Lula chama sobretaxa de Trump de ‘chantagem inaceitável’ e alfineta ‘traidores da pátria’

Em rede de rádio e TV Lula não cita o nome do presidente americano e afirma que guerras tarifárias não têm vencedores

Em um pronunciamento em cadeia nacional de rádio e TV nesta quinta-feira (17), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) classificou como uma “chantagem inaceitável” a decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de impor uma sobretaxa de 50% a produtos brasileiros. A medida entrará em vigor em 1º de agosto e deve afetar fortemente setores estratégicos da indústria nacional, como calçados, máquinas, móveis e peças automotivas.

A fala de Lula teve 4 minutos e 50 segundos de duração e marcou a reação mais dura do governo brasileiro diante da medida. Segundo o presidente, a decisão de Trump se baseia em informações falsas e representa uma tentativa inaceitável de interferência nas instituições brasileiras.

“Esperávamos uma resposta à proposta de negociação que encaminhamos em maio. O que veio foi uma chantagem, em forma de ameaças às instituições brasileiras, com informações falsas sobre o comércio entre o Brasil e os Estados Unidos”, disse Lula.

Medida política e pressão externa

Nos bastidores, a decisão do governo americano é vista como um gesto político que extrapola a esfera comercial. Em sua justificativa, publicada na rede social Truth, Trump relacionou a sobretaxa ao suposto desrespeito do governo Lula à liberdade de expressão e a interferências em eleições — acusações que não foram acompanhadas de qualquer evidência concreta.

Trump ainda fez referência ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), atualmente réu no Supremo Tribunal Federal (STF) por sua participação na tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023. A medida, portanto, é interpretada como uma retaliação simbólica e uma sinalização à base bolsonarista.

Em resposta, Lula reforçou o compromisso do Brasil com o Estado de Direito e criticou os ataques do governo Trump ao sistema judiciário brasileiro:

“Contamos com um Poder Judiciário independente. No Brasil, respeitamos o devido processo legal, a presunção de inocência, o contraditório e a ampla defesa. Tentar interferir nisso é um grave atentado à nossa soberania.”

“Traidores da pátria”

Durante o discurso, o presidente também criticou duramente políticos brasileiros que estariam apoiando a medida dos EUA. Sem citar nomes, Lula os chamou de “verdadeiros traidores da pátria” que apostam no “quanto pior, melhor”.

“Minha indignação é ainda maior por saber que esse ataque ao Brasil tem o apoio de alguns políticos brasileiros. São verdadeiros traidores da pátria. Não se importam com os danos causados ao nosso povo.”

Um dos alvos indiretos da fala é o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho do ex-presidente, que está morando nos EUA desde março e tem defendido abertamente a medida de Trump. Ele é apontado como articulador da aproximação entre setores trumpistas e a direita brasileira. Eduardo é, inclusive, investigado pela Polícia Federal por sua atuação nos Estados Unidos.

Caminho diplomático

Apesar da escalada retórica, Lula afirmou que o Brasil continuará buscando uma saída diplomática. O vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, têm liderado conversas com empresários, congressistas e representantes americanos.

“Estamos nos reunindo com os setores produtivos, a sociedade civil e os sindicatos. Essa é uma grande ação conjunta que envolve a indústria, o comércio, os serviços, o setor agrícola e os trabalhadores.”

No dia 15 de julho, o governo brasileiro enviou uma carta ao secretário de Comércio dos EUA, Howard Lutnick, e ao representante de Comércio dos EUA, Jamieson Greer, manifestando “indignação” com a decisão e reiterando a disposição para buscar uma solução mutuamente aceitável.

Ainda nesta quinta, durante evento em Goiânia, Lula afirmou que o Brasil estuda taxar empresas de tecnologia americanas e defendeu maior regulação das redes sociais — uma pauta que irrita a administração Trump, que acusa o Brasil de censura e perseguição à liberdade de expressão.

Impacto na economia

A sobretaxa de 50% pode inviabilizar exportações brasileiras em diversos setores. Entidades da indústria já alertam que não há mercados alternativos suficientes para absorver o excedente que será barrado nos EUA. Isso pode provocar demissões em massa e prejuízos bilionários para a economia nacional.

A reação do governo brasileiro será observada com atenção pelos mercados e pela comunidade internacional, especialmente diante do tom agressivo adotado por Trump em pleno ano eleitoral nos EUA.

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