Godofredo Pinto: o homem público que ensinou a democracia a respirar

Ex-prefeito de Niterói pertence a essa categoria rara de homens públicos que não se corromperam nem pela glória nem pela amargura

  • Paulo Baía

Há existências que não se contentam em passar. São ventos que mudam o rumo das cidades, gestos que transformam a ideia mesma de servir ao público em um exercício de beleza ética. Godofredo Pinto é uma dessas presenças que a história política do Rio de Janeiro abriga com reverência. Professor de Matemática, sindicalista, deputado, prefeito, humanista. Sua trajetória é o retrato de uma vida em que a palavra compromisso nunca foi metáfora, mas método.

Vindo de Campos dos Goytacazes, filho de um tempo em que o magistério era um sacerdócio civil, Godofredo trouxe para a política o olhar pedagógico que nasce do chão da escola. Aprendeu a decifrar o mundo ensinando números, e com isso compreendeu que a cidadania também é uma equação: soma-se a dignidade, subtraem-se as injustiças, multiplicam-se as oportunidades e divide-se o poder. Foi fundador do Centro Estadual dos Professores, embrião do SEPE, e naquele fim de década de 1970, quando a ditadura ainda censurava sonhos, ousou organizar greves e enfrentar prisões. Foi levado pelo DOPS, mas não se calou. Os que o viram naquele tempo sabem que a coragem era um dom que ele vestia com serenidade.

A redemocratização o encontrou em plena forma política. O sindicalista que lutara pela valorização docente transformou-se em parlamentar que fazia da Alerj uma sala de aula. Godofredo foi deputado estadual por três mandatos. Na tribuna, a voz calma escondia uma firmeza que muitos chamavam de rara. Não era homem de discursos inflamados, mas de palavras justas, colocadas com a precisão de quem mede o efeito das ideias. Foi reconhecido como um dos constituintes estaduais mais íntegros e atuantes de 1989. As causas eram muitas, mas a essência era uma só: defender a educação como instrumento de libertação.

Na política partidária, experimentou a travessia entre siglas sem jamais trair princípios. Passou pelo PT, pelo PMDB, pelo PSB, mas em qualquer legenda manteve o mesmo norte ético. Não foi um político de marketing, foi um servidor público no sentido mais literal. Quando chegou à Prefeitura de Niterói, primeiro como vice e depois como prefeito eleito, a cidade se tornou uma espécie de laboratório de modernidade democrática.

Entre 2002 e 2008, sua gestão ergueu pontes entre o planejamento urbano e a justiça social. Sob seu governo nasceram o Plano Municipal de Educação, o Código Ambiental e o novo Código de Posturas. Não eram peças burocráticas, eram instrumentos de civilização. Enquanto muitos viam a cidade como palco de negócios, ele a via como espaço de convivência. Cada rua pavimentada, cada escola ampliada, cada conselho criado revelava a convicção de que governar é educar.

Deu ênfase radical à educação. Instituiu o Plano Municipal de Educação com metas decenais e criou mecanismos de avaliação permanente, acreditando que o futuro começa no ensino fundamental. Reforçou o Conselho Municipal de Educação e garantiu diálogo constante entre professores e gestores. Implementou políticas de inclusão, de habitação popular, de urbanização das áreas de interesse social. Para ele, cidadania não era promessa, era ação diária.

Modernizou Niterói com uma delicadeza rara. Soube equilibrar o desenvolvimento urbano com a preservação ambiental, e fez da cidade um espaço de planejamento participativo. Na Frente Nacional de Prefeitos, representou o Rio de Janeiro com a autoridade de quem conhecia o chão e o povo. A política, para ele, não era um exercício de vaidade, mas de responsabilidade coletiva.

Os que o acompanharam afirmam que, em reuniões, sua maior virtude era ouvir. O homem que um dia ensinara matemática em sala de aula continuava a ensinar que o diálogo é a mais poderosa das ferramentas democráticas. Tinha o olhar manso e o pensamento rápido. Sabia que as mudanças não se impõem, se constroem com paciência e respeito.

Em outubro de 2025, ao receber a Medalha Tiradentes da Alerj, Godofredo Pinto foi saudado como um dos parlamentares mais éticos e atuantes de sua geração. Mas a medalha era menos um prêmio e mais um reconhecimento coletivo. Era como se o Estado do Rio de Janeiro agradecesse a ele por ter acreditado, em tempos de cinismo, que a política ainda pode ser um espaço de decência.

A história de Godofredo é também uma lição sobre o sentido da militância. Ele nunca confundiu radicalidade com intolerância. Sua radicalidade foi sempre pela ética, pela justiça social, pela educação. Enquanto muitos se rendiam ao pragmatismo ou ao cálculo eleitoral, ele persistia na crença de que a boa política é uma pedagogia moral.

Há figuras públicas que sobrevivem aos cargos porque deixam marcas invisíveis: gestos, exemplos, silêncios, coerências. Godofredo pertence a essa categoria rara de homens públicos que não se corromperam nem pela glória nem pela amargura. Sua biografia não é apenas a cronologia de mandatos, é o retrato de uma geração que acreditou no poder transformador da palavra pública.

Ser prefeito de Niterói foi apenas um capítulo. Ser professor, sindicalista, deputado, foi outro. O fio que une todos esses momentos é o mesmo: o compromisso com a dignidade humana. A matemática que ensinava nos quadros negros foi a mesma que aplicou na vida pública. Era exata e humana ao mesmo tempo.

Ao recordá-lo, o Rio de Janeiro reencontra um pedaço de sua consciência cívica. Num tempo em que a política muitas vezes se converte em espetáculo, Godofredo Pinto permanece como o exemplo do político que compreendeu que o poder só tem sentido quando serve. Sua trajetória é o testemunho de que ética e competência podem, sim, habitar o mesmo corpo, o mesmo coração, a mesma biografia.

Que sua medalha seja vista não como o fim de uma jornada, mas como a consagração de uma vida inteira dedicada à beleza de ensinar e à coragem de governar. Que cada estudante, cada professor, cada servidor público encontre em sua história um convite à decência. Que cada cidadão entenda que a política é mais nobre quando feita com amor, método e verdade.

Porque há nomes que não cabem apenas em placas ou decretos. Há nomes que se tornam princípios. Godofredo Pinto é um desses. Um homem que trouxe a alma do magistério para dentro da vida pública. Um político que nos ensinou que ética, quando vivida com coerência, é a mais luminosa das formas de inteligência. Um cidadão que fez da política um ato de fé na humanidade.

     * Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ

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