A residência oficial da embaixadora do Brasil na Suécia, localizada em um casarão do século XIX em um dos bairros mais exclusivos de Estocolmo, tornou-se uma das mais caras mantidas pelo Itamaraty no exterior. Desde abril, segundo reportagem do jornal O GLOBO, o Brasil paga cerca de R$ 117 mil por mês — ou R$ 1,4 milhão por ano — de aluguel pelo imóvel conhecido como Villa Mullberget, que agora abriga a chefe da missão diplomática brasileira no país escandinavo.
O imóvel, situado na ilha de Djurgården, a cerca de 25 minutos da sede da embaixada, tem valor histórico reconhecido pelo Museu da Cidade de Estocolmo e um jardim amplo. A escolha da nova residência, no entanto, acendeu alertas em meio à discussão sobre austeridade nos gastos públicos. Quando somadas despesas com segurança e os salários de três funcionários de apoio, o custo anual do imóvel sobe para R$ 2,47 milhões.
Embora o Itamaraty afirme que a residência está em uma área urbana cercada por embaixadas de países como Espanha, Reino Unido e Estados Unidos, a Suécia ocupa apenas a 53ª posição entre os destinos de exportações brasileiras, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. A relação custo-benefício, portanto, é questionada.
Segundo levantamento feito pelo jornal O GLOBO, com base em dados obtidos via Lei de Acesso à Informação, o Brasil gastou R$ 174,8 milhões em 2023 com residências oficiais de diplomatas em 188 postos no exterior. Desses, R$ 87,8 milhões foram destinados apenas ao pagamento de aluguéis e taxas de condomínio. Outros valores cobriram salários de funcionários locais, como cozinheiros, mordomos e jardineiros, além de contratos terceirizados de limpeza e segurança.
Genebra lidera gastos e críticas se multiplicam
O maior custo com residência oficial é registrado em Genebra, na Suíça, onde fica a casa do chefe da Missão Permanente do Brasil junto à ONU. O imóvel, alugado desde 1972, custa R$ 2,16 milhões por ano, sem contar os salários de seis funcionários permanentes (R$ 3 milhões) e o contrato de segurança (R$ 87 mil). O total anual ultrapassa os R$ 5,2 milhões.
Outros postos com despesas elevadas incluem locais de grande relevância diplomática para o Brasil, como Washington, Buenos Aires e Nova York. Mas há também casos mais controversos, como Viena, Praga e Budapeste, que figuram entre os 20 maiores gastos com moradias, apesar de seus países não estarem entre os principais parceiros comerciais do Brasil.
Na República Tcheca, por exemplo, o aluguel de um palacete para o embaixador brasileiro custa R$ 1,26 milhão por ano. Quatro funcionários contratados elevam a conta para R$ 2,08 milhões anuais. Já em Viena, na Áustria — 108ª no ranking de importadores do Brasil —, o imóvel fica a apenas 350 metros da embaixada e custa R$ 1,7 milhão anuais, incluindo condomínio e funcionários.
Em Budapeste, na Hungria, o Brasil aluga uma cobertura por US$ 14 mil mensais (R$ 78,8 mil), em uma área turística e comercial. A Hungria ocupa a 93ª posição entre os principais destinos das exportações brasileiras.
Especialistas pedem revisão e critérios mais claros
Para o diplomata e ex-ministro da Fazenda Rubens Ricupero, a gestão dessas residências deve ser mais seletiva:
— Não é possível termos em todos os postos uma representação como se o Brasil fosse uma potência mundial que não é. O país deve ser bem representado, mas sem exageros. Não vejo importância tão grande da Suécia que justifique gastos maiores. Já em Buenos Aires é preciso ter uma presença importante, assim como em Washington — afirma.
Ricupero também questiona a manutenção de patrimônios como o Palazzo Pamphilj, em Roma, sede da embaixada brasileira na Itália desde os anos 1960, cuja preservação envolve custos elevados.
O cientista político Moisés Marques, da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), defende gastos mais robustos apenas onde há relevância geoeconômica ou presença significativa de brasileiros.
— Casos como os de Estocolmo e Cairo não se destacam nem do ponto de vista geopolítico, nem comercial. São cidades que deveriam ter estruturas diplomáticas mais enxutas — avalia.
Funcionários e contratos sob questionamento
Além dos imóveis, o Itamaraty mantém 544 funcionários em residências oficiais pelo mundo, com custo anual de R$ 77 milhões. Outros R$ 10 milhões são gastos com contratos de serviços terceirizados, como limpeza, vigilância e jardinagem, em 153 imóveis.
Renato Eliseu Costa, professor de gestão pública da Universidade Federal do ABC (UFABC), aponta a falta de transparência como um problema adicional:
— A ausência de dados sobre os contratados locais em alguns postos amplia o alerta orçamentário. É essencial que o Itamaraty preste contas completas para evitar distorções — defende.
O Ministério das Relações Exteriores afirma, em nota, que a escolha das propriedades segue critérios técnicos estabelecidos pela Secretaria de Estado das Relações Exteriores. Entre os fatores considerados estão a localização, o padrão de representação, a possibilidade de realização de eventos oficiais e a disponibilidade orçamentária. O número de funcionários, segundo a pasta, é definido caso a caso, com base na metragem do imóvel e nas condições locais.
A discussão sobre os gastos com a diplomacia brasileira ganha força em meio a um cenário de pressões por cortes de despesas. Se por um lado é consenso que o Brasil precisa manter presença diplomática qualificada, por outro cresce a cobrança por maior eficiência e coerência entre os custos e os ganhos efetivos de cada representação.





