Investigados por tentativa de golpe se irritam com ofensiva de Eduardo Bolsonaro contra Moraes

Para advogados da defesa, a postura do filho do ex-presidente cria uma animosidade ainda maior entre o Supremo e os denunciados

A ofensiva beligerante do deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) contra o ministro do Supremo Alexandre de Moraes nos Estados Unidos, de onde anunciou o afastamento do cargo, irritou investigados no inquérito da trama golpista que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF), informa Malu Gaspar em sua coluna no jornal O GLOBO. Moraes é o relator do inquérito.

A uma semana do julgamento que deve colocar Jair Bolsonaro, Walter Braga Netto e outros seis investigados no banco dos réus, Eduardo anunciou que ia “focar em buscar as justas punições a Alexandre de Moraes e a sua gestapo da Polícia Federal”, em referência à polícia secreta do regime de Adolf Hitler.

O ex-presidente Jair Bolsonaro e outras 33 pessoas são alvos da denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República (PGR) por golpe de Estado, organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, dano qualificado pela violência e grave ameaça contra o patrimônio da União e deterioração de patrimônio tombado.

Para três advogados ouvidos reservadamente pela reportagem, a postura de Eduardo cria uma animosidade ainda maior entre o Supremo e os investigados, que se preparam para um revés no julgamento de terça-feira (25), quando a denúncia deve ser recebida pela Primeira Turma sem maiores dificuldades.

Além disso, o discurso do deputado licenciado prejudica qualquer trabalho de distensão nos bastidores – e torna ainda mais difícil, na visão dos defensores desses investigados, a possibilidade de Moraes atender aos diversos pedidos apresentados pelas defesas.

“Se Moraes acolher o pedido da defesa dos investigados agora, após as ameaças do Eduardo, fica parecendo um covarde”, diz um dos advogados.

“Isso cria um clima de animosidade com o STF e o relator. O ex-presidente Jair Bolsonaro também não tem uma postura muito conciliadora, e isso nos causa prejuízos. É, na verdade, uma novela mexicana, e a gente não sabe qual será o próximo capítulo”, resume outro defensor.

A estratégia pode ser contraproducente inclusive para o próprio Eduardo Bolsonaro.

Isso porque o deputado federal licenciado já entrou na mira do STF no inquérito das fake news, comandado por Moraes, e por xingar em agosto do ano passado o delegado Fábio Shor, que atuou nas investigações que levaram ao indiciamento de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado. O relator do caso Shor é o ministro Flávio Dino, aliado de Moraes.

“Prefiro perder minha aposentadoria da Polícia Federal, meu porte de arma e carteira funcional a ser obrigado a chamar de ‘democracia’ um país em que um deputado federal não pode criticar um delegado federal que está prendendo velhinhas e mães de família como se fossem terroristas”, escreveu Eduardo em sua conta no Instagram, no mês passado.

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