Lula, Ney Matogrosso, Mestre Sacaca e Príncipe Custódio; os sambas-enredo do 1º dia de Carnaval

Do operário que se tornou presidente à literatura e música brasileiras, a festa será marcada por homenagens

O Carnaval 2026 reúne 12 escolas de samba que vão levar para a Marquês de Sapucaí enredos que exploram memória histórica, ancestralidade e cultura popular. Sobretudo, a festa será marcada por homenagens: sete escolas apresentam sambas dedicados a figuras históricas, artistas ou líderes populares, incluindo Luiz Inácio Lula da Silva, Carolina Maria de Jesus, Ney Matogrosso, Rita Lee e Rosa Magalhães.

A Agenda do Poder listou, por ordem de desfile, todos os enredos do primeiro dia de desfile do Grupo Especial, que começa no domingo (15).

Domingo (15 de fevereiro)

Acadêmicos de Niterói – Enredo: Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o Operário do Brasil

Em sua estreia no Grupo Especial, a escola vai retratar a trajetória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, desde a infância em Garanhuns, município no agreste pernambucano, até a ascensão como líder sindical e figura de destaque mundial.

O mulungu, árvore típica da região, simboliza resiliência e esperança. Elementos religiosos, como Santa Luzia e São José, aparecem como símbolos de proteção durante a migração de Lula para o Sudeste.

Veja a letra:

Eu vi brilhar a estrela de um país
No choro de Luiz, a luz de Garanhuns
Sertão onde a pobreza e o pranto
Se dividem para tantos
E a riqueza multiplica para alguns
Me vejo nos olhares dos meus filhos
Assombrados e vazios com o peito em pedaços
Parti atrás do amor e dos meus sonhos
Peguei os meus meninos pelos braços
Brilhou um Sol da pátria incessante
Pro destino retirante te levei Luiz Inácio
Por ironia, treze noites, treze dias
Me guiou Santa Luzia, São José alumiou
Da esquerda de Deus Pai, da luta sindical
À liderança mundial

Vi a esperança crescer e o povo seguir sua voz
Revolucionário é saber escolher os seus heróis
Zuzu Angel, Henfil, Wladimir
Que pagaram o preço da raiva
Nós ainda estamos aqui
No Brasil de Rubens Paiva

Lute pra vencer, aceite se perder
Se o ideal valer, nunca desista
Não é digno fugir, nem tão pouco permitir
Leiloarem isso aqui, a prazo, à vista
É, tem filho de pobre virando doutor
Comida na mesa do trabalhador
A fome tem pressa, Betinho dizia
É, teu legado é o espelho das minhas lições
Sem temer tarifas e sanções
Assim que se cria a soberania
Sem mitos falsos, sem anistia

Quanto custa a fome, quanto vale a vida
Nosso sobrenome é Brasil da Silva
Vale uma nação, vale um grande enredo
Em Niterói o amor venceu o medo

Olê, olê, olê, olá
Vai passar nessa avenida mais um samba popular
Olê, olê, olê, olá
Lula, Lula

Imperatriz Leopoldinense – Enredo: Camaleônico

A escola vai celebrar a vida e a carreira do cantor Ney Matogrosso, abordando sua versatilidade artística e sua capacidade de se reinventar. O samba também traz elementos-chave que fazem referência ao uso expressivo de maquiagem e figurinos, símbolos da liberdade artística de Ney e de sua recusa em se submeter a padrões tradicionais.

Samba-enredo:

Sou meio homem, meio bicho
O silêncio e o grito
Pássaro, mulher
Que pinta a verdade no rosto
Traz a coragem no corpo
E nunca esconde o que é

Pelo visível, indefinível
Ressignifica o frágil
O que confunde é o desbunde
Do que desafia o fácil
Canto com alma de mulher
Arte que sabe o que quer
E não se esqueça

Eu sou o poema que afronta o sistema
A língua no ouvido de quem censurar
Livre para ser inteiro
Pois, sou Homem com H

E como sou
O bicho, bandido, pecado e feitiço
Pavão de mistérios, rebelde, catiço
A voz que à cálida Rosa deu nome
Mulher de Athenas que o mau não consome
O sangue latino que vira
Vira, vira lobisomem
Eu juro que é melhor se entregar
Ao jeito felino provocador
Devoro pra ser devorado
Não vejo Pecado ao Sul do Equador

Se joga na festa, esquece o amanhã
Minha escola na rua pra ser campeã!

Vem meu amor
Vamos viver a vida
Bota pra ferver
Que o dia vai nascer feliz na Leopoldina

Portela – Enredo: O Mistério do Príncipe do Bará

A Portela homenageia Custódio Joaquim de Almeida, o Príncipe Custódio, figura histórica e espiritual de origem africana que marcou a cultura afro-gaúcha no século XIX.

Ele é um dos responsáveis pela estruturação do Batuque, religião de matriz africana difundida no sul do país. A proposta da Azul e Branca é explorar a ancestralidade negra na formação do Rio Grande do Sul, proporcionando uma perspectiva diferente sobre a população afro-brasileira em um espectro nacional. 

Samba-enredo:

Ê bará, ê bará… ôô!
Quem rege a sua coroa, bará?
É o rei de sapaktá
Aláfia do destino no ifá!
É mistério que incandeia
Pro batuque incorporar
É mistério que incandeia
Pra portela incorporar
Vai, negrinho… vai fazer libertação
Resgatar a tradição
Onde a áfrica assenta
Ô, corre gira, vem revelar
o reino de ajudá
o pampa é terra negra em sua essência

Alupo, meu senhor, alupô!
vai ter xirê no toque do tambor
alumia o cruzeiro… chave de encruzilhada (bis)
é macumba de custódio no romper da
madrugada

Curandeiro, feiticeiro
Batuqueiro precursor
Pôs a nata no gongá (ô, iaiá!)
Fundamento em seu terreiro
Resiste a fé no orixá
Da crença no rosário
Ao rito do mercado
Ainda segue vivo o seu legado
Portela… tu és o próprio trono de zumbi
Do samba, a majestade em cada ori
Yalorixá de todo axé
Enquanto houver um pastoreio
A chama não apagará
Não há demanda que o povo preto não possa
enfrentar!

Ae oni bará! ae babá lodê!
A portela reunida carregada no dendê
Sob o céu do rio grande (bis)
Tem reza pra abençoar
O príncipe herdeiro da coroa de bará!

Estação Primeira de Mangueira – Enredo: Mestre Sacaca do Encanto Tucuju – O Guardião da Amazônia Negra

Seguindo a missão de exaltar as brasilidades em verde e rosa, a Estação Primeira de Mangueira apresenta para o Carnaval 2026, o enredo que celebra Mestre Sacaca, personagem emblemático da cultura afro-indígena do Norte brasileiro. 

Na saga que toma conta da Sapucaí, o Turé (ritual de agradecimento a seres do Outro Mundo) ganha destaque ao evocar a espiritualidade que conecta o xamã aos elementos da floresta. 

Samba-enredo:

Aos pés do Amapá, o som do maracá
Floresta em cantoria
Aroma de beiju, na tez o urucu
Cantiga paliká nos guia
Encanto tucuju, Me leva ao transe o caxixi
Sinto a presença do babalaô
A poeira vai subir
Lua cheia, Pelas águas serpenteia
Minha alma ribeirinha
Em cada casinha à margem do rio
Habita a nascente, a paz recorrente
Em cada casinha de zinco e madeira

Me lembra a estação primeira

Erva que quebra quebranto, é cura!
Banho, garrafa e encanto, mistura!
Se o verde é esperança, o rosa é certeza
Por natureza ninguém me segura

Ressoa o tambor
Afina o pandeiro e o tamborim
Festeja o Oiapoque
Sairé do carvão, bandaia e ladrão
Eu reconheço o marabaixo pelo toque

É assim! É assim! No laguinho e na favela
É assim! Quilombola e sentinela

Que renascerá
Em cada sonho, em cada ser do meu lugar
Moldando o saber da nossa gente
Feito raiz a germinar
Seiva, fruto e semente
Hoje, a Amazônia negra vence
Herança de mestre sacaca
Orgulho desse povo amapaense

Sumaúma carioca, ninguém pode derrubar
Minha nação tem alma de jequitibá
Periferia é potência brasileira
Cada canto do Amapá tem um tantinho de Mangueira

*Estagiária sob supervisão de Thiago Antunes

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