Lula disse a aliados que Toffoli devia deixar caso Master ou teria de sair do STF

Presidente classificou situação como “insustentável” e Corte decidiu trocar relator após reunião tensa

Horas antes de o ministro Dias Toffoli abrir mão da relatoria do inquérito do Banco Master no Supremo Tribunal Federal, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse a aliados que a permanência do magistrado no caso havia se tornado “insustentável”. Para o Planalto, a crise já contaminava o governo e exigia uma solução imediata.

Na noite desta quinta-feira, depois de uma reunião a portas fechadas e marcada por tensão, os ministros anunciaram que Toffoli deixaria a condução do processo. O encontro ocorreu após a Polícia Federal comunicar ao presidente da Corte, Edson Fachin, a avaliação de suspeição do ministro, com base em menções encontradas no celular de Daniel Vorcaro, dono do banco investigado.

Irritado, o presidente chegou a afirmar que o magistrado não tinha escolha: ou se afastava do inquérito, ou a crise se ampliaria, com a saída de Toffoli do STF. Nos bastidores, o diagnóstico de integrantes do STF foi o de que a Corte estava “sangrando” e precisava estancar o desgaste institucional.

Pressão política e decisão na Corte

Toffoli chegou ao prédio do STF disposto a manter a relatoria, mas acabou recuando diante da pressão dos colegas. A leitura interna foi a de que, se insistisse, cada decisão seria contestada e o processo perderia eficácia. Com a mudança, o caso passa para André Mendonça.

Em dezembro, durante um almoço com Lula e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, na Granja do Torto, Toffoli já havia dito que não abriria mão do caso. A posição se manteve até a véspera da reunião, quando ficou claro que seria derrotado no colegiado.

No comunicado que oficializou a troca, ministros do STF afirmaram não ver cabimento para declarar a suspeição do colega, apesar do relatório da Polícia Federal. Ainda assim, reconheceram que o custo político e institucional recomendava a mudança de relator.

Riscos ao governo e ruído nas redes

Na avaliação do Planalto, o episódio pode prejudicar o governo em ano eleitoral e gerar efeitos imprevisíveis. Monitoramentos internos apontaram a percepção, em redes sociais, de que o ministro estaria tentando “abafar” a crise para se proteger.

O próprio Toffoli, por sua vez, tem sustentado que a PF realiza investigações clandestinas e promove vazamentos com informações distorcidas. Aliados do diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues, dizem que ele não entraria em choque tão direto com o ministro sem aval político.

Parlamentares e dirigentes do Partido dos Trabalhadores chegaram a convocar uma reunião de emergência com o ministro da Casa Civil, Rui Costa, e com Jaques Wagner, líder do governo no Senado, após alertas de que políticos do partido poderiam ser citados no caso.

Bastidores do caso e relações empresariais

Como já havia sido revelado, Toffoli levou o inquérito ao STF após pedido da defesa de Vorcaro, por causa da apreensão de documentos de uma transação imobiliária com o deputado João Carlos Bacelar. Ao colegiado, o ministro negou relações pessoais com o banqueiro e afirmou não ter recebido recursos dele.

Toffoli admite, porém, ser sócio da empresa Maridt, que teve participação em um resort no Paraná e vendeu sua fatia a fundos controlados pelo empresário e pastor Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro. O ministro sustenta que a companhia é familiar, administrada por irmãos, e que todas as operações foram declaradas à Receita.

Com a troca de relatoria, o STF tenta reduzir o desgaste e devolver previsibilidade ao processo, enquanto o Planalto busca conter os efeitos políticos de um caso que, nas palavras de auxiliares do presidente, já havia passado do limite do aceitável.

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