Flávio Bolsonaro enfrenta críticas da Faria Lima após audiência nos EUA sobre tarifas

Participação do senador em audiência da USTR decepciona empresários, que esperavam argumentos técnicos contra as novas tarifas sobre produtos brasileiros

A participação do senador Flávio Bolsonaro (PL) em uma audiência pública promovida pelo governo dos Estados Unidos para discutir a possível imposição de novas tarifas de 25% sobre produtos brasileiros foi recebida com ceticismo por representantes do setor privado e do mercado financeiro, informa o jornal O Globo. Empresários, gestores e analistas consultados avaliaram que a presença do parlamentar teve impacto reduzido nas discussões e, para parte deles, acabou frustrando as expectativas de quem esperava uma defesa técnica dos interesses comerciais do Brasil.

A audiência foi organizada pelo Office of the United States Trade Representative (USTR), órgão responsável pela formulação e coordenação da política comercial estadunidense. Embora o rito do processo permita manifestações de representantes do setor produtivo, especialistas, autoridades e outros interessados, a percepção predominante entre agentes do mercado foi de que o senador priorizou argumentos políticos em vez de apresentar fundamentos econômicos capazes de influenciar a decisão do governo dos EUA.

Nos bastidores, empresários que acompanharam presencialmente ou à distância a participação do senador classificaram sua atuação como “ruim” e, em alguns casos, “decepcionante”. A avaliação é que o discurso, de aproximadamente cinco minutos, deixou em segundo plano o debate comercial e concentrou-se em temas ligados ao cenário político brasileiro.

Defesa do Pix ocupou parte do discurso

Durante sua manifestação, Flávio Bolsonaro saiu em defesa do Pix, sistema de pagamentos instantâneos que foi citado pelo governo dos EUA em sua análise sobre o mercado brasileiro, sob a alegação de que poderia afetar empresas de cartões de crédito dos Estados Unidos.

“O Pix não é um problema a ser corrigido. É uma solução. Ele ampliou a inclusão financeira ao trazer milhões de brasileiros — especialmente os mais pobres — para a economia formal”, disse Flávio.

O senador também afirmou que o crescimento do Pix não prejudicou empresas estadunidenses do setor financeiro.

“Esse avanço também beneficiou diretamente empresas americanas, já que o volume de transações processadas por cartões de pagamento emitidos por bandeiras dos Estados Unidos continuou crescendo paralelamente à ampla adoção do Pix, uma vez que essas empresas prestam serviços que se complementam, e não competem com o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos”, reforçou.

Apesar da defesa do sistema de pagamentos brasileiro, representantes do setor produtivo consideraram que o senador dedicou pouco espaço à discussão sobre as tarifas que poderão atingir exportações nacionais.

Apelo pelo adiamento das tarifas

Ao abordar diretamente a possibilidade de aplicação das tarifas, Flávio Bolsonaro argumentou que o Brasil atravessa um período eleitoral e sugeriu que a decisão fosse adiada até depois da disputa presidencial.

“Impor agora uma tarifa que seria difícil de reverter — premiando aqueles que são responsáveis pelas ações em questão e punindo aqueles que suportaram suas consequências — seria o pior momento possível para agir”, disse.

Em nota divulgada por sua assessoria, o senador resumiu sua posição:

“Não imponham as tarifas ao Brasil, preservem o sucesso do Pix e cancelem esta medida para que possamos negociar.”

Para empresários ouvidos após a audiência, porém, o argumento político teve pouca capacidade de sensibilizar um órgão que atua com base em critérios técnicos relacionados ao comércio internacional.

Especialistas apontam efeito limitado

O especialista e sócio da Valor Investimentos, Daniel Teles, lembra que o regulamento da audiência prevê a participação de diferentes atores, incluindo associações empresariais, representantes do governo e parlamentares.

Na avaliação dele, a presença de Flávio Bolsonaro teve mais importância política do que prática.

“Ele sinaliza que ter um bom relacionamento com o governo americano pode ser bom para o Brasil, caso ele ganhe as eleições. Mas acho que o impacto da participação é pequeno. Não acredito que ele vai persuadir o USTR mais do que empresas, que estão levando dados e fatos. Mas também não atrapalha. Eu diria que é neutra a participação”, avalia.

Segundo Teles, a participação também permitiu ao senador aproveitar o momento eleitoral para demonstrar interlocução com autoridades estadunidenses, embora isso dificilmente altere o resultado do processo em análise.

Mercado vê risco para a campanha presidencial

O estrategista-chefe da MZM Wealth, Paulo Bittencourt, também considera que a influência da manifestação sobre a decisão do USTR tende a ser pequena.

“Nem ajuda, nem prejudica, considerando o âmbito da sessão 301. Surte mais efeito a pressão que as empresas americanas estão fazendo para não taxar o país. Mas o impacto para a candidatura de Flávio é péssimo”, avalia o analista.

Segundo ele, ao defender que a discussão fosse postergada para depois das eleições, o senador acabou abrindo espaço para críticas durante a campanha presidencial.

“Se não havia certeza que um ato dele poderia se converter num benefício político para a campanha, então que não fizesse. Isso vai acabar sendo usado contra. Tenho ouvido na Faria Lima avaliações, diante disso, que a candidatura de Flávio pode não crescer entre novos eleitores”, afirma.

Ex-ministro não acredita em mudança de posição dos EUA

O economista e ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega também avalia que a participação do senador dificilmente influenciará a decisão do governo dos EUA.

Segundo ele, o USTR trabalha com estudos técnicos para fundamentar medidas comerciais, ainda que alguns dados apresentados tenham sido alvo de questionamentos.

— Não tem impacto a participação dele. A proposta do Flávio, que é o adiamento das tarifas, não deve ser acolhida pelo USTR, que é um órgão técnico, que se baseou num estudo, ainda que com erros, para impor essas tarifas ao Brasil. Esse órgão não vai tomar uma decisão de comércio importante apenas porque vai acontecer uma eleição no Brasil — diz o economista e ex-ministro da Fazenda, Maílson da Nóbrega, que pondera, entretanto, sobre a imprevisibilidade do governo Trump, que “até na Copa do Mundo interferiu”.

Na avaliação de Maílson, caso as tarifas sejam efetivamente implementadas, o episódio poderá produzir efeitos políticos internos, permitindo que adversários associem a medida à atuação da oposição.

Narrativa política preocupa investidores

Um gestor do mercado financeiro, que preferiu não se identificar, avalia que existe o risco de a discussão ultrapassar o campo econômico e ganhar forte dimensão política no Brasil.

Segundo ele, se prevalecer a percepção de que o tarifaço está ligado ao embate político brasileiro, o governo federal poderá reforçar o discurso de defesa da indústria nacional e da soberania comercial. Nesse cenário, parte do desgaste poderá recair sobre a oposição, inclusive sobre Flávio Bolsonaro, especialmente caso a eventual taxação provoque impactos sobre exportadores, empregos ou preços.

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