Filho de líder quilombola assassinada na Bahia diz que foi tudo filmado pois casa tinha câmeras

ara Jurandir Pacífico, filho de Bernadete Pacífico, de 72 anos, a líder do Quilombo Pitanga dos Palmares assassinada nesta quinta na Bahia, não há dúvidas de que o crime se tratou de uma execução premeditada. Segundo ele, dois homens, que chegaram numa única moto, entraram na casa de Bernadete enquanto ela estava com os netos,…

ara Jurandir Pacífico, filho de Bernadete Pacífico, de 72 anos, a líder do Quilombo Pitanga dos Palmares assassinada nesta quinta na Bahia, não há dúvidas de que o crime se tratou de uma execução premeditada. Segundo ele, dois homens, que chegaram numa única moto, entraram na casa de Bernadete enquanto ela estava com os netos, colocaram as crianças em um outro quarto e dispararam 20 vezes contra a ialorixá de 72 anos.

O filho confirma que ela vinha sofrendo ameaças e diz que a ação foi toda filmada pelas câmeras instaladas na casa por conta do programa de proteção do governo estadual em que ela estava inserida. Das oito câmeras, quatro funcionavam, afirma.

— Foi tudo filmado, porque a casa tinha câmeras desde a medida protetiva de 2018, após o assassinato de Binho (seu irmão). A polícia já recolheu as imagens — diz Jurandir, que ouviu dos netos dela como foram os últimos momentos da mãe. — Ela ainda perguntou o que estava acontecendo. Ela morreu sem saber de nada, foi um crime de execução, brutal. No mesmo estilo do meu irmão. Agora só tem eu.

Em setembro de 2017, o outro filho de Bernadete, Flávio Gabriel Pacífico, conhecido como “Binho”, foi assassinado com 10 tiros dentro do quilombo. Suspeitos chegaram a ser presos preventivamente, mas depois soltos, e o crime nunca foi devidamente esclarecido. Desde então, a família recebe proteção da Polícia Militar, através do programa da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos da Bahia (SJDH).

Mas Jurandir explica que a proteção se limitava a uma patrulha de cerca de 15 minutos por dia da PM. Segundo ele, na noite de quinta, quando ocorreu o assassinato, os policiais não estiveram no local. Mas ele não soube confirmar se os agentes passaram na comunidade em um horário mais cedo. Bernadete ainda possuía um canal de comunicação direta com a polícia, mas que não houve tempo para acioná-lo antes do assassinato.

— O correto era a polícia ficar 24 horas lá — protesta Jurandir, que mora em Salvador e só visitava o quilombo aos finais de semana. — Como nunca resolveram o caso do meu irmão, deu margem para agirem de novo, infelizmente. A verdade é essa.

Em relação às ameaças que Bernadete sofria, Jurandir diz que não sabia detalhes concretos. Ele destacou, porém, que em julho a ialorixá participou de um encontro com a presidente do STF, Rosa Weber, junto a outras lideranças quilombolas, na Bahia. Na ocasião, ela relatou as ameaças que vinha sofrendo e a luta pelo esclarecimento do assassinato de seu filho.

Além de diversas mobilizações nas últimas décadas contra obras polêmicas, incluindo a construção de um presídio e o projeto de uma ferrovia dentro do quilombo, Bernadete passou a atuar nas denúncias contra a extração ilegal de madeira na área do Quilombo Pitanga dos Palmares. Os mesmos problemas já eram enfrentados por Binho, na época de seu assassinato.

— Ela não explicou como eram as ameaças, só disse que vinha sofrendo. Eu desconfio de tudo —afirma Jurandir, que confirma que dará prosseguimento à luta da mãe e do irmão, mas tomará cuidados. — Não vou estar sozinho não. Vou estar com Deus e pessoas do movimento, mas vou ter mais cuidado. Não vou ficar muito visível na comunidade, infelizmente não posso ficar muito exposto.

Procurada, a Polícia Civil da Bahia respondeu que as imagens de câmeras de segurança estão sendo analisadas. “A investigação está em andamento e detalhes não serão divulgados para não atrapalhar a apuração”, concluiu a polícia. Para a apuração, uma força-tarefa foi montada com os departamentos de Polícia Metropolitana (Depom), de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), Especializado de Investigação e Repressão ao Narcotráfico (Denarc), de Inteligência Policial (DIP) e Coordenação de Conflitos Fundiários (CCF), sob a determinação da Delegada-Geral Heloisa Campos de Brito.

Nesta sexta, Rosa Weber divulgou uma nota cobrando a apuração da morte da líder quilombola.

Com informações do GLOBO.

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