A segurança pública já ocupa o centro da disputa pelo governo de São Paulo, mesmo antes das convenções partidárias e do início oficial da campanha eleitoral. De um lado, o ex-ministro Fernando Haddad (PT) prepara um conjunto de propostas para tentar explorar uma das áreas mais sensíveis para o eleitor paulista. Do outro, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), candidato à reeleição, mobiliza aliados para defender os resultados da atual gestão e rebater as críticas do adversário.
Segundo reportagem do jornal O Globo, o tema é tratado como prioridade no núcleo político de Haddad. Pesquisa Genial/Quaest divulgada em abril apontou a violência como a principal preocupação da população de São Paulo, o que levou o pré-candidato a decidir apresentar suas propostas para a área antes mesmo da divulgação integral do plano de governo.
Nos últimos meses, Haddad e seus auxiliares passaram a consultar especialistas, entre eles Leandro Piquet, professor da Universidade de São Paulo (USP), e Benedito Mariano, sociólogo do Instituto para Reforma das Relações entre Estado e Empresa (IREE).
A previsão é que o programa de segurança seja concluído na próxima semana, sob coordenação do deputado estadual Emídio de Souza (PT), responsável pela elaboração do plano de governo do pré-candidato.
Plano terá três eixos principais
A proposta em elaboração deverá ser dividida em três grandes áreas. A primeira será voltada ao combate ao crime organizado por meio de ações de inteligência, integração entre diferentes níveis de governo e cooperação com instituições federais.
A estratégia busca aproveitar a repercussão da Operação Carbono Oculto para defender o enfrentamento das estruturas financeiras e empresariais das organizações criminosas, com foco no chamado crime “no andar de cima”.
O segundo eixo será direcionado à segurança no espaço urbano, incluindo medidas contra roubos e furtos de celulares, retomada de áreas sob influência de grupos criminosos e ações destinadas a ampliar a sensação de segurança da população.
Já a terceira frente terá como prioridade a proteção de grupos vulneráveis, especialmente mulheres vítimas de violência. O plano também deverá incluir propostas para o uso de inteligência artificial na identificação e no cruzamento automatizado de dados, além de medidas para reduzir a letalidade policial.
“São várias propostas, como o combate ao crime organizado, com cooperações interfederativas, com outros estados, com guardas municipais, com órgãos como a Receita Federal, Polícia Federal, ministérios públicos, secretaria da Fazenda. É colocar o problema na mão do governador, não deixar só na Secretaria de Segurança”, explicou Emídio de Souza.
Haddad promete retomar câmeras de gravação contínua
Entre as principais bandeiras anunciadas por Haddad está a retomada do modelo de câmeras corporais com gravação ininterrupta nos uniformes dos policiais militares.
No sistema atualmente adotado pelo governo paulista, os equipamentos podem ser acionados pelos próprios agentes ou de forma remota em situações específicas, como durante o atendimento de ocorrências. No modelo implantado ainda na gestão de João Doria, a gravação permanecia ativa durante todo o período de trabalho, desde o momento em que o policial vestia o uniforme.
Durante uma agenda em Hortolândia, em junho, Haddad afirmou que o retorno ao sistema contínuo teria efeitos tanto na redução de mortes provocadas por intervenções policiais quanto na proteção dos próprios agentes.
“Temos que voltar com as câmeras nas fardas em tempo contínuo. Porque isso aí protege o policial também. Você vai voltar a diminuir a letalidade e também diminuir a morte dos policiais”, disse o pré-candidato.
Em 2025, São Paulo registrou 834 mortes decorrentes de intervenção policial, o maior número desde 2019, segundo levantamento da Rede de Observatórios da Segurança. O total representou aumento de 2,7% em relação ao ano anterior, apesar da queda registrada em indicadores como homicídios, roubos e furtos.
O governo estadual sustenta que os números refletem a intensificação do enfrentamento ao crime. Ao longo do mandato, porém, Tarcísio mudou sua posição sobre as câmeras corporais após casos de abuso de autoridade e questionamentos levados ao Supremo Tribunal Federal.
O governador afirmou que estava “completamente errado” sobre o tema e passou a defender a ampliação dos novos equipamentos, incluindo um mecanismo de acionamento automático capaz de preservar as imagens mesmo quando o policial não ativar voluntariamente a gravação.
Violência contra a mulher entra no centro da campanha
Outra proposta em elaboração pela campanha petista é o “SP Protege”, serviço destinado ao atendimento de mulheres vítimas de violência doméstica.
A iniciativa será apresentada em meio ao crescimento dos feminicídios no estado. Nos primeiros cinco meses deste ano, esses crimes aumentaram 16%, acompanhando uma tendência também observada em outras regiões do país.
Em 2025, São Paulo registrou 266 feminicídios, alta de 8,1% em relação ao ano anterior e maior número da série histórica.
O avanço dos casos levou o governo Tarcísio a anunciar um patrulhamento específico da Polícia Militar para combater a violência contra a mulher. A corporação é comandada atualmente pela coronel Glauce Cavalli. A iniciativa se soma à instalação de delegacias especializadas e à criação de um aplicativo para monitoramento de casos e registro de boletins de ocorrência.
Haddad, entretanto, atribui parte do aumento dos feminicídios à falta de recursos destinados à Secretaria das Mulheres. A pasta foi criada por Tarcísio em 2023, mas passou a ser alvo de críticas da oposição por não contar inicialmente com orçamento próprio e por ter sido comandada por parlamentares ligadas ao bolsonarismo.
Proposta prevê gabinete contra o crime organizado
No enfrentamento ao crime organizado, Haddad pretende prometer a criação, já no primeiro dia de um eventual governo, de um gabinete integrado entre autoridades estaduais e instituições como a Receita Federal e a Polícia Federal.
A campanha busca transmitir a ideia de que um governador alinhado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva poderia facilitar a cooperação com órgãos federais e ampliar a eficácia das ações contra facções, lavagem de dinheiro e redes econômicas ligadas ao crime.
Durante uma passagem recente pela região de Campinas, Haddad afirmou que milícias estariam avançando sobre o interior paulista, especialmente em atividades relacionadas ao transporte de cargas, sem uma reação adequada do governo estadual.
A declaração provocou resposta da Secretaria de Segurança Pública. Em nota, a pasta afirmou que os roubos de cargas caíram 34% entre janeiro e maio, chegando a 1.061 ocorrências, “o menor volume já registrado no período”. O órgão também informou ter realizado “283 ações conjuntas” com a Polícia Federal desde o início da gestão Tarcísio.
O governador tem afirmado publicamente que não permitirá o controle territorial de organizações criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC). Em uma operação realizada recentemente em Paraisópolis, policiais retiraram barricadas e outras estruturas instaladas para impedir o acesso a determinadas ruas. As imagens da ação foram posteriormente divulgadas nas redes sociais de Tarcísio.
Aliados do governador partem para o ataque
Embora Tarcísio evite responder diretamente a Haddad, integrantes de seu grupo político passaram a assumir a linha de frente dos ataques ao petista.
O deputado federal Guilherme Derrite (PP), ex-secretário estadual de Segurança Pública e pré-candidato ao Senado, publicou um vídeo no qual acusou Haddad de “trabalha com a mentira” e criticou a proposta original do PL Antifacção enviada pelo governo Lula ao Congresso.
“O PL Antifacção enviado pelo governo Lula era fraquíssimo”, afirmou Derrite. “Ele mente quando fala que a gente enfraqueceu e deixou de ter eficácia para combater o topo da pirâmide. Haddad, quem tem que se explicar é você, que quando era prefeito criou o programa De Braços Abertos, o “bolsa crack”, com três refeições diárias e hospedagem para usuários de drogas e traficantes”, disse.
O termo “bolsa crack”, contestado pelo PT e classificado por integrantes da esquerda como “fake news”, é utilizado por adversários para atacar o programa De Braços Abertos, implantado por Haddad quando comandou a Prefeitura de São Paulo, entre 2013 e 2016.
O programa oferecia hospedagem em hotéis, alimentação e trabalho de zeladoria, com pagamento diário de R$ 15, a pessoas com dependência química. A interrupção imediata do consumo de drogas não era uma exigência para a participação. A proposta era criar vínculos e estimular gradualmente a busca por tratamento.
Ricardo Nunes também explora programa da Cracolândia
O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), adotou discurso semelhante durante a inauguração de uma praça em Santa Ifigênia, região que anteriormente concentrava parte do fluxo da chamada Cracolândia.
Ao lado de Tarcísio, Nunes atacou a possibilidade de retorno do PT ao comando do estado e voltou a associar Haddad ao programa De Braços Abertos.
“Não vamos deixar a esquerda voltar a governar São Paulo, essa turma tomar conta da cidade para fazer “bolsa crack”. Vamos continuar fazendo o trabalho necessário, que é atendimento social e de saúde para as pessoas que, infelizmente, caíram no uso das drogas. E vamos continuar colocando o traficante atrás das grades”, declarou.
O prefeito é considerado uma peça importante na estratégia eleitoral de Tarcísio para ampliar o apoio na Região Metropolitana de São Paulo, área vista por aliados como um dos principais desafios do governador na disputa pela reeleição.
Campanha de Tarcísio prepara propostas
A equipe de Tarcísio também trabalha na elaboração de propostas para a segurança pública. O plano de governo é coordenado pela secretária estadual de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística, Natália Resende, e conta com a participação de especialistas.
A expectativa é que os projetos para o setor sejam apresentados nas próximas semanas. Aliados do governador, entretanto, avaliam que o desempenho eleitoral dependerá mais dos indicadores acumulados ao longo dos quatro anos de mandato do que de novas promessas.
Internamente, o grupo de Tarcísio considera positivos os resultados obtidos na redução de crimes como roubos, furtos e homicídios e pretende utilizá-los como contraponto às críticas de Haddad.






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