Existe em pleno coração de Copacabana um lugar especial. Uma área de 13 hectares de Mata Atlântica com ruínas de uma antiga fortaleza, pegadas de mulas do Brasil Colônia e pistas de um pescador do século XVIII que pode ter construído a primeira casa de alvenaria do bairro mais famoso do Brasil. O Parque Estadual da Chacrinha, encravado entre os Morros de São João e da Babilônia, às costas da movimentada Praça Cardeal Arcoverde, não é só a unidade de conservação mais antiga do Rio, é um dos parques mais bacanas da Zona Sul da cidade. Quase ninguém conhece; quem conhece, vive prometendo que um dia vai; e quem vai, raramente sai arrependido. Mais carioca do que isso é impossível.
A história do Parque da Chacrinha é, principalmente, um pedaço incontornável da história da ocupação da Zona Sul. Foi uma região estratégica para a defesa da cidade, servindo de base para o monitoramento militar e abrigando um dos mais importantes fortes do sistema defensivo colonial, o Forte do Vigia, onde serviu por uns dias um alferes chamado Joaquim José da Silva Xavier.
O Parque Estadual da Chacrinha existe há mais de 50 anos num bairro que, a cada década, parece inventar uma nova razão para ignorá-lo. Mesmo assim ele continua lá, com suas 67 espécies de aves e centenas de miquinhos, aberto de terça a domingo, das 8h às 17h, de graça, a 200 metros da estação de metrô Cardeal Arcoverde. Um lugar que ensina que Copacabana é muito mais do que o lugar comum das fotos na praia ou as breguérrimas selfies na pérgula do Copa. É a história da cidade _ colonial, militar, ecológica _ escondida apenas que você se dê ao trabalho de entrar. Partiu?

Qual é a história do parque?
Bom, formalmente falando, o Parque Estadual da Chacrinha foi criado oficialmente em 22 de maio de 1969, por meio do Decreto nº 2.853, com o objetivo de proteger um dos últimos remanescentes de Mata Atlântica no bairro mais densamente povoado da cidade. A área, no entanto, só foi efetivamente implantada em 1984, após anos de abandono e até mesmo de uso como lixeira e até depósito de carros alegóricos.
Administrativamente, ele viveu uma novela: apesar do nome, desde 2007 é gerido pela Prefeitura como Parque Natural Municipal, integrando desde 2013 o Parque Natural Municipal da Paisagem Carioca. Tombado pelo Inepac (Instituto Estadual do Patrimônio Cultural) por seu valor histórico e ambiental, o local é um verdadeiro relicário de história carioca que muitos, incrivelmente, não conhecem.
O parque ocupa 13,3 hectares de Mata Atlântica. É um gigante em biodiversidade, mas um anão em extensão territorial se comparado a outros parques da cidade. Enquanto a Chacrinha se estende por pouco mais de 13 hectares, o Parque Estadual da Pedra Branca, o maior da cidade, possui colossais 12,5 mil hectares. Isso significa que a Chacrinha representa apenas cerca de 0,11% do tamanho da Pedra Branca.
De onde vem o nome “Chacrinha”?
Por óbvio, não tem nada a ver com o grande apresentador de TV. A origem é bem mais antiga e remete a antigas residências militares da região. Com o passar do tempo, uma dessas casas prosperou, virou um pequeno sítio, ganhou primeiro o apelido de Chácara do Leme, e depois só Chacrinha.
De lá partia o abastecimento de água, com fontes que serviam as demais chácaras da região. Fontes históricas, como registros do patrimônio estadual e reportagens do Correio da Manhã, confirmam a origem toponímica ligada à propriedade rural.

A sentinela colonial esquecida
Uma das atrações do Parque da Chacrinha você conhece e certamente nunca se deu conta. São os imponentes arcos de pedra na Ladeira do Leme, que serviam como parte do sistema de portões e muralhas de acesso ao Forte do Vigia, uma fortificação militar construída entre 1776 e 1779 por ordem do Vice-Rei do Brasil, o marquês do Lavradio.
O nome é autoexplicativo. Sua missão era uma peça-chave no sistema defensivo carioca, alertando a aproximação de navios hostis e deixar o resto da encrenca com a turma mais braba lá da frente, como o Forte de Copacabana e as Fortalezas de São João e Santa Cruz.
Dele sobraram plataformas de pedras justapostas, um pequeno aqueduto rústico para captar água de fonte e caminhos de mulas coloniais, confirmados pelo Inepac como resquícios da ocupação militar desde a década de 1770.
Tiradentes sentou praça por lá?

A resposta é sim e é fartamente documentada. Em 1789, o Forte do Vigia foi guarnecido pela Companhia dos Dragões de Minas Gerais, e entre os reforços estava um certo Alferes chamado Joaquim José da Silva Xavier. O próprio.
Tiradentes, entretanto, nem teve muito tempo para apreciar Copacabana. Ele se mudou para a Vila Militar da Babilônia poucos dias antes de ser preso, em 10 de maio de 1789, no Centro da cidade.
A passagem de Tiradentes pelo local é um dos fatores que confere ao parque um valor histórico tão significativo, sendo citada em diversas fontes como um dos grandes atrativos para os visitantes que se interessam pela história do Brasil.
A primeira casa de Copacabana: fato ou fake?
Aqui faz-se necessário cautela. Dentro do Parque da Chacrinha existe uma ruína conhecida como “Casa do Pescador Teodoro”, cuja construção é supostamente datada do século XVIII. O INEA a chama de “a ruína da casa mais antiga de Copacabana”, e uma reportagem do site O Eco afirma que existiu sim um pescador chamado Teodoro que viveu por lá no século XVIII. Ele teria, portanto, construído a primeira casa de alvenaria de Copacabana, cariocamente, em troca de frutos do mar que fornecia à guarnição do forte.
A história é ótima. Mas para alguns historiadores, o sítio tem valor arqueológico reconhecido, ainda que sua narrativa oficial ainda esteja sendo construída. O que é fato: as ruínas existem, estão dentro do parque e estão ameaçadas. O Parque da Chacrinha sofreu um deslizamento de terra em 2019 que destruiu parte da trilha principal, incluindo um duto que conduzia água à fonte dos soldados e duas plataformas de acesso.
Os miquinhos: de onde vieram, que espécie são, como se alimentam?
Se você tem filhos pequenos, o parque é um dos lugares mais bacanas para fazer festa infantil. E o motivo é a quantidade absurda de saguis que vive no parque. As crianças vão à loucura com as travessuras dos miquinhos ou “micos-estrela”.
Mas como você já viu desenho animado, já sabe: não alimente os animais. Além do risco de uma eventual mordida de um miquinho mais estressado, a alimentação humana cria dependência e prejudica o equilíbrio ecológico do parque.
Segundo o Núcleo de Conservação da Fauna do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, essas espécies foram introduzidas no sudeste brasileiro através da venda ilegal de filhotes e são hoje consideradas espécies exóticas invasoras, pois estão fora de sua área de distribuição original. A presença deles nas matas cariocas presenta uma ameaça às aves, pois são predadores de ovos e filhotes. São uma graça, mas são uma praga. Pior que pombo.
Tem trilhas legais por lá?

O parque tem pelo menos três trilhas principais, sendo a maior delas a Trilha Laura Esteves, acessos a diversos mirantes, e caminhos para contemplação e observação de fauna, principalmente das aves, que totalizam 67 espécies vivendo bem ali no coração de Copacabana.
O parque tem, portanto, ao menos uma trilha principal demarcada para caminhadas, acessos mais curtos ao sopé do morro e a Falésia de Escalada da Chacrinha, um ícone da escalada esportiva no Brasil, oferecendo vias que variam do 5º ao 8º grau.
O número exato de trilhas formalmente abertas pode variar conforme as condições de temperatura e pressão, razão pela qual uma conversa com os guardas na entrada continua sendo o melhor GPS disponível.


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