A filha do ex-ditador peruano Alberto Fujimori, Keiko Fujimori tomou posse nesta terça-feira (28) como presidente do Peru em meio a um cenário de profunda polarização social e uma das mais graves crises de representatividade política da história recente do país. Em seu discurso no Congresso Nacional, antes de seguir para o Palácio Presidencial, a nova chefe de Estado adotou uma postura conciliadora e destacou a necessidade de reconstruir a unidade nacional.
A chegada ao poder ocorreu após uma disputa apertada no segundo turno contra Roberto Sánchez, da coalizão de centro-esquerda Juntos pelo Peru. A eleição terminou com uma diferença de pouco mais de 49 mil votos, evidenciando a divisão entre diferentes regiões e grupos sociais do país.
Enquanto Lima e áreas urbanas do norte deram maior apoio ao fujimorismo, regiões do centro e do sul andino registraram forte resistência à candidatura de Keiko. Diante desse cenário, a presidente sinalizou que pretende ampliar sua base política e dialogar também com os setores que não apoiaram sua eleição.
Promessas sociais miram regiões mais pobres
Um dos principais pontos do discurso foi direcionado às populações do centro e do sul do Peru, regiões historicamente afetadas pela pobreza e pela falta de investimentos públicos. Keiko afirmou que pretende ampliar políticas voltadas à educação e à juventude, além de melhorar a assistência destinada à população idosa.
A presidente também reconheceu a desigualdade social como um dos principais desafios do país. Segundo a mensagem apresentada durante a posse, o Peru possui importantes recursos naturais e potencial econômico, mas ainda convive com diferenças profundas no acesso a oportunidades e serviços públicos.
Ao falar sobre o futuro do país, Keiko defendeu a necessidade de união e afirmou que chegou o momento de superar as divisões políticas. O discurso procurou transmitir uma imagem de abertura ao diálogo e de disposição para governar além de sua tradicional base eleitoral.
A nova presidente também prometeu cumprir integralmente o mandato constitucional de cinco anos, em uma tentativa de transmitir estabilidade em um país marcado por sucessivas crises políticas.
Silêncio sobre Alberto Fujimori chama atenção
A instabilidade institucional foi um dos principais elementos presentes no contexto da cerimônia. O Peru passou por uma sequência de governos interrompidos por renúncias, processos de impeachment e escândalos de corrupção, cenário que aumentou a pressão sobre a nova presidente.
Durante seu pronunciamento, Keiko afirmou que pretende permanecer no cargo durante todo o período previsto pela Constituição. A declaração foi interpretada como uma tentativa de reforçar o compromisso com a estabilidade política e institucional.
Outro ponto que chamou atenção foi a ausência de referências diretas a seu pai, o ex-presidente Alberto Fujimori, que governou o Peru entre 1990 e 2000. A decisão de não mencionar o nome do ex-presidente pode representar uma estratégia para reduzir resistências ao fujimorismo e reforçar a ideia de que o novo governo pretende alcançar diferentes setores da sociedade.
Infraestrutura e parceria com o Brasil entram na agenda
Na área econômica, Keiko defendeu a aceleração de investimentos em infraestrutura, principalmente nas regiões mais pobres do interior. A presidente também afirmou que pretende dar continuidade a projetos de mobilidade e integração territorial, incluindo obras de transporte, metrôs e rodovias.
A posição geográfica do Peru também foi destacada como uma oportunidade estratégica. Com acesso ao Oceano Pacífico e proximidade com o Brasil, o país pode desempenhar um papel importante nas rotas comerciais entre a América do Sul e os mercados asiáticos, especialmente a China.
Nesse cenário, Keiko sinalizou que pretende manter uma relação próxima com o Brasil e fortalecer a cooperação bilateral. A nova presidente mencionou a integração regional, o diálogo entre os dois países, a transparência e a segurança jurídica como pilares para estimular investimentos e ampliar as relações comerciais.
Protestos acompanham cerimônia de posse
Apesar do discurso de moderação e unidade, a posse foi marcada por manifestações nas ruas de Lima. Movimentos sociais, organizações estudantis e entidades de defesa dos direitos humanos realizaram protestos nas proximidades da Praça de Armas e em outros pontos da capital peruana.
Os manifestantes cobraram justiça para vítimas da ditadura dos anos 1990 e demonstraram preocupação com os rumos do novo governo. As mobilizações indicam que, apesar dos sinais de conciliação apresentados no discurso de posse, Keiko terá pela frente o desafio de administrar uma sociedade ainda profundamente dividida.
A nova presidente inicia o mandato sob forte expectativa em relação à capacidade de estabilizar a política peruana, reduzir desigualdades sociais e ampliar a cooperação internacional. A relação com o Brasil, especialmente em áreas como comércio, infraestrutura e integração regional, também aparece como uma das frentes estratégicas do novo governo.





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