Estados Unidos e Rússia iniciaram conversas para preservar, de maneira informal, os principais limites do antigo tratado Novo Start, que expirou nesta quinta-feira (5). O movimento ocorre enquanto o presidente Donald Trump pressiona por um acordo “modernizado” e mais abrangente para substituir o pacto que vigorou por 15 anos.
Em publicação nas redes, Trump afirmou que prefere colocar especialistas para desenhar um novo texto em vez de simplesmente estender o acordo anterior, que ele considera defasado e mal negociado. A declaração veio após a revelação de que equipes dos dois países trataram do tema nos Emirados Árabes Unidos.
Segundo fontes com conhecimento das reuniões, a saída em discussão é deixar o Novo Start expirar formalmente, mas manter seus principais parâmetros na prática, criando uma ponte política até a conclusão de um novo tratado.
Bastidores das negociações e o papel de Abu Dhabi
As conversas ocorreram paralelamente a encontros sobre a guerra no Leste Europeu, com delegações russa e americana reunidas em Abu Dhabi. A ideia de uma extensão “de fato”, sem base legal, busca evitar um vácuo completo nas regras de controle de armas enquanto se negocia um texto substituto.
O Novo Start limitava cada lado a 1.550 ogivas estratégicas e 800 vetores de lançamento, entre mísseis terrestres, submarinos e bombardeiros. Sem o acordo, analistas alertam para a primeira ausência total de um marco desse tipo em mais de cinco décadas.
O impasse não é novo. Em 2021, o tratado quase deixou de valer, mas acabou prorrogado por cinco anos. Depois, Moscou congelou o regime de inspeções em 2023, e Washington passou a pressionar por um redesenho mais amplo das regras.
China no centro do debate e números em rápida mudança
Trump sustenta que qualquer novo arranjo precisa considerar a China, potência nuclear que ampliou rapidamente seu arsenal. Estimativas de centros de pesquisa indicam que Pequim saiu de cerca de 290 ogivas em 2019 para aproximadamente 600 recentemente, com projeções de paridade com EUA e Rússia por volta de 2035.
Pequim, por sua vez, evitou assumir compromisso direto com as negociações e afirmou apenas lamentar o fim do tratado, pedindo que Moscou e Washington busquem um novo acordo. Do lado russo, o Kremlin já sinalizou abertura para discutir formatos mais amplos, ainda que ressalte diferenças de escala entre os arsenais.
Além da China, o tema envolve outras potências nucleares. França e Reino Unido, aliados dos EUA na Otan, somam pouco mais de 500 ogivas, número comparável ao chinês, embora com menos meios de lançamento.
Tecnologia, armas táticas e o alerta da ONU
Outro desafio é tecnológico. O Novo Start focava apenas em ogivas estratégicas, mas o cenário atual inclui mísseis hipersônicos, torpedos nucleares e até sistemas com potencial uso no espaço. Há também o temor de emprego de armas táticas, menos potentes e pensadas para campos de batalha específicos.
A Rússia tem investido pesado em novos vetores e já testou alguns em conflitos recentes com cargas convencionais, o que aumenta a pressão por regras atualizadas. Para diplomatas, qualquer novo acordo precisará lidar com essas inovações e com a ampliação do número de atores relevantes.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, classificou o momento como “grave” e disse que a expiração do tratado ocorre no pior timing possível. Em nota, alertou que o risco de uso de uma arma nuclear é o maior em décadas, reforçando a urgência de um novo marco de controle.






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