Ex-ajudante de ordens de Bolsonaro está no centro da crise envolvendo a demissão do comandante do Exército

Após a decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de demitir o comandante do Exército, Júlio César Arruda, o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, convocou uma reunião de emergência com militares da cúpula da pasta, na tarde deste sábado, na sede do ministério. As informações são do Valor Econômico. Em meio a suspeitas…

Após a decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de demitir o comandante do Exército, Júlio César Arruda, o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, convocou uma reunião de emergência com militares da cúpula da pasta, na tarde deste sábado, na sede do ministério. As informações são do Valor Econômico.

Em meio a suspeitas da Polícia Federal de que o tenente-coronel do Exército Mauro Cesar Barbosa Cid, o “coronel Cid”, estaria envolvido em um suposto caixa dois movimentado com cartão corporativo da Presidência, na gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro, Lula decidiu substituir o general Arruda pelo atual comandante militar do Sudeste, general Tomás Miguel Ribeiro Paiva.

Segundo fontes do Palácio do Planalto, Lula ainda não formalizou a demissão do general Arruda. O presidente formalizará o ato quando voltar a Brasília da viagem a Roraima, onde visitou indígenas vítimas de doença e desnutrição. O avião presidencial deve aterrissar na capital federal por volta das 17h30.

O episódio reacendeu a tensão na relação do governo com os militares após o esforço de Lula de se reconciliar com as Forças Armadas, por meio da reunião com os três comandantes realizada nesta sexta-feira.

A reportagem ouviu de fontes graduadas do Exército que a demissão irritou profundamente a cúpula da força terrestre. Em primeiro lugar, porque os oficiais souberam da demissão do comandante pela imprensa. Além disso, Lula se reuniu ontem com o general Arruda, bem como com os comandantes da Marinha, Marcos Olsen, e da Aeronáutica, Marcelo Damasceno, e não tocou no assunto.

O general Tomás Paiva era um dos nomes da lista tríplice do Exército para substituir o comandante Marco Antônio Freire Gomes, e era o nome mais simpático entre auxiliares de Lula. Mas o presidente Lula, aconselhado por Múcio, optou por respeitar a tradição do Exército que prevê que o mais antigo da tropa assuma o cargo. Por isso, Arruda foi nomeado comandante da força, e assumiu interinamente no fim de dezembro.

Nesta sexta-feira (20), circulou nas redes sociais um vídeo em que o general Tomás Paiva orientou os soldados a respeitarem o resultado das urnas. A mensagem se deu durante um discurso no dia 18 de janeiro, durante uma cerimônia militar com as tropas. “Vamos continuar garantindo a nossa democracia, porque a democracia pressupõe liberdade e garantias individuais e públicas. E é o regime do povo, de alternância de poder. É o voto. E, quando a gente vota, tem de respeitar o resultado da urna”, disse o general, em recado que agradou o governo. Foi a primeira manifestação pública de um oficial de alta patente do Exército após os atos antidemocráticos de 8 de janeiro.

O Valor ouviu de fontes credenciadas do governo que o estopim para a demissão do general Arruda foi a notícia, publicada nesta sexta-feira pelo portal Metrópoles, de que o tenente-coronel do Exército Mauro Cesar Barbosa Cid, o “coronel Cid”, um dos militares mais próximos do ex-presidente Jair Bolsonaro, controlava um “caixa dois” com o cartão corporativo da Presidência da República.

De acordo com a reportagem, as investigações que têm o coronel Cid como alvo correm no Supremo Tribunal Federal (STF), sob o comando do ministro Alexandre de Moraes. Segundo a apuração da Polícia Federal, o militar teria feito saques com o cartão corporativo da Presidência, e teria feito pagamentos de contas pessoais da família de Bolsonaro com esses recursos. Uma investigação mira o pagamento de uma fatura de um cartão de crédito emitida em nome de uma amiga da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.

Segundo uma fonte credenciada do governo, Lula teria feito chegar ao comandante Arruda um pedido para que suspendesse a promoção do coronel Cid, e abrisse caminho para que ele fosse punido, caso fosse comprovado o seu envolvimento com o desvio de recursos públicos denunciado pela reportagem. Mas o general Arruda teria se recusado a atender o pedido do presidente.

Essa recusa teria sido o estopim para Lula dispensar o comandante. O presidente já estava irritado com a cúpula militar, porque havia permitido o prolongamento dos acampamentos que pediam a deposição do governo na frente dos quartéis do Exército em todo o país. Além disso, a cúpula do Exército não teria se movimentado para impedir, ou conter em tempo hábil, os atos golpistas que depredaram as sedes dos três Poderes no dia 8 de janeiro.

O Diário Oficial da União trouxe, na edição de 4 de janeiro, a exoneração do coronel Cid do cargo de ajudante de ordens da Presidência da República, retroativa a 31 de dezembro. Mas a pedido de Bolsonaro, o tenente-coronel Cid seria promovido nos próximos dias. Ele seria nomeado para comandar o 1º Batalhão de Ações e Comandos (BAC), que faz parte do prestigiado Comando de Operações Especiais, com sede em Goiânia (GO), considerado uma “tropa de elite” da força terrestre.

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