Grupos criminosos usam técnica de cirurgia craniana para furtar petróleo no Rio e põem comunidades em risco

Polícia Civil e empresas de energia intensificam combate a crimes sofisticados que envolvem milhões de reais e podem causar tragédias

Sob os pés de moradores de 33 municípios do Rio de Janeiro corre uma malha de mais de mil quilômetros de dutos que transporta petróleo e derivados como gasolina, diesel e biocombustíveis. Essa infraestrutura é monitorada em tempo integral pela Transpetro, subsidiária da Petrobras, e por forças de segurança, mas tem sido alvo de quadrilhas altamente especializadas que usam equipamentos de mais de R$ 300 mil para perfurar tubulações e desviar combustíveis.

Segundo reportagem do jornal O Globo, só ano passado foram pelo menos sete ocorrências desse tipo no estado. Embora o número pareça pequeno, acendeu o alerta em órgãos de segurança e nas empresas do setor, já que os furtos — conhecidos como “derivações clandestinas” — podem gerar acidentes de grandes proporções.

Da neurocirurgia ao crime organizado

O primeiro caso de furto em dutos foi registrado no Brasil em 2011, mas o ápice ocorreu em 2018 e 2019, quando criminosos passaram a usar uma técnica chamada trepanação, inspirada em procedimentos cirúrgicos intracranianos.

A vantagem para os criminosos é que a perda de pressão é mínima, o que dificulta a detecção da fraude pelos sistemas de monitoramento.

Tragédias já registradas

A prática traz riscos não apenas econômicos, mas também à vida de quem mora perto dessas tubulações. O delegado Pedro Brasil, titular da Delegacia de Defesa dos Serviços Delegados (DDSD), alerta para o potencial destrutivo das perfurações ilegais:

“Cada perfuração clandestina representa um risco de desastre. A prática pode provocar vazamentos que levam à contaminação de solo e de cursos d’água, além da possibilidade de incêndios e explosões de enorme magnitude. Comunidades inteiras que vivem próximas aos oleodutos ficam sob risco permanente de acidentes, que podem resultar em mortes.”

Um caso emblemático ocorreu em 2019, quando a menina Ana Cristina Pacheco, de 8 anos, morreu após ter 80% do corpo queimado ao cair em uma poça de gasolina quente, provocada por vazamento em Duque de Caxias durante tentativa de furto.

Segundo Faccio, o contato com derivados pode causar desde queimaduras na pele até explosões fatais.

Monitoramento em tempo real

Para prevenir tragédias, a Transpetro mantém um centro de controle que funciona 24 horas por dia, sete dias por semana. Técnicos acompanham alterações de pressão e podem ligar ou desligar bombas, abrir ou fechar válvulas e acionar equipes em campo. Drones sobrevoam áreas sensíveis, e moradores têm à disposição o telefone 168 para denúncias anônimas e gratuitas.

As quadrilhas, contudo, também se sofisticaram. Divididas em equipes, montam estruturas clandestinas durante a noite e, no dia seguinte, usam caminhões disfarçados para transportar o combustível furtado.

Investigações e operações policiais

A Polícia Civil já deflagrou este ano duas grandes operações contra esses grupos. Em fevereiro, um dos alvos foi o bicheiro Vinicius Drummond, suspeito de fornecer veículos usados nos furtos — ele nega envolvimento. Em julho, a ação mirou criminosos reincidentes, entre eles Mauro Pereira Gabry, investigado desde 2017, já preso duas vezes e atualmente foragido.

Mudança na lei e desafio judicial

A Câmara dos Deputados aprovou neste mês um projeto que aumenta as penas para furto e roubo de combustíveis e cria novos crimes contra a ordem econômica relacionados à receptação. Hoje, os acusados respondem por furto qualificado, com penas de dois a oito anos de prisão, mas também podem ser enquadrados por crimes ambientais e associação criminosa.

Com a sofisticação das quadrilhas e os riscos crescentes, autoridades e empresas reforçam que a cooperação entre órgãos de segurança, setor privado e comunidades é fundamental para enfrentar esse tipo de crime que ameaça vidas, o meio ambiente e a economia.

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