Se você já voou alguma uma vez na vida, já viu essa cena acontecer. Mal as rodas tocam na pista e, em segundos, metade do avião está de pé, catando bagagem. Irritante? Claro. Inseguro? Talvez. Mas será que vale uma multa? Bem, o fato é que a Turkish Airlines anunciou uma das políticas mais controversas da história da aviação comercial. Ela avisou que multará os passageiros que se levantarem antes que o aviso de cinto de segurança seja desligado.
Não, não é gozação. Muito menos a conhecida companhia irlandesa de baixíssimo custo Ryanair tentando ser original. É apenas uma das maiores empresas do setor no mundo, que se orgulha de ser a voadora que opera no maior número de países (131 no total, inclusive o Brasil) decidindo que a solução para sua gestão de cabine é uma punição financeira.
De acordo com a companhia aérea, a nova política visa desencorajar “comportamento indisciplinado” durante o desembarque. O comportamento em questão? Passageiros ansiosos para ficar de pé, se espreguiçar e pegar suas malas depois de horas em um assento apertado.
A política da Turkish aparentemente sugere que a empresa vê seus clientes como crianças a serem disciplinadas. O abuso de punir pessoas por tentarem sair de um avião é agravado pela imagem um tanto quanto inflada que a companhia tem de si mesma.
A Turkish Airlines não é a empresa mais barata do setor. Ela se vende como uma experiência premium. Mas cobrar passageiros por se levantarem muito cedo parece comportamento de companhia aérea de baixo custo tentando levantar um troco a mais.

Sobre a Turkish Airlines
Fundada em Ancara em 20 de maio de 1933 com a designação de State Airlines Administration. A linha empresa é parcialmente estatal, com sede em Istambul, e membro tanto da aliança aérea Star Alliance, como o da Arab Air Carriers Organization (AACO). Hoje, 49,12% de suas ações ainda pertencem ao governo turco.
Famosa por voar para mais países do que qualquer outra companhia, ela agora também célebre por agir como um bedel de escola ao punir quem tenta encurtar o desembarque com a pressa de um lemingue. Apesar das reclamações que viralizam sobre overbooking e má qualidade de atendimento, ela transportou cerca de 83 milhões de passageiros em 2024.
Quando foi adotada a medida?
No início de maio de 2025, a Direção‑Geral de Aviação Civil da Turquia (DGCA) aprovou uma circular exigindo que passageiros permaneçam sentados, com o cinto afivelado, até que o avião esteja completamente parado e o aviso de “afivelar o cinto” seja desligado. A Turkish Airlines já adaptou seu anúncio de chegada para informar explicitamente sobre a possível penalidade.
Qual o valor da multa?
A conta pode chegar a até 2.603 liras turcas, o que corresponde a cerca de US$ 67 ou € 62 (aproximadamente R$ 380). Até o fechamento desta matéria, ainda não há relatos oficiais de passageiros multados.
Isso depende da tripulação reportar os infratores via “Disruptive Passenger Report”, uma medida geralmente adotada contra quem bebeu mais do que devia, paquerou uma aeromoça ou um comissário de bordo, ou tentou fumar escondido dentro do banheiro.

Outras companhias adotam medidas semelhantes?
Até onde se sabe, nenhuma outra companhia impôs multa financeira por alguém se levantar cedo demais. Nos Estados Unidos, se exige que os cintos permaneçam afivelados durante o táxi, pouso e decolagem, mas raramente se aplicam penalidades por isso: multas só costumam ocorrer em casos extremos, como recusa repetida de máscara ou comportamento agressivo, chegando a US$ 14 mil ou mais (uma bobagem que pode ultrapassar os R$ 80 mil).
Em outros lugares, a disciplina é mais social, ou seja, uma repreensão comum em textos de viagem, mas sem qualquer valor monetário associado.
Um desastre de relações públicas
A Turkish multar passageiros por simplesmente serem afobados não é exatamente uma ideia inteligente. Nem é uma medida de segurança ou um serviço ao cliente. É uma ideia boba de uma companhia aérea que deveria ter mais jogo de cintura.
Porque o caso é apenas de algumas pessoas que querem sair logo do avião, sabe-se lá por quais motivos. Um atraso para pegar uma conexão, por exemplo. Mas isso não significa que elas devam ser multadas.

Regras arbitrárias, passagens caras e experiência terrível
De acordo com sites e revistas especializados e aviação e turismo, a Turkish não vive o seu melhor momento no mercado. Bagagens extraviadas, comunicação ruim nas equipes de solo, voos com overbooking e procedimentos de baldeação caóticos no Aeroporto de Istambul são reclamações comuns.
No entanto, em vez de resolver qualquer um desses problemas, a companhia aérea decidiu se concentrar no que acontece nos últimos 90 segundos de um voo.
Passageiros já enfrentam voos longos, comida ruim, assentos desconfortáveis e atrasos. Mas agora, se você ousar se levantar para esticar as pernas ou pegar sua bagagem antes do horário previsto, poderá ser cobrado um valor extra. Isso não é um bom atendimento ao cliente, por mais que seja irritante para quem tem boa educação.
E é difícil imaginar que isso termine bem. A fiscalização será arbitrária, os passageiros ficarão confusos e certamente tretas das mais diversas acontecerão. A tripulação de cabine será colocada em situações difíceis e constrangedoras. No fim das contas, resta a dúvida: como eles planejam fazer isso?


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