Maricá brilha à noite: entenda o fenômeno que bombou nas redes

Rastros iluminados criaram um show de cores e formas

O inventivo diretor Wes Anderson lançou em 2004 uma de suas obras-primas. Em “A vida aquática de Steve Zizou”, ele tirou sarro com o famoso oceanógrafo Jacques Cousteau, pôs Seu Jorge tocando versões amalucadas de sucessos de David Bowie ao violão e, em uma das sequências, colocou carambolas na cabeça de muita gente: o personagem principal, interpretado pelo impagável Bill Murray, vai filmar numa praia onde estão centenas de exemplares de uma espécie de águas-vivas, que reluzem coloridas ao luar.

Para a maioria dos espectadores, era só mais uma das muitas piadas do longa. Só que no mês passado, em Maricá, a natureza demonstrou que, mais uma vez, a vida supera a arte. Remadores que estavam na Lagoa Jacaroá, viram o movimento dos remos criar feixes de luz azulada irromperem nas águas. Rastros iluminados seguiam o caminho dos peixes, criando um show de cores e formas. Este espetáculo, que parece mesmo efeito especial de cinema é, na verdade, um fenômeno natural chamado bioluminescência.

O que é a bioluminescência?

A bioluminescência é a capacidade que alguns seres vivos têm de produzir e emitir luz por meio de reações químicas em seus próprios corpos. Essa luz é gerada por uma reação entre uma substância chamada luciferina e uma enzima chamada luciferase, na presença de oxigênio. Diferente de outras formas de iluminação, a bioluminescência é extremamente eficiente, produzindo luz com pouquíssimo calor.

Ela é comum em organismos marinhos, como alguns peixes, águas-vivas, algas e plânctons, mas também ocorre em insetos terrestres, como os vaga-lumes. Os seres vivos usam a bioluminescência para várias finalidades, como atrair presas, se camuflar, se comunicar ou afastar predadores. Em resumo: é uma “luz viva”, produzida por organismos como parte de sua biologia natural.

Microalgas iluminam a Lagoa Jacaroá | Reprodução

Onde ela ocorre com mais frequência?

A bioluminescência ocorre com mais frequência no ambiente marinho, especialmente nas profundezas dos oceanos. Estima-se que mais de 75% dos organismos das águas profundas sejam bioluminescentes de alguma forma.  Algumas espécies de plâncton brilham quando a água é agitada — por ondas, embarcações ou até nadadores.  O fenømeno é visível com mais frequência em lugares como a Baía Mosquito, em Porto Rico; na Ilha de Vaadhoo, que faz parte do arquipélago das Maldivas; nos mares da Tailândia e, em raríssimas ocasiões, em praias da Paraíba e Bahia

Se é raro, como foi acontecer numa laguna de Maricá?

Por uma boa notícia. Esse processo foi favorecido pelo desassoreamento dos canais, iniciado em fevereiro de 2025 pela Prefeitura de Maricá para melhorar a circulação de água entre o mar e a lagoa. Um dos resultados é que microalgas do tipo dinoflagelado que entraram na Lagoa Jacaroá vindas do oceano. Essas microalgas, quando agitadas — seja por ondas, peixes, remos ou pessoas nadando — ativam um mecanismo químico de defesa: liberam uma enzima que reage com o oxigênio e gera luz azul fluorescente. É um fenômeno natural que não indica poluição. Pelo contrário.

Esse evento, embora breve, realça o poder do equilíbrio entre conservação ambiental e ação humana para trazer à tona encantos naturais — e serve como incentivo para continuar preservando esses ecossistemas.

Fenômeno encantou moradores de Maricá e internautas | Reprodução

Quando vai acontecer novamente?

Esses eventos não seguem datas fixas, mas no recente caso de Maricá ele se intensificou entre maio e junho, quando o desassoreamento intensificado desde fevereiro facilitou a entrada das microalgas marinhas no sistema lagunar.

Para acompanhar novos episódios a dica é seguir grupos comunitários nas redes sociais que costumam noticiar rapidamente quando o fenômeno é visto. A Prefeitura de Maricá, a UFF e o projeto Lagoa Viva costumam divulgar ocorrências pelas redes sociais.

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