Irã abandona negociações com os EUA na Suíça após novas ameaças de Trump

Delegação iraniana deixa encontro mediado por Catar e Paquistão; conflito no Líbano, petróleo e ativos congelados estavam na pauta das discussões

A delegação do Irã deixou neste domingo (21) o local onde participaria de uma nova rodada de negociações com os Estados Unidos na Suíça, após o presidente americano Donald Trump voltar a fazer ameaças contra a República Islâmica. A informação foi divulgada pela agência estatal iraniana Irna.

Segundo a agência, representantes iranianos abandonaram o prédio onde as conversas ocorriam logo após uma reunião com a delegação do Catar, um dos países mediadores do processo diplomático.

“O presidente dos Estados Unidos publicou uma mensagem na rede X reiterando ameaças e declarações contra o Irã ao mesmo tempo em que as negociações eram iniciadas”, informou a Irna.

Troca de ameaças amplia tensão diplomática

A saída da delegação iraniana aconteceu poucas horas depois da chegada das equipes dos dois países a um resort nos Alpes suíços. O encontro tinha como objetivo discutir temas considerados estratégicos para a estabilidade regional, incluindo o conflito entre Israel e o Hezbollah no Líbano, a liberação de ativos iranianos congelados e a comercialização de petróleo do país.

Antes da reunião, Trump havia pedido que Teerã impedisse seus aliados libaneses de “causar problemas” e alertou para a possibilidade de novos ataques contra o Irã caso isso não ocorresse.

A resposta iraniana veio rapidamente. O presidente do Parlamento do país, Mohamad Baqer Qalibaf, afirmou que as Forças Armadas iranianas estão preparadas para reagir e aconselhou Washington a moderar o discurso.

O episódio elevou ainda mais a tensão entre os dois países, justamente no momento em que negociadores buscavam avançar em uma agenda voltada para a redução dos conflitos no Oriente Médio.

JD Vance fala em oportunidade histórica

Apesar do clima de instabilidade, o vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, classificou o encontro como uma oportunidade histórica para redefinir as relações regionais.

Liderando a equipe americana, que também conta com os enviados especiais Steve Witkoff e Jared Kushner, Vance afirmou que houve avanços importantes nas últimas horas e questionou até onde os dois países poderiam avançar na construção de um novo cenário diplomático.

Segundo ele, o objetivo americano é buscar não apenas uma aproximação com o Irã, mas também uma paz mais ampla para toda a região.

Líbano lidera pauta das negociações

Horas antes do início das conversas, o governo iraniano confirmou que a situação no Líbano seria o principal tema do encontro.

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Esmaeil Baqaei, afirmou que o Irã considera que Israel continua descumprindo compromissos relacionados ao cessar-fogo e que essa questão ocuparia o centro dos debates.

Além do conflito libanês, estavam previstas discussões sobre a liberação de recursos financeiros iranianos bloqueados no exterior e sobre a emissão de autorizações para a exportação de petróleo do país.

O tema ganhou ainda mais relevância após a primeira cláusula do protocolo firmado remotamente entre Trump e o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, estabelecer o compromisso mútuo de evitar ameaças ou uso da força.

A retomada das tensões coloca em dúvida a continuidade dos esforços diplomáticos que vinham sendo conduzidos com apoio de mediadores internacionais.

Estreito de Hormuz gera preocupação internacional

Outro ponto de atenção envolve o Estreito de Hormuz, uma das rotas marítimas mais importantes para o transporte global de petróleo.

No sábado, autoridades iranianas afirmaram ter voltado a bloquear a passagem em resposta às violações do cessar-fogo no Líbano. Os Estados Unidos contestaram a informação e garantiram que monitoram a região para assegurar o fluxo normal do tráfego marítimo.

Dados de rastreamento naval mostraram que superpetroleiros continuaram navegando pela área, reforçando a avaliação de que o corredor marítimo permaneceu operacional.

A situação, porém, mantém mercados internacionais em alerta diante da possibilidade de impactos sobre o abastecimento energético global.

Irã admite garantias nucleares, mas rejeita abrir mão do enriquecimento

Também neste domingo, o presidente iraniano Masoud Pezeshkian afirmou que o país está disposto a fornecer garantias formais de que não pretende desenvolver armas nucleares.

Segundo ele, Teerã pode registrar oficialmente o compromisso de não fabricar uma bomba atômica. No entanto, destacou que o Irã não abrirá mão do direito de enriquecer urânio para fins considerados legítimos pelo governo.

A declaração reforça uma das principais divergências entre o país e as potências ocidentais, que há anos tentam limitar as atividades nucleares iranianas.

A delegação iraniana presente na Suíça era composta pelo ministro das Relações Exteriores, Abbas Araqchi, e pelo presidente do Banco Central, Abdolnaser Hemmati.

Cessar-fogo no Líbano segue sob risco

Enquanto as negociações ocorriam na Suíça, a situação no Líbano permanecia instável.

Após ataques israelenses que deixaram dezenas de mortos no sábado, as operações militares foram interrompidas por determinação das autoridades israelenses e do Hezbollah, em cumprimento ao cessar-fogo vigente.

Mesmo assim, o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas de Israel, tenente-general Eyal Zamir, alertou que a trégua continua frágil e que o Exército mantém elevado grau de prontidão para uma eventual retomada dos combates.

A fragilidade do cessar-fogo e o aumento da tensão diplomática entre Washington e Teerã ampliam as incertezas sobre os próximos passos das negociações e sobre a estabilidade do Oriente Médio.

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