Condenado a mais de 50 anos de prisão por envolvimento em associação criminosa e lavagem de dinheiro, entre outras acusações, Márcio dos Santos Nepomuceno, conhecido como Marcinho VP, ingressou na academia. Marcinho, identificado como um dos líderes proeminentes do Comando Vermelho (CV), a principal organização criminosa do tráfico de drogas no Rio de Janeiro, foi empossado nesta quinta-feira (18) como membro da recentemente criada Academia Brasileira de Letras do Cárcere (ABLC), juntamente com outros cinco condenados.
Marcinho VP está encarcerado há 37 anos e, durante o período de reclusão, produziu três obras literárias: “Prisioneiro de Guerra”, “Reflexões sobre uma Execução Banal” e “Marcinho – Perspectivas e Verdades”. Ele ocupa a cadeira de número um da ABLC, em homenagem ao renomado escritor Graciliano Ramos.
Atualmente, ele cumpre sua pena em regime fechado na penitenciária de segurança máxima de Campo Grande (MS). Devido à impossibilidade de participar presencialmente da cerimônia de posse, ele foi representado por membros de sua família, incluindo mãe, esposa e uma advogada.
Por meio de comunicado, Paloma Gurgel, advogada de Marcinho VP – e coautora do livro “Reflexões sobre uma Execução Banal” -, destacou que seu cliente, embora ainda detido, teria cumprido integralmente sua pena, não devendo mais nada ao Estado.
Paloma salientou que os delitos pelos quais ele foi condenado já foram punidos e ressaltou a transformação de Nepomuceno em um escritor reconhecido, capaz de sobreviver na prisão por meio da escrita. Segundo ela, o convite para integrar a ABLC representa um reconhecimento pelo esforço e dedicação de seu cliente em se reabilitar por meio da produção literária.
O poeta Fábio da Hora Serra, conhecido como Sagat, de 45 anos de idade, também teve passagem pelo Comando Vermelho (CV) e pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), a maior organização criminosa do Brasil. Recentemente, lançou sua autobiografia, intitulada “Do Bandido ao Artista”. Em seu livro de 278 páginas, o agora escritor narra sua trajetória no submundo do crime e seu processo de reintegração à sociedade. Também empossado na ABLC, Serra ocupa a cadeira de número dois, em homenagem a Nelson Mandela.
Nesta quinta, em cerimônia no Centro do Rio, também estão sendo formalizados como integrantes da academia Edilberto José Soares, Emerson Franco, Paulo Henrique Milhan e André Borges. O sexteto inicial, porém, vai ganhar novas adesões em breve.
A vendedora Amanda Karoline, de 31 anos, era casada com o comerciante Rômulo Barbosa da Cunha, de 32. O casal se conheceu numa praia de nudismo chamada Tambaba, no município de Conde, litoral paraibano. Com o tempo, segundo conta Amanda, o marido tornou-se violento. Ela passou a ser humilhada e espancada pelo companheiro, que a obrigava a transar com homens desconhecidos na frente dele.
Cansada das agressões, Amanda arquitetou um plano em conluio com a amante do marido e contratou um matador de aluguel por R$ 5 mil para cometer o crime. Rômulo foi assassinado em 2016, com quatro tiros no peito e no abdômen.
Presa, a vendedora confessou o crime no Tribunal do Júri e foi sentenciada a 20 anos de cadeia. Migrou para o regime semiaberto em 2022, com uso de tornozeleira eletrônica. Em Alagoas, onde cumpre pena e mora, Amanda começou a escrever sua biografia, intitulada “De Tambaba à prisão”. Hoje, ela vende seus livros de memórias na praia e já foi convidada para integrar a ABLC. Sua posse será em maio, juntamente com a do historiador Nesseilde Andrade, do Acre, condenado por tráfico de drogas. O futuro acadêmico escreveu o livro “Desvendado por Deus — Um testemunho de fé”.
Os seis detentos que tomaram posse na ABLC não tiveram a qualidade de suas obras avaliadas para se tornarem membros. O principal critério para um detento ingressar na academia é tão somente ter um livro publicado.
“A Academia Brasileira de Letras do Cárcere surge como uma iniciativa pioneira destinada a reconhecer e valorizar as obras de escritores que produzem literatura mesmo estando privados de liberdade. Seu principal propósito é oferecer uma plataforma para que esses autores expressem suas vozes e compartilhem suas histórias, contribuindo assim para a diversidade e a riqueza da literatura nacional”, diz o texto de apresentação da entidade.
A ABLC foi uma ideia do desembargador aposentado Siro Darlan. Ele conta que o projeto nasceu dentro das penitenciárias do país em função do hábito que os presos têm de ler dentro das celas. A maioria se entrega à prática porque a Lei de Execuções Penais permite que a sentença seja reduzida em quatro dias se o detento ler e resenhar uma obra da biblioteca. Pela legislação, o preso pode ler até 12 livros no ano, conseguindo remir até 48 dias da pena.
Com informações de O Globo.





