Levantamento detalhado de atividades de lazer prova que Bolsonaro não gosta muito de trabalhar

O presidente Jair Bolsonaro não descansa apenas nos fins de semana, como procura fazer qualquer trabalhador. Em três anos de governo, segundo minucioso levantamento em sua agenda, teve mais atividades de passeio, diversão e lazer em dias úteis, nos quais deveria estar cumprindo agenda de trabalho, do que qualquer presidente na história do Brasil.  Idas…

O presidente Jair Bolsonaro não descansa apenas nos fins de semana, como procura fazer qualquer trabalhador. Em três anos de governo, segundo minucioso levantamento em sua agenda, teve mais atividades de passeio, diversão e lazer em dias úteis, nos quais deveria estar cumprindo agenda de trabalho, do que qualquer presidente na história do Brasil. 

Idas a praias, motociatas, passeios de jet sky, brinquedos em parques de diversões – Bolsonaro se divertiu  muito no cargo, mesmo quando o país que governa passava por momentos dificeis e dramáticos. Quando pretende insultar algum desafeto, Bolsonaro, seus filhos e assessores próximos os chamam de “vagabundos”. O levantamento abaixo mostra que ele próprio está muito mais perto de merecer tal definição.

Leia a reportagem da Folha de S. Paulo sobre como Bolsonaro gazeteia muitos de seus dias de trabalho:

Em três anos e cinco meses de governo, o presidente Janir Bolsonaro (PL)  aproveitou uma série de feriadões, folgas autoconcedidas e dias de expediente normal para converter em lazer ou praticar atividades sem relação exata com o cargo que ocupa.

Temporadas nos litorais paulista, catarinense e baiano, idas a jogos de futebol, “motociatas”, cavalgadas, “jeguiatas”, “lanchaciata” e afins produziram uma profusão de imagens do presidente conduzindo jet skis, motos, cavalos, se divertindo em camarotes de estádios de futebol, parques de diversão, restaurantes ou aproveitando um dia de sol nas praias do litoral brasileiro.

Um desses dias de lazer ocorreu em março de 2020, quando passeou de jet ski no Lago Paranoá, em Brasília, no mesmo dia em que o país superava a marca de 10 mil mortos pela Covid (hoje são mais de 660 mil), o que motivou decretação de luto pelas cúpulas do Legislativo e do Judiciário.

De acordo com a mais recente pesquisa do Datafolha, 48% da população reprovam a sua gestão.

Em várias dessas escapadas, e apesar de se tratar de um dia útil, ou seja, de trabalho normal, Bolsonaro não participou publicamente de quase nenhum compromisso relacionado claramente ao exercício da Presidência.

Foio que aconteceu na última sexta-feira (27), por exemplo.

Ele embarcou para Goiânia por volta das 9h, participou de um encontro evangélico e de uma “motociata”, ato em que ele pilota uma moto — geralmente sem capacete (nesta sexta usava a proteção obrigatória, mas o carona, o deputado Vitor Hugo, do PL de Goiás, não) —, liderando uma série de apoiadores, também em motos.

Na capital goiana, Bolsonaro teve breves encontros com políticos e simpatizantes, entre eles o cantor Latino. No início da tarde, já estava de volta a Brasília. Sua agenda não informava nenhum compromisso de trabalho durante a tarde. À noite, participou da sua tradicional live semanal, no Palácio da Alvorada.

Nesses quase três anos e meio, Bolsonaro deixou Brasília 15 vezes para curtir folgas e feriadões nos litorais paulista, catarinense e baiano.

Ele embarcou 11 vezes para o Forte dos Andradas, em Guarujá (SP). Em outras três ocasiões, usou o Forte Marechal Luz (SC). Seu primeiro descanso na Presidência longe de Brasília foi nas festas de fim de ano de 2019, na base naval de Aratu, na Bahia.

No mesmo período de sua primeira gestão, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) folgou em três ocasiões. Dilma Rousseff (PT) em sete.

No Carnaval de 2022, por exemplo, Bolsonaro demonstrou irritação ao ser questionado sobre suas temporadas no litoral. “Se achar que eu não devo sair mais de folga, se eu virar candidato à reeleição, que não vote em mim, aí eu não vou estar mais aqui no hotel.”

O presidente havia sido questionado na ocasião sobre os gastos resultantes de sua viagem de férias a Santa Catarina dois meses antes, no fim do ano, que custaram quase R$ 900 mil aos cofres públicos, de acordo com dados do governofornecidos ao jornal O Globo por meio da Lei de Acesso à Informação.

À época, Bolsonaro manteve a folga mesmo com a Bahia enfrentando uma crise gerada por fortes chuvas, que deixaram mais de 20 mortos. Em situações como essas, é comum governantes suspenderem momentaneamente ou cancelarem folgas para acompanhar ou atuar diretamente no caso.

Suas atividades no litoral catarinense, na época, incluíram uma visita ao parque Beto Carrero World, onde curtiu show de derrapagens e, vestido com o uniforme da Hot Wheels, dirigiu um dos veículos e fez manobras.

Dias antes, quando estava em Guarujá, Bolsonaro havia feito passeios de lancha com dança de funk, comido pastel em feira livre e pescaria em uma ilha conhecida por répteis perigosos.

Ele até chegou a interromper as férias, mas para se internar por supostamente não ter digerido bem uma porção de camarões. Na saída do hospital, voltou a se manifestar sobre as críticas.

“Fizemos coisas fantásticas ao longo desses dias que dificilmente outro governo estaria fazendo. O presidente não tem férias. É maldoso quem fala que estou de férias. Eu dou minhas fugidas de jet ski. Dou lá uns cavalos de pau no Beto Carrero.”

O ano de 2020 foi o que Bolsonaro mais aproveitou férias e feriadões, nos fortes dos Andradas, em Guarujá, e Marechal Luz, em Santa Catarina. Ele curtiu por lá alguns dias em janeiro, Carnaval, feriados de Nossa Senhora Aparecida, Finados, folga de fim de ano e Réveillon.

Outra distração bastante apreciada pelo presidente são os jogos de futebol. Ele já foi seis vezes ao camarote do estádio Mané Garrincha, em Brasília, a todos os principais estádios de São Paulo, além de Maracanã e Mineirão, quase sempre acompanhando de ministros e assessores.

Ele também costuma prestigiar jogos amadores e beneficentes. Em um deles, jogou por alguns minutos na Vila Belmiro, no final de 2020, ocasião em que os adversários permitiram que ele fizesse um gol, completando um cruzamento e caindo de barriga na grama no momento seguinte.

Bolsonaro também tem intensificado a participação em motociatas e atividades do gênero em praticamente todos os estados do Brasil (e também em Doha, durante sua visita ao Qatar), vários deles em dias de semana. Já foram mais de 30 em sua gestão, sendo 19 só neste ano.

Em 25 de abril, por exemplo, iniciou o expediente da semana pós-feriado com uma motociata e uma cavalgada em Ribeirão Preto (a 313 km de São Paulo).

Até o final do ano passado, as motociatas em apoio a Bolsonaro já haviam custado ao menos R% 5 milhões aos cofres públicos, de acordo com pedidos via Lei de Acesso à Informação feitos pela Folha.

​Levantamento feito pela Folha em sua agenda oficial mostra que Bolsonaro teve 48 dias úteis sem nenhum compromisso oficial nesses quase três anos e meio, já descontados os dias em que ele passou internado em decorrência de cirurgias e tratamentos da tentativa de assassinato sofrida na campanha de 2018. Em outros 69 dias úteis, só houve compromissos após meio-dia.

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