Fintech consegue aval da Justiça para operar e Banco Central vê risco de efeito dominó

Liminar suspendeu decisão do Banco Central que impedia fintech de atuar como instituição de pagamento

Uma decisão judicial favorável a uma fintech colocou o Banco Central em estado de alerta e reacendeu o debate sobre os limites da atuação do Judiciário em questões regulatórias do sistema financeiro. A preocupação da autarquia é que o caso abra caminho para uma série de ações semelhantes, enfraquecendo a capacidade de fiscalização e controle sobre instituições de pagamento.

O episódio envolve a Corpag Instituição de Pagamento S.A., que obteve uma decisão liminar garantindo a continuidade de suas operações, inclusive no sistema Pix, mesmo após o Banco Central ter negado seu pedido de autorização para atuar no mercado.

Liminar suspende decisão do BC

No último dia 25 de maio, o Banco Central negou o pedido da Corpag para funcionar como instituição de pagamento. A decisão obrigaria a empresa a interromper suas atividades e também previa seu desligamento do Pix e de outros sistemas de pagamento dos quais participava.

Entretanto, apenas um dia depois, a autarquia foi comunicada de uma decisão do Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3) suspendendo os efeitos da medida.

Na prática, a liminar permite que a fintech continue operando até que a Justiça analise o mérito da ação.

Temor de judicialização

O caso reforçou uma preocupação que já vinha sendo manifestada pelo presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo.

Em audiência no Senado, Galípolo alertou para o risco de que empresas afetadas por decisões regulatórias passem a recorrer sistematicamente aos tribunais para reverter punições, suspensões ou cassações de licenças.

Segundo ele, a existência de decisões divergentes em diferentes instâncias pode gerar insegurança jurídica e comprometer a atuação regulatória do órgão.

Tema chegou ao STF

A preocupação com uma eventual avalanche de ações judiciais foi discutida diretamente entre Galípolo e o presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, durante reunião realizada em março deste ano.

Na ocasião, o foco da conversa envolveu medidas de combate à lavagem de dinheiro, fortalecimento da supervisão financeira e mecanismos para enfrentar novas ameaças digitais.

O Banco Central vinha preparando um pacote regulatório voltado à mitigação de riscos no sistema financeiro e à ampliação dos instrumentos de fiscalização.

Pix e sistema financeiro

O caso da Corpag chama atenção porque envolve o funcionamento dentro do Pix, sistema de pagamentos instantâneos que se tornou uma das principais infraestruturas financeiras do país.

Para o Banco Central, a possibilidade de empresas manterem operações por meio de decisões judiciais,mesmo após negativas regulatórias, pode criar dificuldades para a aplicação uniforme das regras do setor.

A autarquia avalia que a ausência de entendimento consolidado sobre o tema pode provocar conflitos entre decisões administrativas e determinações judiciais.

Debate sobre regulação

O episódio também coloca em evidência um debate crescente sobre os limites da atuação regulatória do Estado e os mecanismos de defesa disponíveis para empresas que contestam decisões administrativas.

Enquanto o Banco Central sustenta a necessidade de preservar sua autoridade para supervisionar e regular o mercado financeiro, empresas do setor argumentam que devem ter acesso ao Judiciário para questionar atos que considerem inadequados ou injustificados.

A análise definitiva do caso da Corpag ainda será realizada pelo TRF-3. Até lá, a fintech continuará operando normalmente.

Próximos passos

Nos bastidores do mercado financeiro, o entendimento é que o desfecho da ação poderá servir de referência para futuros litígios envolvendo instituições de pagamento, fintechs e o próprio Banco Central.

Por isso, a disputa ultrapassa os interesses de uma única empresa e passou a ser observada com atenção por bancos, fintechs, reguladores e especialistas do setor.

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