O vencimento do tratado nuclear New START nesta quinta-feira (5) desencadeou uma série de manifestações de atores internacionais diante do temor de que o mundo entre em uma nova fase de competição armamentista. O acordo, que por mais de uma década funcionou como pilar do controle de armas estratégicas entre Estados Unidos e Rússia, deixou de vigorar sem que houvesse consenso sobre sua renovação ou substituição.
Firmado em 2010, o New START estabelecia limites rígidos para o número de ogivas nucleares estratégicas prontas para uso, além de regras para a implantação de mísseis balísticos intercontinentais e bombardeiros capazes de lançar armas nucleares. Também previa mecanismos de verificação, considerados essenciais para reduzir incertezas e riscos de escalada entre as duas maiores potências nucleares do planeta.
Reações da Rússia
O Kremlin voltou a lamentar publicamente o fim do tratado, mas adotou um tom ambíguo ao tratar do cenário pós-New START. Na quarta-feira, o vice-presidente do Conselho de Segurança russo, Dimitri Medvedev, fez uma provocação direta ao Ocidente ao afirmar que “o inverno está chegando”. Um dia antes, autoridades russas haviam declarado que o país estava preparado para um “novo mundo” sem limites formais para armas nucleares, sinalizando disposição para atuar fora dos parâmetros que vigoraram nas últimas décadas.
Silêncio oficial e sinais de Washington
Até a última atualização desta reportagem, o governo de Donald Trump não havia divulgado uma posição oficial após o vencimento do tratado. Nos bastidores, porém, surgiram indicações de que o tema segue em discussão. Uma fonte da Casa Branca afirmou à repórter da TV Globo Raquel Krahenbuhl que “haverá notícias” sobre o New START e sugeriu que um eventual novo acordo deveria incluir a China, sem detalhar prazos ou termos.
Em entrevista coletiva na quarta-feira, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, defendeu que qualquer novo pacto com Moscou incorpore Pequim, citando o “arsenal considerável e em rápida expansão” do país asiático. No início de janeiro, Trump havia minimizado o tema em conversa com o jornal The New York Times, ao afirmar: “Se expirar, expirou”.
O Departamento de Estado dos EUA, que historicamente descreveu o New START como fundamental para obter informações críticas sobre o programa nuclear russo, também não publicou comunicado específico sobre o término do acordo.
Apelos por moderação na Europa
A União Europeia reagiu com cautela e pediu, nesta quinta-feira, que todas as partes envolvidas exerçam moderação. O bloco avalia que a ausência de limites jurídicos para arsenais estratégicos amplia riscos à estabilidade internacional e dificulta esforços diplomáticos em outras frentes de segurança global.
Posição chinesa e o papel de Pequim
A China, apontada por especialistas como um dos fatores centrais para o impasse em torno do New START devido à expansão acelerada de seu arsenal nuclear, também lamentou o vencimento do tratado. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Lin Jian, afirmou que Pequim compartilha da preocupação da comunidade internacional com possíveis impactos negativos sobre a ordem nuclear global.
Jian apelou ainda para que os Estados Unidos “deem uma resposta ativa” à situação e retomem o diálogo com a Rússia, sinalizando que a China observa o cenário com cautela, mas sem assumir compromisso imediato com um novo regime de controle.
Alerta das Nações Unidas
O secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Antonio Guterres, classificou o fim do New START como um “grave momento” para a paz e a segurança internacionais. “Pela primeira vez em mais de meio século, enfrentamos um mundo sem quaisquer limites vinculantes aos arsenais nucleares estratégicos” dos dois países, afirmou, ao destacar o risco de retrocesso histórico no controle de armamentos.
Apelo do Vaticano
No mesmo dia, o papa Leão XIV também se manifestou sobre o tema. O pontífice pediu que Estados Unidos e Rússia renovem seu acordo nuclear e alertou que a conjuntura internacional atual “exige que se faça todo o possível para evitar uma nova corrida armamentista”, reforçando a dimensão ética e humanitária do debate.
O que foi o New START
O New START foi o último tratado de controle de armas ainda em vigor entre Washington e Moscou. Assinado em 2010 por Medvedev, então presidente russo, e por Barack Obama, o acordo entrou em vigor em 2011 e foi prorrogado em 2021 por mais cinco anos, após a posse de Joe Biden.
Pelo tratado, cada país se comprometia a não ultrapassar o limite de 1.550 ogivas nucleares estratégicas e 700 mísseis balísticos intercontinentais, submarinos lançadores e bombardeiros de longo alcance. O texto previa ainda inspeções mútuas, com até 18 verificações anuais em instalações estratégicas.
Essas inspeções foram suspensas em março de 2020, durante a pandemia de Covid-19. Tentativas de retomada estavam previstas para novembro de 2022, no Egito, mas foram adiadas pela Rússia, sem definição de nova data. Com o fim do tratado, esse mecanismo de transparência deixa de existir, ampliando as incertezas sobre o equilíbrio nuclear global.






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