Uma família abandonou casa, trabalho e cidade para tentar salvar a vida do filho de 2 anos, diagnosticado com paralisia cerebral e dependente de aspiração a cada 20 minutos para não sufocar. Após enfrentar dificuldades para garantir atendimento adequado em Ourinhos, no interior de São Paulo, os pais percorreram cerca de 300 quilômetros até São José do Rio Preto em busca de tratamento médico.
Gabriel Lisboa dos Santos nasceu sem sinais vitais após um descolamento total de placenta e foi reanimado em uma cesárea de emergência. A falta de oxigenação causou graves sequelas neurológicas. Hoje, o menino não possui reflexo de deglutição e não consegue engolir a própria saliva, o que o coloca em risco constante de asfixia sem os cuidados ininterruptos realizados pelos pais.

“Com 8 meses de gestação, a minha placenta saiu e ele ficou na barriga. Até chegar no hospital, o Gabriel ficou sem oxigênio. Lá, ele nasceu morto, precisaram dar medicações para reanimá-lo. Meu filho sobreviveu com muitas sequelas, falaram para mim que seria um bebê em estado vegetativo”, conta Pâmela Lisboa, mãe da criança, ao Agenda do Poder.
Denúncia
Pâmela denuncia falhas graves no atendimento prestado pela rede pública de saúde de Ourinhos. Segundo ela, o filho nunca conseguiu acesso a diversas especialidades médicas nem a exames essenciais, mesmo após decisão judicial.

“Ele foi muito negligenciado desde que nasceu, tentei de todas as maneiras conseguir especialistas na minha cidade que fizessem mais ressonâncias, exames específicos para que a gente conseguisse entender a paralisia dele e ajudar. Até hoje não sei se meu filho escuta ou não, porque o exame de audição nunca foi feito”, desabafa.
O caso é objeto de uma ação civil pública movida pelo Ministério Público do Estado de São Paulo, que apontou a necessidade de acompanhamento multidisciplinar contínuo para a criança e levou a Justiça a determinar a realização de exames e o acesso a especialistas, sob pena de multa diária.
Pâmela também aponta possível negligência em atendimentos de urgência realizados na Santa Casa. De acordo com ela, em episódios de febre associados a crises convulsivas, Gabriel teria recebido alta hospitalar somente com um atestado médico escrito ‘febre não especificada’. Segundo a mãe, ele não foi inserido no sistema estadual de regulação de vagas (CROSS).

Batalha diária
A rotina da família é marcada por vigilância permanente, sem interrupções durante o dia ou a noite.
Pâmela vive em função do intervalo entre uma aspiração e outra, que dura 20 minutos, o que torna inviável qualquer atividade fora do cuidado direto com o filho. O pai, Rogério Lisboa, tatuador há 30 anos, precisou abandonar o estúdio para acompanhar a mudança e agora tenta reconstruir a renda na nova cidade.
“A gente está aqui em São José do Rio Preto para buscar especialidades, equipamentos posturais dele. Na minha cidade eu não consegui nem com ordem judicial. Desesperados por ajuda, eu e o pai dele colocamos o Gabriel no carro e viemos para cá”.
Tratamento
Além da dependência respiratória, Gabriel enfrenta crises severas de epilepsia, tratadas com óleo de canabidiol, cujo custo chega a R$ 800 a cada 20 dias.
A alimentação é feita por fórmula nutricional especial, com custo médio de R$ 120 por lata. Com o crescimento da criança, surgiram novas demandas, como órteses e uma cadeira de rodas adaptada.

A mudança para São José do Rio Preto foi feita em um carro antigo, adaptado pelos próprios pais com cilindros de oxigênio e tomadas improvisadas para manter os equipamentos ligados durante o trajeto.
“Eu estou conseguindo tudo que ele precisa aqui, vou ficar até ele passar em todas as especialidades e fazer todos os exames necessários, e depois voltar para a minha cidade. A gente precisa saber o que ele tem para dar o tratamento que ele precisa”, finaliza.
Atualmente, a família vive em uma casa compartilhada enquanto tenta se reorganizar financeiramente. Pâmela criou um perfil nas redes sociais onde compartilha a batalha diária para salvar o filho.
Veja um dos vídeos
Saiba como ajudar
Sem renda fixa e com despesas médicas contínuas, a família recorreu a uma vaquinha solidária. Os recursos serão destinados à realização de exames, à compra de equipamentos adaptados e à estrutura necessária para que os pais voltem a trabalhar.
Chave Pix para doações: gabrielvaquinha@ajud.ar
O que dizem os citados
A Justiça de São Paulo informou que o processo tramita sob segredo, portanto as informações e documentos nos autos são de acesso restrito.
O Ministério Público disse que a liminar determinando o tratamento da criança foi devidamente deferida e, após inicial relutância no cumprimento da decisão e diante de pedido de sequestro de bens formulado pelo MPSP, o Poder Público providenciou a disponibilização do tratamento, inclusive com o respectivo agendamento para início.
“Ocorre que a genitora da criança optou por realizar o tratamento no Hospital da Criança, localizado em São José do Rio Preto, razão pela qual levou à extinção do processo. Dessa forma, não se verifica descumprimento da decisão judicial, tampouco há elementos que justifiquem, neste caso, a apuração de eventual negligência ou responsabilização administrativa” diz a nota.
Agenda do Poder procurou a prefeitura de Ourinhos e a Santa Casa, mas não obteve retorno até o fechamento dessa reportagem. O espaço segue aberto para eventuais manifestações.






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