Facebook analisou vício na plataforma com base em usuários do Brasil desde 2019

Documentos internos revelam que Meta monitorava uso compulsivo e impacto na saúde mental; empresa foi condenada nos EUA e promete recorrer

A Meta Platforms, dona do Facebook, Instagram e WhatsApp, já analisava casos de uso compulsivo de suas redes sociais desde 2019, segundo documentos internos obtidos pela Justiça dos Estados Unidos. Os registros mostram que a empresa monitorava usuários de países como Brasil, Estados Unidos e Índia que relatavam dificuldades em controlar o tempo gasto nas plataformas.

Entre os depoimentos coletados pela própria empresa, um brasileiro de 24 anos afirmou que o uso frequente do aplicativo se assemelhava a um vício. Ele relatou acessar a rede social a cada meia hora, reconhecendo que o comportamento não era saudável.

Esses documentos foram considerados peças-chave em uma decisão recente da Justiça americana que responsabilizou a Meta e o YouTube por impactos negativos na saúde mental de jovens e adolescentes.

Condenação histórica e recursos judiciais

O veredito, considerado o primeiro de uma série de julgamentos previstos para este ano, apontou que as plataformas digitais contribuíram para danos psicológicos em usuários mais jovens. O caso analisado envolveu uma jovem de 20 anos da Califórnia, que começou a usar o YouTube aos 8 anos e ingressou no Instagram aos 9.

Após a decisão, a Meta declarou que discorda do resultado e que avalia medidas legais para contestar a condenação. O YouTube também deve recorrer. Outras plataformas citadas inicialmente no processo, como Snapchat e TikTok, firmaram acordos antes do julgamento.

A análise do júri foi baseada em mais de uma década de documentos internos e comunicações entre executivos das empresas, indicando que havia conhecimento prévio sobre os riscos associados ao uso excessivo.

Relatórios internos apontam impactos negativos

Nos documentos, o Facebook classificava o chamado “uso problemático” como a incapacidade de controlar o tempo na plataforma, acompanhada de sentimentos de culpa. Relatórios internos chegaram a afirmar que estudos independentes indicavam um impacto negativo da rede social no bem-estar dos usuários.

Entre os efeitos identificados estão perda de produtividade, distúrbios do sono, dificuldades em relacionamentos e até negligência familiar. Um dos relatos menciona um pai que admitiu se distrair com o celular enquanto deveria dar atenção ao filho.

Os estudos também destacam que o vício não está necessariamente ligado ao tempo total de uso, mas à frequência de acessos. Ou seja, abrir o aplicativo repetidamente ao longo do dia seria um indicativo mais claro de comportamento compulsivo.

Estratégia focada no público jovem

Os documentos revelam ainda que, desde 2016, a Meta priorizava o crescimento entre adolescentes, especialmente nos Estados Unidos. Em comunicações internas, executivos destacaram a necessidade de ampliar o engajamento dessa faixa etária, considerada estratégica para o futuro da empresa.

Na época, a avaliação era de que o uso entre jovens americanos estava abaixo do esperado, enquanto em regiões como a União Europeia havia concorrência crescente de outras plataformas. Já em países como o Brasil, os índices de uso eram considerados positivos.

O caso deve abrir caminho para novos processos semelhantes ao longo de 2026, ampliando o debate global sobre a responsabilidade das big techs no impacto de suas plataformas na saúde mental.

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