Um grupo de médicos cooperados da Unimed-Rio defende a realização de uma perícia minuciosa nas contas da cooperativa como forma de identificar as causas da situação considerada caótica que atinge a operadora. Sem receber a chamada produção cooperativista há mais de oito meses, profissionais relatam prejuízos financeiros, impacto na saúde mental e suspensão de atendimentos, enquanto usuários enfrentam dificuldades para marcar consultas e procedimentos.
Movimento de médicos ganha força nas redes
Diante da crise, médicos da Unimed-Rio criaram um grupo de cooperados e um movimento nas redes sociais batizado de “UnimedRioUnião”, no qual denunciam o que chamam de descaso da atual diretoria. O grupo também lançou uma petição pública, que já reúne 2.394 assinaturas de médicos cooperados, exigindo o pagamento imediato dos valores em atraso e maior transparência na gestão financeira da cooperativa.
Na avaliação dos profissionais, a falta de informações claras sobre as finanças da Unimed-Rio agrava a instabilidade. “A atual diretoria da Unimed Rio quebrou a confiança do mercado e agora colhe os frutos desta terra arrasada”, afirma uma das postagens recentes do movimento, que diz alertar há anos para o risco de colapso no sistema.
Suspensão de atendimentos e alerta antigo
Muitos médicos relatam que, diante da inadimplência prolongada, não tiveram alternativa a não ser suspender o atendimento aos usuários do plano em consultórios particulares. Segundo eles, o cenário atual já era previsto e agora se reflete também na decisão de hospitais de interromper serviços.
Nesta segunda-feira (6), a Associação de Hospitais do Estado do Rio de Janeiro (Aherj) aprovou, em assembleia, a intenção de notificar órgãos de controle para interromper o atendimento à Unimed em até 30 dias. A entidade reúne 107 hospitais e clínicas, embora cerca de 40 façam parte da rede credenciada. A Aherj sustenta que a Unimed Ferj acumula dívidas superiores a R$ 2 bilhões, valor contestado pela operadora.
Reação da ANS e críticas dos cooperados
A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) reagiu duramente à possibilidade de suspensão coordenada dos atendimentos. Em declaração ao jornal O Globo, o diretor-presidente da agência, Wadih Damous, afirmou que a iniciativa “beira o ilícito” por colocar em risco a saúde dos beneficiários. Segundo ele, hospitais e clínicas devem buscar meios legais de cobrança sem comprometer serviços essenciais.
Apesar disso, a atuação da ANS vem sendo questionada pelos médicos cooperados. Eles criticam a autorização para a transferência da carteira da Unimed-Rio para a Unimed Ferj e, mais recentemente, para a Unimed do Brasil, sem que, segundo afirmam, os problemas estruturais tenham sido sanados. “A ANS apenas mudou o problema de endereço”, diz outro trecho da manifestação dos médicos.
Histórico da crise e questionamentos
Os cooperados se articulam desde outubro contra a atual gestão. Naquele mês, foi realizada uma Assembleia Geral Ordinária (AGO) para discutir a crise, sem apoio da diretoria da cooperativa nem da Unimed Ferj. Entre as principais reivindicações está a perícia contábil geral para apurar os fatores que levaram a Unimed-Rio à situação atual.
Os médicos também questionam o cumprimento de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado em 2016 com a ANS, que previa um prazo de dez anos para a recuperação da operadora. Segundo eles, o acordo não foi efetivamente cumprido e a agência não teria adotado medidas suficientes para evitar o agravamento da crise.
Outro ponto de crítica é a ausência de uma Análise de Impacto Regulatório (AIR) quando a carteira foi transferida para a Unimed Ferj, em março de 2024, e quando foi instaurada direção técnica na federação, em setembro de 2025.
O que diz a ANS
Em nota, a ANS afirmou que acompanha a situação da Unimed-Rio desde 2015, quando a operadora entrou em regime de direção fiscal e, posteriormente, de direção técnica. A agência sustenta que a transferência de carteira foi realizada de forma voluntária pelas operadoras envolvidas e que a AIR não se aplica a atos administrativos de efeitos concretos, como esse tipo de operação.
Sobre a perícia contábil, a ANS declarou que não interfere nas relações societárias entre cooperados e cooperativas, limitando sua atuação à proteção dos consumidores. A agência também informou que mantém articulação com o Ministério Público, a Defensoria Pública e representantes do Sistema Unimed para evitar a desassistência aos usuários.
Impacto humano e apelo por solução
Na petição, os médicos relatam que a falta de pagamento tem causado ansiedade, depressão, insônia e problemas de saúde, além de comprometer a continuidade dos atendimentos. Eles ressaltam que os usuários seguem pagando suas mensalidades em dia, sem explicações oficiais para o atraso nos repasses aos profissionais.
O grupo faz um apelo para que a ANS intervenha de forma mais efetiva, garantindo pagamentos imediatos, transparência e uma solução estrutural que restaure a confiança no sistema. “É urgente evitar que mais profissionais da saúde sejam forçados a fechar seus consultórios por falta de condições básicas de sobrevivência”, afirmam.






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