A seis dias do segundo turno da eleição presidencial, as campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) travaram um confronto sobre programas sociais, segurança pública, tentativa de golpe de Estado e gastos do governo. Em debate promovido pela GloboNews nesta segunda-feira (19), os coordenadores Edinho Silva, do PT, e Rogério Marinho, do PL, trocaram acusações e apresentaram estratégias distintas para a reta final da disputa pelo Palácio do Planalto.
Mediado pela jornalista Julia Duailibi, o programa também abordou direitos trabalhistas, reforma do Judiciário, atuação das plataformas digitais, pandemia de Covid-19 e denúncias envolvendo o Banco Master e o INSS.
Estratégias para o segundo turno
Edinho Silva afirmou que Lula concentrará os últimos dias da campanha na apresentação das diferenças entre os projetos políticos dos candidatos, com destaque para saúde, geração de empregos, desenvolvimento tecnológico e direitos trabalhistas.
“São dois projetos distintos. Nós vamos continuar na nossa campanha mostrando a diferença desses dois projetos”, declarou.
O coordenador petista defendeu o fim da escala de trabalho 6×1, a valorização do salário mínimo, a recomposição das aposentadorias e o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS).
Rogério Marinho, por sua vez, afirmou que Flávio Bolsonaro continuará concentrando sua campanha nos problemas econômicos e sociais enfrentados pela população.
“Nós estamos fazendo exatamente o que nós nos propusemos a fazer desde o início do ano: falar às pessoas a respeito dos problemas que elas estão enfrentando e a respeito de um modelo que claramente está exaurido, está falido”, disse.
Bolsa Família provoca divergência
Um dos principais pontos de discussão foi o futuro do Bolsa Família em um eventual governo Flávio Bolsonaro.
Questionado sobre declarações de Daniella Marques, coordenadora econômica da campanha do PL, Marinho negou que a proposta seja excluir do programa beneficiários que completem dois anos de trabalho com carteira assinada.
Segundo ele, a proposta consiste em ampliar de 18 para 24 meses o período de transição destinado aos beneficiários que conseguem emprego formal.
“O que a Daniela falou hoje foi que a transição hoje para quem consegue uma carteira assinada e é beneficiário do Bolsa Família, que é de 18 meses, vai ser ampliada para 24 meses”, afirmou.
Edinho questionou o compromisso do candidato do PL com a manutenção dos benefícios sociais e dos direitos trabalhistas. O dirigente petista mencionou votações parlamentares de Flávio Bolsonaro e acusou o senador de mudar sua posição sobre o fim da escala 6×1 por razões eleitorais.
“Ele trabalhou o tempo todo contra a aprovação do fim da jornada 6×1. Mudou de posição porque a opinião pública fez com que ele mudasse a opinião por conta das questões eleitorais”, declarou.
Milícias e munições entram no debate
A discussão sobre segurança pública foi marcada por acusações envolvendo a trajetória política de Flávio Bolsonaro.
Edinho Silva afirmou que o senador condecorou milicianos e participou, como advogado, da defesa de um policial acusado de matar uma criança de cinco anos.
“Quem condecora miliciano não pode falar em segurança pública. Quem é contra pôr na prisão o assassino de uma criança de cinco anos não pode falar em segurança pública”, afirmou o coordenador petista.
As declarações foram apresentadas como críticas à atuação de Flávio na área de segurança, sem que os casos mencionados fossem detalhados no debate.
Rogério Marinho rejeitou as acusações, classificando-as como “narrativas sem nexo com a realidade”.
Outro ponto de divergência foi uma proposta de alteração do Estatuto do Desarmamento que, segundo Edinho, poderia dificultar o rastreamento de munições.
“A pergunta que tem que se fazer: a quem interessa o não rastreamento das munições?”, questionou.
Marinho explicou que a medida integra um projeto relatado na Câmara pelo deputado Alexandre Leite e que chegou à Comissão de Constituição e Justiça do Senado sem ser votado.
Segundo ele, o dispositivo questionado representa apenas um dos quase 40 artigos da proposta e busca facilitar o reaproveitamento de munições por colecionadores, atiradores desportivos e caçadores.
O coordenador confirmou que Flávio Bolsonaro apoia o projeto, mas contestou a interpretação de que seu objetivo seria impedir o rastreamento.
Tentativa de golpe gera confronto
O debate também abordou os ataques às sedes dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023 e as investigações sobre a tentativa de golpe de Estado.
Rogério Marinho questionou a caracterização dos acontecimentos como tentativa de golpe, argumentando que Jair Bolsonaro estava nos Estados Unidos quando ocorreram os ataques em Brasília.
“Golpe com moças, com mulheres, com crianças, sem armas, sem líderes?”, questionou.
A jornalista Julia Duailibi ponderou que o julgamento da tentativa de golpe não se restringiu à invasão e à depredação dos prédios públicos, abrangendo também articulações anteriores, incluindo reuniões com integrantes da cúpula militar.
Edinho Silva contestou a interpretação de Marinho e mencionou as investigações sobre um plano para assassinar Lula, o vice-presidente Geraldo Alckmin e Alexandre de Moraes, então presidente do Tribunal Superior Eleitoral.
“Ficou caracterizada uma tentativa de golpe. O pior: ficou caracterizada uma tentativa de assassinato do presidente da República, do vice-presidente e do presidente do TSE à época”, afirmou.
O dirigente petista também defendeu a preservação das instituições democráticas.
“A democracia tem que ser algo irretocável, tem que ser algo intocável, algo que nós temos que cuidar com muito zelo o tempo todo”, declarou.
Contas públicas e ajuste fiscal
Na área econômica, Rogério Marinho acusou o governo Lula de elevar despesas sem garantir receitas suficientes para financiá-las.
O coordenador do PL criticou o crescimento da dívida pública e afirmou que o governo tem recorrido ao aumento de impostos em vez de promover cortes de gastos.
“Nós estamos tendo aí uma demonstração de como não se trata com respeito e com cuidado das finanças públicas do país”, disse.
Marinho defendeu a redução da estrutura administrativa do Estado, criticou indicações políticas para empresas estatais e cobrou maior transparência nas despesas com cartões corporativos.
Segundo ele, Flávio Bolsonaro pretende promover um ajuste fiscal sem transferir o custo das medidas à população mais pobre.
Edinho Silva respondeu que Lula assumiu o governo, em 2023, diante de dificuldades fiscais e de compromissos financeiros herdados da administração anterior.
“Nós estamos falando de um país que nós pegamos literalmente quebrado e nós estamos entregando um país estável”, afirmou.
O petista mencionou um déficit de 2,6% do Produto Interno Bruto (PIB) e dificuldades para financiar despesas como precatórios e Bolsa Família.
Também destacou medidas tributárias, entre elas a isenção do Imposto de Renda para rendimentos de até R$ 5 mil e a redução da cobrança para quem recebe até R$ 7.350.
Edinho criticou ainda as desonerações concedidas durante o governo Jair Bolsonaro, argumentando que determinados setores econômicos receberam benefícios fiscais que deveriam ter sido revistos após a pandemia.
Pandemia e mortes por Covid-19
A gestão da pandemia também entrou na discussão.
Rogério Marinho defendeu o desempenho econômico do governo Jair Bolsonaro durante a crise sanitária e afirmou que o Brasil registrou recuperação superior à média mundial nos dois anos seguintes.
Questionado por Julia Duailibi sobre as cerca de 700 mil mortes provocadas pela Covid-19 no país, respondeu que “morreram como morreu no mundo inteiro”.
O episódio ocorreu durante a discussão sobre o legado econômico e administrativo do governo anterior, em meio às críticas do PT à atuação de Jair Bolsonaro.
Meta e disputa nas redes sociais
Outro tema foi a decisão do Tribunal Superior Eleitoral que concedeu, nesta segunda-feira (19), prazo de 24 horas para a Meta demonstrar quais medidas adotou para garantir igualdade de condições entre as campanhas presidenciais.
Edinho Silva afirmou que o PT recorreu à Justiça Eleitoral para assegurar equilíbrio na disputa digital.
“Nós não queremos privilégio, queremos concorrer de forma igualitária”, declarou.
O coordenador também defendeu a regulamentação das grandes empresas de tecnologia e acusou a Meta de assumir uma posição favorável a uma das campanhas.
“Não dá para a Meta assumir um lado na disputa presidencial do Brasil”, afirmou.
Marinho rejeitou qualquer favorecimento às candidaturas e defendeu a liberdade de expressão nas plataformas.
O coordenador do PL também comentou a retirada do ar de um canal ligado ao deputado André Janones. Segundo ele, a campanha de Flávio Bolsonaro não se opôs ao restabelecimento da página, desde que o PT assumisse responsabilidade pelo conteúdo publicado.
“Se a Meta ou qualquer outra plataforma de comunicação favorece essa ou aquela campanha, nós repudiamos fortemente”, afirmou.
Banco Master e reforma do Judiciário
Na parte final do debate, Rogério Marinho criticou a proposta de reforma do Judiciário defendida pelo PT, classificando a iniciativa como “oportunismo eleitoral”.
O coordenador mencionou pagamentos acima do teto constitucional do funcionalismo e afirmou que os chamados penduricalhos representaram R$ 24 bilhões no ano anterior.
Edinho Silva rebateu as críticas e afirmou que privilégios também existiram durante o governo Jair Bolsonaro.
O dirigente petista citou o caso do Banco Master e as fraudes envolvendo benefícios do INSS, atribuindo ao governo Lula o enfrentamento das irregularidades.
“Quando a gente fala de privilégios, o Banco Master nasce em que governo? As fraudes do INSS nascem em que governo?”, questionou.







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