IDH-M: Brasil alcança pela primeira vez nível de desenvolvimento humano ‘muito alto’, aponta ONU

Relatório do Pnud mostra avanço histórico do índice no país, mas revela persistência das desigualdades raciais, sociais e regionais

O Brasil atingiu, pela primeira vez, o patamar de “muito alto desenvolvimento humano”, segundo o relatório Radar IDHM, divulgado nesta terça-feira (26) pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). O estudo mostra que o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M) brasileiro subiu de 0,744 em 2012 para 0,805 em 2024, alcançando o maior nível da série histórica e colocando o país na faixa mais elevada da classificação internacional.

O levantamento, o primeiro publicado em mais de uma década com foco na evolução recente do indicador, analisa o desempenho brasileiro entre 2012 e 2024 com base em três dimensões consideradas essenciais para medir o desenvolvimento humano: longevidade, educação e renda.

Apesar do avanço histórico, o relatório aponta que as desigualdades sociais e raciais seguem profundas no país. O estudo mostra que, ao considerar recortes de raça e gênero, o Brasil ainda permanece em um patamar inferior de desenvolvimento humano.

O IDH-M brasileiro utiliza metodologia adaptada à realidade nacional e é elaborado a partir de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do IBGE, em parceria com a Fundação João Pinheiro.

Educação impulsiona avanço do índice

Segundo o relatório, o principal motor do crescimento do IDH-M brasileiro nos últimos anos foi a educação. O componente educacional do índice registrou evolução média anual de 1,35% no período analisado, apesar de uma queda pontual em 2021, durante os efeitos mais severos da pandemia da Covid-19.

Já os indicadores de longevidade e renda apresentaram crescimento médio anual mais moderado, de 0,31%.

No caso da longevidade, o estudo destaca que o país conseguiu retomar a trajetória de crescimento após os impactos da pandemia sobre a mortalidade.

“O pior valor da série foi registrado em 2021, em decorrência dos impactos da pandemia. Após dois anos consecutivos de queda (2020 e 2021), a recuperação começou a ganhar pulso em 2022, atingindo o seu maior valor em 2024”, afirma o relatório.

No recorte da renda, a trajetória foi marcada por oscilações ao longo da década.

“Repercutindo tanto o impacto da crise econômica iniciada em 2015 quanto o da pandemia”, acrescenta o estudo.

Desigualdade racial continua evidente

Embora o país tenha alcançado a faixa de muito alto desenvolvimento humano na média nacional, os indicadores revelam diferenças persistentes entre grupos raciais.

Entre a população branca, o índice passou de 0,804 em 2012 para 0,851 em 2024. Já entre a população negra, formada por pretos e pardos, o avanço foi de 0,694 para 0,774 no mesmo período.

O ritmo de crescimento foi maior entre negros, com alta de 10,3% ao longo da série, enquanto entre brancos o aumento ficou em 5,5%. Ainda assim, a distância entre os grupos permanece significativa.

Segundo o relatório, quando o desenvolvimento humano é analisado sob os recortes de raça e gênero, o país deixa a classificação de muito alto desenvolvimento humano e passa para o nível de alto desenvolvimento humano.

Apesar disso, a diferença entre os grupos diminuiu ao longo da última década, caindo de 14% para 9%.

O estudo também chama atenção para a desigualdade observada no mercado de trabalho. No IDHM ajustado à renda do trabalho, as mulheres permaneceram em situação de maior desvantagem durante todos os anos analisados.

Entre os homens, o índice ajustado passou de 0,737 em 2012 para 0,802 em 2024. Entre as mulheres, a evolução foi de 0,736 para 0,798.

Índice ajustado revela distância da realidade social

O relatório também apresenta o IDHMAD, indicador ajustado às desigualdades internas de cada dimensão do desenvolvimento humano.

Nesse cenário, o Brasil apresenta desempenho significativamente inferior ao observado na média geral do IDH-M.

Segundo o levantamento, o país teria deixado a condição de baixo desenvolvimento humano em 2012 para alcançar apenas o patamar de médio desenvolvimento humano em 2024.

“O dado de 2024 evidencia o quanto o desenvolvimento humano brasileiro permanece distante de uma parcela da população que não se representa pela média”, afirma o relatório.

A análise reforça que o crescimento do índice nacional não foi acompanhado por uma distribuição homogênea das oportunidades e das condições de vida.

Diferenças regionais permanecem

O Radar IDHM mostra que todas as unidades federativas brasileiras atingiram níveis altos ou muito altos de desenvolvimento humano em 2024. Entre os 27 estados e o Distrito Federal, nove registraram índices superiores à média nacional — todos localizados nas regiões Sul e Sudeste.

Mesmo com a melhora geral, as diferenças regionais seguem expressivas em áreas como expectativa de vida, renda e escolaridade.

A expectativa de vida ao nascer varia de 74,32 anos no Amapá para 79,75 anos no Distrito Federal.

No recorte da renda, a disparidade também é ampla. Enquanto o Maranhão registrou renda domiciliar per capita de R$ 482,46, o Distrito Federal alcançou R$ 1.465,10.

Na educação, o percentual da população acima de 18 anos com ensino superior completo varia de 59,14% na Paraíba para 83,37% no Distrito Federal.

Ainda assim, todas as unidades federativas apresentaram crescimento no IDH-M acima dos níveis observados antes da pandemia. Os maiores avanços foram registrados em Alagoas, Piauí e Rio Grande do Norte.

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