RICARDO BRUNO
(atualizado às 11:20)
A discrepância entre o resultado da pesquisa do Instituto Atlas e dos demais divulgados recentemente suscita o debate sobre a metodologia utilizada para captar a fotografia do momento sobre as eleições municipais. Realizado exclusivamente através da internet, o levantamento certamente contém distorções dada a dificuldade de se reproduzir no ambiente digital uma amostra que corresponda com relativa exatidão ao posicionamento ponderado de todos os estratos sociais.
Ainda que se tente captar o sentimento de todas as frações do eleitorado com técnicas supostamente sofisticadas, no Brasil, por mais que a internet tenha se expandido, é dificílima a extração de uma amostra representativa do conjunto de eleitores no meio digital. A internet ainda é um ambiente elitizado, distante das classes menos favorecidas, pouco presente nos grotões e nas comunidades periféricas.
Há, portanto, grande probabilidade de a classe média conservadora estar inflada, super-representada na amostra da pesquisa Atlas, favorecendo a intenção de voto no bolsonarista Alexandre Ramagem. Não se pode esquecer que o debate político na internet tem a hegemonia de grupos de direita. Foi neste habitat que se juntaram e se impuseram como força política no pais. Não há, portanto, a suposta neutralidade neste terreno virtual onde se desenvolveu a pesquisa.
É de se esperar o crescimento do candidato do ex-presidente seja ele qual for. Bolsonaro tem raízes sólidas fincadas no eleitorado da cidade. Mas não é razoável a variação abrupta registrada pela pesquisa sem qualquer fato político justificável.
Há outros dados incongruentes no resultado que evidenciam o erro da amostra. A campanha ainda não começou; não se conhece sequer o nome de todos os candidatos; os partidos ainda não deliberaram de modo definitivo sobre os postulantes. Diante de tantas incertezas, como podem existir apenas 2,4% de indecisos? Nem em véspera de eleição, após toda a maratona de programas na televisão, confronto nas redes sociais e debates, o grau de indecisos é tão diminuto. Em média, há dois dias do pleito gira em torno de 5%. Se não bastassem outros argumentos, esse número, por si, descredibiliza totalmente o resultado.
Se compararmos o não voto da pesquisa com o habitual resultado das urnas nas últimas eleições municipais a aberração é ainda maior. Historicamente, os nulos e brancos ficam na casa dos 25%. Na pesquisa Atlas, a soma de brancos, nulos e indecisos é de incríveis 5,5%.
Existem ainda indícios de manipulação política. Semana passada, grupos de direita distribuíram a mancheia o questionário do Atlas. Ainda que se diga que há algoritmos de controle; que o sistema não permite que uma pessoa responda mais de uma vez etc e tal; as suspeições sobre as falhas da amostra são gigantes.
Não há dúvidas de natureza ética quanto ao trabalho do Atlas; o instituto tem seriedade e boa reputação. A metodologia aplicada, contudo, é falha e induz a erros crassos, como este surpreendente super dimensionamento da estatura eleitoral de Alexandre Ramagem.
Aguardemos pesquisas de outros institutos para o cotejo de resultados e, assim, a compreensão do quadro pré-eleitoral com números e dados verossímeis.





