Lula avalia faltar a debates no 1º turno e estratégia divide cúpula do PT

Presidente estuda priorizar lançamento da candidatura à reeleição e aliados discutem riscos e vantagens de enfrentar adversários em confrontos televisivos

A possibilidade de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não participar dos debates do primeiro turno das eleições presidenciais tem provocado divergências entre integrantes da cúpula do Partido dos Trabalhadores, informa a Folha de S. Paulo. Às vésperas da oficialização de sua candidatura à reeleição, o chefe do Executivo avalia a conveniência de comparecer aos confrontos promovidos por emissoras de televisão e outros veículos de comunicação, enquanto aliados discutem os impactos políticos da decisão.

Embora a tendência atual seja de ausência nos primeiros debates, interlocutores próximos ao presidente afirmam que a decisão ainda não foi tomada e poderá ser revista conforme o cenário da campanha evoluir.

Estratégia para evitar desgaste

Dentro do PT, uma ala considera que Lula estaria excessivamente exposto nos debates por ser o único candidato identificado com o campo da esquerda entre os principais concorrentes à Presidência. A avaliação é de que os adversários, alinhados à direita e disputando o protagonismo da oposição ao governo, concentrariam ataques contra o presidente durante os encontros televisivos.

Entre os nomes cotados para disputar o Palácio do Planalto estão Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão), todos posicionados no campo antipetista. Na visão desse grupo, a ausência de outro candidato de esquerda faria com que Lula tivesse de responder sozinho às críticas dos rivais.

Por outro lado, integrantes do partido defendem justamente o contrário: para eles, participar dos debates permitiria ao presidente confrontar diretamente Flávio Bolsonaro, apontado como seu principal adversário na disputa eleitoral.

Debates obrigatórios e regras eleitorais

Pelas regras da legislação eleitoral, as emissoras de televisão são obrigadas a convidar candidatos cujos partidos possuam mais de cinco representantes no Congresso Nacional. Dessa forma, além de Lula e Flávio Bolsonaro, apenas Ronaldo Caiado e Augusto Cury (Avante) têm presença obrigatória assegurada nos debates.

O entendimento segue decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que definiu, no ano passado, que o cálculo deve considerar a composição partidária resultante das eleições de 2022, sem levar em conta mudanças de legenda ocorridas posteriormente.

Possível efeito sobre Flávio Bolsonaro

Aliados do presidente também avaliam que uma eventual ausência de Lula poderia influenciar a estratégia dos demais candidatos, especialmente a de Flávio Bolsonaro.

A leitura é que, sem o petista nos debates, o senador também poderia optar por não participar dos encontros, evitando questionamentos sobre sua relação com o caso envolvendo o Banco Master.

Em maio, veio a público um áudio em que Flávio Bolsonaro solicita recursos ao ex-controlador da instituição financeira, Daniel Vorcaro, para concluir um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Nos bastidores da campanha petista, a intenção é explorar eleitoralmente tanto o episódio relacionado ao Banco Master quanto as tarifas impostas pelo governo dos Estados Unidos a produtos brasileiros, tema que o PT associa à proximidade política entre o grupo bolsonarista e o presidente americano Donald Trump.

Histórico de presidentes que evitaram debates

A estratégia de reduzir a exposição durante campanhas à reeleição não é inédita na política brasileira.

Em 2006, quando buscava seu segundo mandato, Lula também deixou de participar dos debates realizados no primeiro turno. Na ocasião, o presidente liderava com ampla vantagem sobre o então candidato Geraldo Alckmin, que atualmente ocupa a Vice-Presidência da República.

Situação semelhante ocorreu em 1998, quando o então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) optou por não comparecer aos debates e acabou reeleito ainda no primeiro turno.

Mesmo assim, integrantes da campanha ressaltam que o cenário deste ano poderá exigir ajustes. Caso Lula avalie que foi alvo de críticas intensas em um debate do qual não participou, existe a possibilidade de comparecer ao encontro seguinte para responder aos adversários.

Debate da Band pode marcar primeira decisão

A primeira definição prática deve ocorrer em relação ao debate promovido pela Band, tradicionalmente o primeiro da campanha eleitoral, previsto para o dia 16 de agosto.

A data coincide com o ato planejado pelo PT para lançar oficialmente a candidatura de Lula à reeleição, o que dificulta a participação do presidente nos dois compromissos.

Além da incompatibilidade de horários, auxiliares argumentam que debates televisionados exigem preparação intensa com a equipe de comunicação e recomendam que o candidato esteja descansado para enfrentar o confronto.

Vila Euclides é símbolo da trajetória política de Lula

O PT pretende realizar o lançamento da candidatura no estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista.

Inicialmente, havia dúvidas sobre a disponibilidade do local devido à realização de uma partida entre São Bernardo e Botafogo de Ribeirão Preto, válida pela Série B do Campeonato Brasileiro. No entanto, aliados informaram ao presidente que o jogo seria antecipado, abrindo espaço para o evento político.

Ainda assim, fontes ligadas à direção petista admitem que o lançamento poderá ser remarcado caso a campanha conclua que a participação de Lula no debate da Band seja mais vantajosa.

A escolha da Vila Euclides tem forte valor simbólico. Foi no estádio que, no fim da década de 1970, Lula, então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, comandou grandes assembleias durante as históricas greves da categoria, momento decisivo para sua projeção nacional.

A proposta do partido é transformar o ato em uma narrativa sobre a trajetória política do presidente, que, aos 80 anos, deverá disputar sua última eleição presidencial. A mobilização inclui o desafio de reunir público suficiente para lotar o estádio.

São Paulo ganha protagonismo na campanha

A estratégia também busca fortalecer a presença de Lula em São Paulo, estado que concentra o maior eleitorado do país.

No cenário estadual, o PT terá o ex-ministro Fernando Haddad como candidato ao governo paulista. Ele enfrentará o atual governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), apontado pelas pesquisas como favorito e com possibilidade de vitória ainda no primeiro turno.

Enquanto define sua estratégia para os debates, Lula inicia a campanha liderando os principais levantamentos de intenção de voto.

Segundo pesquisa Quaest divulgada em 15 de julho, o presidente aparece com 40% das intenções de voto no primeiro turno, contra 28% de Flávio Bolsonaro. Em um eventual segundo turno, Lula registra 45%, enquanto o provável adversário soma 37%. A margem de erro do levantamento é de dois pontos percentuais.

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