O Carnaval 2026 marca um momento histórico na trajetória de Moacyr Silva Pinto, o Mestre Ciça, de 69 anos. Homenageado no enredo da Unidos do Viradouro, ele vive a experiência de ser protagonista do desfile sem abrir mão da função que o consagrou como um dos maiores mestres de bateria do Rio. Com mais de cinco décadas de avenida, o sambista mostra que, mesmo no centro das atenções, prefere manter a rotina simples que construiu ao longo da carreira.
Desde que começou como passista na Unidos de São Carlos, em 1971, Ciça ficou conhecido pelo jeito agregador e pelos hábitos modestos. Na concentração, nada de camarote ou hotel: ele chegou cedo, acompanhou a descarga do caminhão com os instrumentos dos 282 ritmistas e repetiu um ritual já tradicional — jogou baralho e preparou um churrasco para os amigos enquanto aguardava a hora do desfile na Marquês de Sapucaí.
— Estou aqui porque gosto muito. Podia estar no hotel, porque sou enredo. Mas não vou mudar 38 anos de bateria — afirmou, sem qualquer sinal de estrelismo.
Rotina simples e contato direto com a comunidade
Sentado no meio-fio da Avenida Presidente Vargas, de bermuda jeans e sorriso no rosto, o mestre recebeu componentes, posou para fotos e ainda aprendeu a enviar a localização pelo celular para orientar quem tentava encontrá-lo. A cena reforça a relação de proximidade que construiu com a comunidade ao longo dos anos.
Apesar da longa experiência, ele admite um nervosismo diferente por ser, ao mesmo tempo, tema do enredo e comandante da bateria.
— Hoje estou um pouquinho mais nervoso, não posso esconder. Antes do desfile faço só uma oração — contou.
A única superstição veio em forma de promessa: se a Viradouro conquistar o título, ele garante que vai parar de fumar. Mesmo assim, reconhece que a intenção de abandonar o hábito existe independentemente do resultado.
Aposentadoria indefinida e paixão pelo carnaval
O futuro na avenida ainda é uma incógnita. Prestes a completar 70 anos em julho, Ciça evita cravar uma despedida, embora reconheça a intensidade da carreira.
— Sou apaixonado por isso aqui. Vou deixar na mão de Deus decidir. Ele que vai falar “para” ou “não” — disse.
Com passagens por agremiações como União da Ilha, Grande Rio, Unidos da Tijuca e Estácio de Sá — escola do bairro onde foi criado —, o mestre soma títulos importantes, incluindo as conquistas pela Viradouro em 2020 e 2024, além do campeonato de 1992 pela Estácio.
Legado de um dos maiores mestres de bateria
A homenagem da Viradouro transforma a apresentação deste ano em um desfile carregado de emoção e simbolismo. Mesmo sendo o grande personagem do enredo, Ciça faz questão de reforçar que continua sendo, прежде de tudo, um homem de bateria, cercado pelos ritmistas e pela comunidade que ajudou a formar.
Entre o baralho, o churrasco na concentração e a promessa de parar de fumar, o mestre mostra que sua maior marca não está apenas nos títulos, mas na forma simples e apaixonada com que vive o carnaval.






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