Ex-presidente da Argentina diz que Milei é ‘psiquicamente desequilibrado’ e critica ataques a Lula: ‘Vergonhosos’

Alberto Fernández chama Milei de “energúmeno fascista” e pede que governo brasileiro preserve os laços com os argentinos apesar da polêmica

As declarações do presidente da Argentina, Javier Milei, contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durante a convenção nacional do PL continuam repercutindo no cenário político sul-americano. Desta vez, o ex-presidente argentino Alberto Fernández fez duras críticas ao sucessor, classificou a postura como “vergonhosa” e afirmou que os ataques colocam em risco a relação histórica entre Brasil e Argentina.

Em entrevista ao jornal O Globo, Fernández afirmou que Milei extrapolou os limites da atuação diplomática ao utilizar um evento político no Brasil para atacar Lula e defender o ex-presidente Jair Bolsonaro. Segundo ele, o comportamento do atual presidente argentino também reflete uma estratégia alinhada ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Fernández condena discurso de Milei

Ao comentar a participação de Milei na convenção do PL, Alberto Fernández afirmou que a postura do presidente argentino representa um constrangimento para seu país e pode provocar desgastes desnecessários entre duas das maiores economias da América do Sul.

“A visita recente de Milei ao Brasil representa um ato vergonhoso para todos os argentinos. Suas declarações que insultaram Lula são inadmissíveis. Tão inadmissível quanto pedir liberdade a uma pessoa condenada pela Justiça brasileira por ter incentivado um golpe de Estado. Milei, com sua irresponsabilidade, não apenas colocou em risco as relações da Argentina com o Brasil, descumprindo o mandato constitucional que possui, como também demonstrou seu profundo desprezo pela democracia e pelo Estado de Direito”, afirmou o ex-presidente.

Na sequência, Fernández voltou a atacar o sucessor e pediu que o governo brasileiro não permita que as declarações prejudiquem a parceria entre os dois países.

“Espero que o governo do Brasil faça um esforço para relevar as declarações de um energúmeno fascista que hoje governa a Argentina. O vínculo entre nossos países deve ser indissolúvel e transcende as declarações de um presidente psiquicamente desequilibrado”, seguiu Fernández.

Ataques ocorreram durante convenção do PL

As declarações foram uma resposta ao discurso feito por Javier Milei no último sábado, durante a convenção nacional do Partido Liberal. No evento, o presidente argentino criticou Lula, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e manifestou apoio ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), afirmando confiar nele para “evitar o socialismo”.

As críticas ao ministro do STF ocorreram após Moraes impedir que Milei visitasse Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar.

Durante o discurso, o presidente argentino também atacou Alberto Fernández ao comparar a visita feita pelo ex-presidente argentino a Lula, quando o petista estava preso em Curitiba.

“O lixo não me permitiu visitar ao meu amigo injustamente encarcerado, quando eu sei que Lula se cansou de receber líderes do exterior quando estava preso, entre eles o nefasto ex-presidente argentino Alberto Fernández”, disse Milei na convenção.

Visita a Lula foi diferente, diz ex-presidente

Fernández rebateu a comparação e destacou que sua visita a Lula, em julho de 2019, ocorreu em contexto distinto. Na época, ele disputava a Presidência da Argentina e integrava um movimento internacional que defendia a libertação do então ex-presidente brasileiro.

Segundo Fernández, diferentemente do que ocorreu com Milei, ele respeitou as instituições brasileiras e não utilizou a viagem para participar de atos políticos.

“Visitei Lula quando ele estava injustamente preso. Fui parte de um comitê internacional que reivindicava a liberdade dele. Ainda assim, jamais desrespeitei Jair Bolsonaro, que na época era o presidente do Brasil, embora tenha recebido dele todo tipo de ofensas pessoais. O vínculo entre Argentina e Brasil, Brasil e Argentina, deve ser indissolúvel”, afirmou Fernández.

O ex-presidente foi eleito presidente da Argentina poucos meses depois da visita, assumindo o cargo em dezembro de 2019.

Críticas também miram influência de Donald Trump

Na entrevista, Alberto Fernández revelou que procurou o ex-ministro das Relações Exteriores e assessor especial da Presidência, Celso Amorim, para manifestar preocupação com os impactos diplomáticos das declarações de Milei.

Segundo ele, o presidente argentino integra um movimento político internacional liderado por Donald Trump, que busca interferir em debates políticos de outros países.

“As falas estão num contexto onde o presidente Trump se intromete na vida política de outros países, o mesmo faz Milei nesse caso com o Brasil. Que ele se expresse, para mim não é um problema. O que é inadmissível é que ele maltrate quem preside hoje o Brasil”, afirmou.

Fernández também disse acreditar que a maior parte da população argentina desaprovou a postura do atual presidente durante a visita ao Brasil e pediu que o governo brasileiro preserve a relação bilateral acima das divergências políticas.

“Apelo para que o governo do Brasil seja generoso com a Argentina e entenda que o vínculo entre os dois países é muito mais importante do que a conjuntura política”, disse o ex-presidente.

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