O deputado federal André Janones (Avante-MG) admite que divulgou mentiras para “desestabilizar” o então presidente Jair Bolsonaro (PL) na campanha eleitoral do ano passado. As revelações estão no livro escrito por ele, com os bastidores da disputa presidencial.
Entre o conteúdo falso compartilhado por Janones, segundo o livro, estão as citações a um aparelho celular do ex-ministro Gustavo Bebianno, morto em março de 2020, e a fake news de que o ex-presidente Fernando Collor ganharia um lugar na Esplanada se Bolsonaro fosse reeleito.
A obra “Janonismo cultural: o uso das redes sociais e a batalha pela democracia no Brasil” será lançada em 20 de novembro, mas o deputado já vem fazendo publicidade do texto biográfico nas plataformas digitais. O Globo obteve a íntegra do livro, de 176 páginas, divididas em 12 capítulos com títulos como “Janones, eu autorizo”, “Tocando o gado” e “Influencer não, político”.
No capítulo “O celular de Bebianno”, o parlamentar revela que inventou estar em posse do aparelho pouco antes do debate da TV Globo, o último antes do segundo turno, numa tentativa de abalar emocionalmente Bolsonaro. Advogado, Gustavo Bebianno conquistou a confiança do ex-presidente ainda durante a campanha de 2018 e assumiu o posto de secretário-geral da Presidência no início do mandato, mas deixou o governo ainda nos primeiros meses da gestão, passando de aliado a desafeto.
Desde a sua morte, vítima de um infarto em 2020, circulam rumores de que o telefone de Bebianno armazenaria informações que poderiam comprometer membros do governo, inclusive o então chefe do Executivo. No livro, Janones afirma que, apesar de jamais ter chegado perto do “mítico aparelho”, insinuou que havia tido acesso ao conteúdo para “atormentar” o adversário político.
“Horas antes de o debate começar, publiquei uma foto minha segurando alguns papéis. A legenda dizia: ‘Tá tudo na mão do Pai, agora é com ele. Seja o que Deus quiser!’ O que Jair Bolsonaro temia? Que eu tivesse entregado documentos sobre Gustavo Bebianno para Lula às vésperas do último debate. Até eu me impressionava com minha capacidade de mexer com eles”, narra o deputado.
Em outra passagem, o deputado explica como fomentou uma fake news sobre a possibilidade de que o ex-presidente Fernando Collor de Mello assumisse um ministério em um eventual segundo mandato de Bolsonaro. A informação circulou largamente em perfis favoráveis a Lula nas redes sociais e chegou a aparecer, à época, entre os termos mais comentados nas redes sociais. Janones justifica a decisão citando uma fala na qual Bolsonaro afirmou que o ex-ministro José Dirceu voltaria ao alto escalão no caso de triunfo petista nas urnas.
“O ministro de Lula vai ser José Dirceu? Tá bom. Então o ministro da Previdência de Jair Bolsonaro vai ser Fernando Collor de Mello. Simples assim. Ele realmente seria ministro de Jair Bolsonaro? Eu sei lá. Mas uma vez que ele apoiou Jair Bolsonaro, poderia muito bem ser. Ele iria confiscar benefícios como a aposentadoria? Não sei, mas ele confiscou as poupanças quando foi presidente”, escreve o autor.
Na obra, Janones relata também bastidores da estratégia encabeçada por ele para repercutir o vídeo em que Bolsonaro disse que “pintou um clima” com meninas venezuelanas durante visita à comunidade de São Sebastião, em Brasília. O deputado argumenta no texto que “qualquer brasileiro que não vive em um mundo paralelo se indignou com aquela declaração” e descreve que seu papel, neste caso, teria sido apenas o de garantir que o assunto não virasse mais um item “na lista de absurdos ditos pelo Bolsonaro que a extrema direita diz que ‘é o jeito dele’ e que a esquerda tem pudores para explorar como se deve”.
O parlamentar conta, então, que viajou até São Sebastião no dia seguinte à divulgação do vídeo e passou a cutucar aliados de Bolsonaro. “Segui provocando, alimentando a angústia deles, até que no dia 28, às 10h, finalmente publiquei no Twitter a foto em frente ao letreiro de São Sebastião: ‘Missão cumprida: depoimentos, gravações, testemunhas e provas incontestes e irrefutáveis! Agora bora levar tudo para São Paulo porque a noite promete!’ Fiz eles de otários”, escreveu Janones, admitindo, mais uma vez, que, na verdade, não havia recolhido qualquer material.
O segundo turno das eleições presidenciais começou com publicações nas redes sociais associando Lula ao satanismo. Segundo Janones, a equipe de monitoramento de redes da campanha do petista ficou preocupada com a situação e apontou um outro vídeo repercutindo ainda de forma tímida: “Jair Bolsonaro em uma loja maçônica, em 2018”.
Janones conta que, assim que a história ganhou tração, ele já sabia o que fazer para reverter o cenário. O deputado foi até o Templo de Salomão e iniciou uma transmissão ao vivo. O parlamentar reconhece que quebrou duas condutas profissionais naquele dia: não misturar religião e política e não falar da vida pessoal nas redes.
“Pessoal, vazou um vídeo aí do presidente Bolsonaro com a maçonaria, parece que com alguns rituais satânicos, é envolvido com seita etc. Como eu sou evangélico, muitos irmãos da igreja estão pedindo que eu me manifeste”, dizia a postagem feita por ele na ocasião. “Se os bolsonaristas queriam brincar de difamação, eles tinham encontrado um oponente à altura”, afirma Janones no livro.
Com informações de O Globo





