O ex-policial militar Ronnie Lessa afirmou que estava ansioso para matar a vereadora Marielle Franco, assassinada em março de 2018 junto com o motorista Anderson Gomes. Em entrevista à TV Record, exibida nesta quinta-feira (28), ele relatou detalhes da execução e disse que, naquele período, estava movido por “ganância, ambição e dinheiro”.
“Eu estava cego. É horrível, hoje eu penso dessa forma, mas eu estava cego, overdose de ganância, ambição, dinheiro”, afirmou.
Lessa, que cumpre pena no Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília, também relatou a perseguição ao carro em que estavam Marielle, Anderson e a assessora Fernanda Chaves.
Segundo o ex-PM, o motorista Élcio de Queiroz conduzia o veículo usado na ação. Lessa, que não tem uma das pernas devido a um atentado sofrido em 2009 — o que ocasionou sua aposentadoria —, afirmou que havia ajustado o banco para ter maior mobilidade no momento dos disparos.
“O cara andava rápido demais e o Élcio estava acelerando, parecia que ele tinha percebido, mas eu falei que não tinha como ele perceber e falei pro Élcio continuar. Aí ele parou no sinal e eu falei para o Élcio parar do lado. Eu estava com uma supermetralhadora e falei: ‘É agora’. O Élcio emparelhou o carro e eu disparei, mas o Élcio não parou. Eu estava louco para fazer, mas, quando eu fiz, o choque de realidade veio instantâneo, ainda dentro do carro”, contou.
“A única vez que matei inocente”
Na entrevista, Lessa afirmou que receberia uma quantia milionária pela morte da vereadora. Segundo ele, a proposta não teria sido apresentada como um simples contrato de assassinato, mas como uma participação em um futuro empreendimento ligado à atuação de uma milícia.
“Eu não fui contratado para matar a Marielle como um assassino de aluguel, eu fui chamado para uma sociedade, haveria uma implantação de uma milícia. Ninguém recebe uma proposta de receber 10 milhões de dólares simplesmente para matar uma pessoa, uma coisa assim é impactante realmente”, declarou.
Lessa também disse que Marielle e Anderson foram as únicas pessoas inocentes que matou.
“Eu não servia a bicheiro, nunca matei ninguém para bicheiro nenhum, eu não trabalhei para o crime diretamente, eu não matei inocente. A única vez que matei inocente foi a Marielle e o Anderson”, afirmou.
Após os disparos, segundo o relato, Lessa e Élcio foram para um bar. O ex-PM disse que soube da morte de Anderson após ver a notícia e passou a beber compulsivamente.
“Minha fuga era a bebida. O garçom trouxe a imagem que tinha matado um pessoal morto no Centro, foi quando eu soube do Anderson que eu comecei a beber compulsivamente”, relatou.
Relação com Domingos Brazão
Lessa voltou a falar sobre sua relação com Domingos Brazão, apontado como um dos mandantes do assassinato de Marielle. Segundo o ex-PM, Brazão teria apresentado a ele a motivação para o crime e oferecido uma recompensa milionária.
“O Domingos falou que ela não ia deixar a gente colocar o condomínio lá e, se soubesse que a gente fez, ela ia babar, então ela tinha que sumir. Eu ia ganhar R$ 25 milhões, 250 lotes de 100 mil, e aí eu balancei”, afirmou.
Na mesma entrevista, Lessa disse que chegou a ser procurado para matar o ex-deputado federal Marcelo Freixo, mas recusou a proposta.
“Eu disse que não tinha como, o cara anda com uns 20 segurança”, declarou.
Penas foram aumentadas
No início deste mês, a Justiça do Rio aumentou as penas de Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz. Com a decisão, a condenação de Lessa passou de 78 anos e nove meses para 81 anos e dez meses de prisão. Já Élcio teve a pena elevada de 59 anos e oito meses para 76 anos e seis meses.
Os dois foram condenados pelo IV Tribunal do Júri da Capital, em outubro de 2024, pelos crimes de duplo homicídio triplamente qualificado, tentativa de homicídio e receptação.
Marielle Franco e Anderson Gomes foram assassinados na noite de 14 de março de 2018. A vereadora voltava de um evento na Lapa quando o carro em que estava foi alvo de disparos na região do Estácio, na Região Central do Rio.
Além de Lessa e Élcio, os irmãos Domingos e Chiquinho Brazão são apontados como mandantes do crime. Segundo a investigação da Procuradoria-Geral da República, o assassinato estaria relacionado aos interesses econômicos do grupo em áreas da Zona Oeste e à atuação de Marielle contra loteamentos clandestinos em regiões dominadas por milícias.







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