceses) nas Américas. 

Em 10 de novembro de 1555, Villegagnon desembarcou na ilha de Serigipe (atual Ilha de Villegagnon) e construiu o Forte Coligny. Em seguida, os franceses aliaram-se aos Tamoios, e passaram a ameaçar diretamente os domínios portugueses no sul do Brasil. 

 A França Antártica só foi definitivamente derrotada em 1567, na Batalha de Uruçumirim, embora remanescentes da aliança franco-tamoia tenham resistido até cerca de 1570, quando foram vencidos na Batalha de Cabo Frio. 

Porque os portugueses foram buscar apoio junto aos Temiminós? 

Mem de Sá, governador-geral do Brasil entre 1558 e 1572, percebeu que não conseguiria expulsar os franceses da Guanabara sem o apoio de aliados indígenas. Inspirado pela estratégia francesa de aliança com os Tamoios, Mem de Sá enviou seu sobrinho, Estácio de Sá, para recrutar os Temiminós, que haviam se refugiado no Espírito Santo. 

Araribóia, por sua vez, viu nos portugueses uma chance de retomar suas terras na Guanabara e vingar-se dos Tamoios. Não necessariamente nessa ordem. Em 1560, Araribóia liderou mais de oito mil guerreiros temiminós que se juntaram às forças portuguesas, oferecendo não apenas braços para a luta, mas também conhecimento profundo do território da Guanabara. 

Mapa da França Antarctica | Crédito: Reprodução

A fundação entre morros 

Em 1º de março 1565, Estácio de Sá desembarcou na pequena enseada entre o Pão de Açúcar e o Morro Cara de Cão. Ali, ele fundou uma cidadela fortificada feita de taipa e estacas de madeira. Era um posto avançado precário, cercado por milhares de inimigos e longe de qualquer apoio imediato. O local foi escolhido por sua capacidade defensiva, permitindo o controle da entrada da baía enquanto se aguardava por improváveis reforços. Esta cidadela foi o núcleo original do que viria a se tornar o Rio de Janeiro. 

A construção dessa fortaleza foi um ato de audácia extrema. Os portugueses sabiam que estavam em território hostil, mas a presença dos Temiminós de Araribóia foi o que permitiu que o assentamento não fosse varrido do mapa na primeira semana. 

Estácio de Sá contava com cerca de 200 a 300 soldados portugueses, muitos dos quais eram degredados ou aventureiros sem experiência militar. Em contraste, os mais de oito mil guerreiros Temiminós de Araribóia. 

Dois anos de cerco: a guerra diária 

A fortaleza de Estácio de Sá viveu sob um estado de sítio constante por quase dois anos (1565-1567). Os ataques dos franceses e seus aliados Tamoios eram diários. Eles utilizavam táticas de guerrilha, atacando ao amanhecer ou à noite, tentando incendiar as paliçadas e esgotar os defensores. Canoas Tamoias patrulhavam as águas, impedindo que os portugueses pescassem ou buscassem água potável com facilidade. 

Foi nesse cenário de “moedor de carne” que a liderança de Araribóia se provou indispensável, mantendo o moral dos guerreiros elevado e repelindo invasões que pareciam impossíveis de conter. Somente em 1567, com a chegada de reforços enviados por Mem de Sá, os portugueses conseguiram passar ao ataque e romper o cerco. 


O governador-geral Mem de Sá | Crédito: Reprodução

A dependência de Araribóia: o guia, o caçador e o soldado 

É um fato histórico documentado que os portugueses dependiam de Araribóia para absolutamente tudo. Como não conheciam as plantas locais e tinham medo de se aventurar na mata densa, os Temiminós eram os únicos que iam caçar e coletar alimentos para evitar a fome generalizada. Araribóia organizava patrulhas de suprimento que furavam o bloqueio Tamoio para trazer palmito, caça e raízes para dentro da fortaleza. 

Os Temiminós conheciam os caminhos pelas matas, identificavam aldeias inimigas, sabiam em quais rios pescar e em quais não se aventurar. Araribóia e seus guerreiros faziam as patrulhas noturnas, garantiam o abastecimento da guarnição e serviam de inteligência militar em um território que os portugueses simplesmente não dominavam. 

O cronista francês André Thevet, que acompanhou a primeira expedição de Villegagnon em 1555 e deixou registros em La Cosmographie Universelle (Paris, 1575), é uma das fontes primárias que descrevem a dinâmica dessas batalhas na Guanabara.  E a dependência portuguesa da aliança com os Temiminós fica escancarada em cada página. 

A Batalha de Uruçumirim 

Em 20 de janeiro de 1567 (dia de São Sebastião), as forças combinadas de Mem de Sá (que chegara com reforços), Estácio de Sá e Araribóia lançaram um ataque massivo contra o principal reduto francês e Tamoio na atual região da Glória e Flamengo. Foi uma batalha brutal, travada em pântanos e trincheiras, que decidiu o destino do Rio de Janeiro. 

Em algum país mais preocupado com sua cultura, o que aconteceu daria um baita filme. 

Existe uma tradição oral e histórica fortíssima que diz que Araribóia atravessou a Baía de Guanabara a nado para liderar um ataque surpresa. Embora alguns historiadores modernos vejam isso como uma hipérbole poética, outros apontam que, para um guerreiro tupi daquela época, cruzar grandes distâncias a nado não era algo impossível, especialmente para alguém com o preparo físico de Araribóia, que em todos os relatos parecia ser uma espécie de Brucutu, Umpa-Pá ou Capitão América.

Durante o ataque a Uruçumirim, Araribóia protagonizou o ato mais lendário da guerra. Relatos da época afirmam que ele foi o primeiro a escalar o baluarte inimigo, enfrentando uma chuva de flechas e disparos. Em um movimento audacioso, ele conseguiu penetrar nas defesas e explodir o paiol de pólvora dos franceses e Tamoios. A explosão causou pânico generalizado entre os defensores e abriu o buraco necessário para que o restante das tropas portuguesas e indígenas invadisse a fortaleza. 

Após a vitória, os franceses sobreviventes fugiram pro mato e o Rio de Janeiro foi transferido para o Morro do Castelo, onde a cidade se consolidou definitivamente. 

O palco da Batalha de Uruçumirim nos dias de hoje | Crédito: Reprodução

O reconhecimento ao herói 

Araribóia é, sem dúvida, o indígena mais reconhecido e condecorado pela Coroa Portuguesa em toda a história do Brasil colonial. Por seus serviços inestimáveis, ele recebeu o nome cristão de Martim Afonso de Souza (em homenagem ao donatário da capitania de São Vicente), foi agraciado com o título de “Capitão-Mor da Aldeia”, recebeu um hábito de cavaleiro da Ordem de Cristo e uma tença (pensão) vitalícia paga pelo rei de Portugal. 

Nenhum outro líder indígena daquele século recebeu tantas honras formais. Araribóia era tratado com o protocolo devido a um nobre, vestindo-se ocasionalmente com roupas europeias que lhe eram enviadas pelo próprio rei de Portugal e portando as insígnias de sua ordem em cerimônias oficiais.  

E para quem gosta de investigar mistérios do passado, a Ordem de Cristo, da qual Araribóia tornou-se cavaleiro, era a sucessora direta da famosa Ordem dos Templários em Portugal. Após a extinção dos Templários pelo Papa, o rei D. Dinis de Portugal criou a Ordem de Cristo para herdar os bens e a missão de defesa da fé da antiga ordem. Foi sob a bandeira da cruz vermelha que as caravelas portuguesas cruzaram os oceanos, marcando o símbolo máximo do expansionismo lusitano. 

A Sesmaria de São Lourenço: O nascimento de Niterói 

Em 1573, como recompensa final por sua lealdade, Araribóia recebeu uma vasta sesmaria no “outro lado” da Baía de Guanabara. O objetivo dos portugueses era estratégico: colocar o guerreiro mais temido da região exatamente no ponto de entrada da baía, para que ele servisse como a sentinela definitiva. Esse terreno recebeu o nome de São Lourenço dos Índios, onde Araribóia fundou uma aldeia com seu povo Temiminó. 

Essa ocupação é amplamente reconhecida pelos historiadores como o marco zero e a origem da cidade de Niterói. Enquanto o Rio se desenvolvia na margem ocidental, Niterói nascia na margem oriental sob a liderança de Araribóia. A Igreja de São Lourenço dos Índios, erguida naquela época, permanece como um testemunho silencioso do tempo em que um cacique indígena era o senhor absoluto daquelas terras, com total reconhecimento e apoio da Corte Portuguesa. 

Igreja de São Lourenço dos Índios | Crédito: Reprodução

O mistério da morte 

Araribóia terminou os seus dias em conflito com o novo governador-geral Antônio Salema (1575–1577). Na cerimônia oficial de posse, Araribóia sentou-se cruzando as pernas. O fato desagradou o novo governador, que o repreendeu. Araribóia rebateu retrucando: “Minhas pernas estão cansadas de tanto lutar pelo seu Rei, por isto eu as cruzo ao sentar-me, se assim o incomodo, não mais virei aqui.” O já idoso cacique voltou, então, para a sesmaria de Niterói, nunca mais retornando ao Rio. 

A causa da morte de Araribóia é incerta. Por muito tempo, acreditou-se que ele se afogara nas imediações da Ilha de Mocanguê, em 1589. Essa versão passou a ser contestada, no entanto, após o pesquisador Serafim Leite encontrar uma carta jesuítica datada do mesmo ano, que informava que Araribóia falecera vítima de uma epidemia.  

Uma terceira versão, mencionada por alguns historiadores, sugere que alguns portugueses traiçoeiros teriam presenteado Araribóia e sua tribo com roupas contaminadas com varíola. A verdade histórica, neste ponto, permanece disputada. 

Independentemente da causa exata, sua morte marcou o fim de uma era de transição. Com sua partida, a liderança indígena começou a perder espaço para o crescente poder administrativo colonial, mas o legado de Araribóia já estava cravado na geografia e na alma das duas cidades que ele ajudou a fundar e defender. 

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