A sensação de insegurança voltou a dominar o bairro do Andaraí, na Zona Norte do Rio, neste sábado. Menos de 24 horas depois de a Polícia Militar instalar um trailer e uma viatura em frente à Paróquia de São Cosme e São Damião, na Rua Leopoldo, a estrutura foi retirada, deixando a comunidade novamente exposta. O mesmo aconteceu na Paróquia de São José e Nossa Senhora das Dores, na Rua Barão de Mesquita, que também amanheceu sem presença policial. Ambas as igrejas haviam sido fechadas duas vezes em menos de uma semana por ameaças de criminosos.
Moradores, comerciantes e funcionários das paróquias confirmaram a uma reportagem do jornal O Globo que o policiamento foi retirado durante a madrugada. A ausência de proteção reacendeu o temor entre os frequentadores, especialmente após uma série de episódios violentos na região.
Missa em risco e medo entre fiéis
Na Paróquia de São Cosme e São Damião, o clima era de apreensão. Um funcionário, que pediu anonimato por medo de represálias, disse que não há garantia de que a missa das 17h será realizada.
Na vizinhança, comerciantes também lamentam a retirada do policiamento. Uma dona de bazar da mesma rua relatou que a presença da PM foi breve e insuficiente para devolver a sensação de segurança.
Ameaças e cobrança de “taxas”
Os episódios recentes de violência começaram após ameaças recebidas por líderes religiosos e comerciantes. A Paróquia de São José e Nossa Senhora das Dores chegou a ser fechada na semana anterior, depois que o pároco foi alvo de uma ligação em que milicianos exigiam o pagamento de R$ 1 mil. Um aviso de suspensão das atividades chegou a ser afixado na porta, mas foi retirado no dia seguinte.
Segundo relatos, o templo está cercado por estabelecimentos que se recusam a pagar “taxas de segurança” impostas por grupos criminosos, substituídas por exigências de “favores”, como entrega de quentinhas e doações.
Na manhã deste sábado, funcionários da paróquia confirmaram que não havia policiamento permanente, mas afirmaram que a missa prevista para o dia seria mantida.
Pânico no dia dos santos gêmeos
A violência na região se intensificou no último fim de semana, justamente no dia de São Cosme e São Damião. A igreja dedicada aos santos gêmeos precisou encerrar suas atividades às pressas depois que um homem foi morto em frente ao templo. O tiroteio espalhou pânico entre famílias que participavam da tradicional distribuição de doces, e testemunhas afirmaram que houve feridos.
Após o episódio, a igreja voltou a ser fechada na quinta-feira, após nova ameaça anônima que impôs um “toque de recolher”. Na sexta, o local havia sido reaberto por causa da presença do trailer da PM — estrutura agora retirada.
Guerra entre facções agrava cenário
O aumento da tensão no Andaraí está diretamente ligado à disputa entre facções criminosas. Após o Comando Vermelho (CV) tomar o controle do Morro dos Macacos, a região se tornou um dos últimos redutos do Terceiro Comando Puro (TCP). Além do tráfico, moradores relatam que o comércio local vem sendo alvo de extorsões e pressões que misturam práticas do tráfico e da milícia.
A Paróquia de São Cosme e São Damião, símbolo religioso e comunitário da região, permanece em situação indefinida. Fiéis aguardam a decisão do pároco sobre a realização da missa deste sábado, enquanto cresce o sentimento de abandono.
Nota da Polícia Militar
Em nota divulgada na sexta-feira, a Polícia Militar afirmou que “foi implementado um policiamento preventivo, em conjunto com a 10ª UPP/6º BPM (Borel), no Andaraí, para prevenir eventuais confrontos entre grupos rivais, garantindo a preservação da ordem pública, a segurança da comunidade e o pleno funcionamento das atividades religiosas e sociais na região”.
Até o momento, a corporação não explicou por que a estrutura de segurança em frente à Paróquia de São Cosme e São Damião foi retirada nem o motivo da ausência de viaturas na Barão de Mesquita. O espaço segue aberto para manifestação da PM.






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