Evangélicos viajam a Washington e pedem a congressistas dos EUA que não interfiram nas eleições brasileiras

Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito entregou carta a parlamentares estadunidenses, criticou pressões externas sobre o processo eleitoral e afirmou que apoio de lideranças religiosas a Flávio Bolsonaro não representa todo o segmento

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Representantes da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito foram a Washington, nos Estados Unidos, na semana passada, para levar ao Congresso estadunidense uma manifestação contra possíveis interferências externas nas eleições brasileiras de outubro. Segundo informações da colunista Bela Megale publicada no jornal O Globo, o grupo entregou uma carta a parlamentares dos Estados Unidos e pediu respeito à soberania nacional e às instituições responsáveis pelo processo eleitoral no Brasil.

O documento foi apresentado aos gabinetes dos senadores Raphael Warnock e Adam Schiff e da deputada Hillary Scholten. A escolha dos congressistas levou em consideração, entre outros aspectos, a atuação política e a relação dos parlamentares com comunidades religiosas e temas ligados à defesa das instituições democráticas.

Criada em 2016 e identificada com posições progressistas, a Frente afirma na carta estar preocupada com informações sobre iniciativas do governo de Donald Trump relacionadas ao acompanhamento das eleições brasileiras.

O grupo também procura mostrar às autoridades dos EUA que o eleitorado evangélico brasileiro não constitui um bloco político uniforme, apesar do apoio público dado por parte de suas principais lideranças a candidatos ligados à direita e ao bolsonarismo.

Carta questiona possível interferência nas eleições

Um dos principais pontos do documento entregue em Washington é a preocupação com uma eventual participação do governo dos Estados Unidos em assuntos relacionados à organização e à fiscalização das eleições brasileiras.

A Frente cita reportagens segundo as quais a administração Trump planeja enviar funcionários a Brasília para questionar aspectos relacionados à integridade do sistema eleitoral brasileiro.

Na avaliação apresentada pelo grupo, iniciativas dessa natureza podem ser interpretadas como interferência em um processo que deve ser conduzido pelas autoridades e instituições nacionais.

A carta ressalta a posição do Brasil como a maior democracia da América do Sul e destaca a influência política do país na região.

Os representantes defendem que a preservação da autonomia das instituições brasileiras é necessária para impedir que pressões externas produzam instabilidade ou fragilizem a confiança no processo eleitoral.

A manifestação ocorre em meio ao aumento das tensões políticas entre setores do governo dos EUA e autoridades brasileiras, com a eleição presidencial de outubro tornando-se um dos pontos de atenção na relação bilateral.

Grupo critica tarifas impostas pelos Estados Unidos

A Frente também abordou na carta as medidas tarifárias adotadas pelos Estados Unidos que atingem produtos brasileiros.

Segundo o documento, decisões comerciais entre os dois países deveriam ser definidas a partir de critérios econômicos e técnicos, sem influência das disputas político-eleitorais internas do Brasil.

O grupo argumenta que questões relacionadas ao comércio bilateral não deveriam ser utilizadas como instrumento de pressão sobre decisões soberanas das instituições brasileiras.

As tarifas tornaram-se um dos principais focos de tensão na relação entre Brasília e Washington e ampliaram a dimensão econômica de um relacionamento que também atravessa divergências políticas e diplomáticas.

Ao levar o tema aos congressistas, os integrantes da Frente procuram separar as negociações comerciais das disputas políticas brasileiras.

Frente diz que evangélicos não formam bloco político único

Outro ponto destacado no documento é a diversidade existente entre os evangélicos brasileiros.

A Frente reconhece que lideranças religiosas manifestam publicamente apoio ao senador Flávio Bolsonaro, mas sustenta que esses posicionamentos não podem ser tratados como representação política de toda a população evangélica.

O grupo afirma que existem diferenças ideológicas, partidárias e eleitorais significativas entre os integrantes das igrejas protestantes e evangélicas espalhadas pelo país.

A observação ganha importância diante do peso desse segmento nas eleições brasileiras e da disputa entre diferentes candidaturas pela aproximação com seus eleitores.

Nas últimas campanhas presidenciais, lideranças religiosas ganharam protagonismo na mobilização política, sobretudo em temas relacionados a costumes, família e pautas sociais.

A Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito tenta apresentar nos Estados Unidos uma outra expressão desse universo religioso, associada à defesa das instituições democráticas e a posições políticas progressistas.

Congressistas têm vínculos com comunidades religiosas

Os três parlamentares procurados pelo grupo possuem trajetórias que, de diferentes maneiras, dialogam com religião e participação política.

Raphael Warnock, senador pelo estado da Geórgia, é pastor titular da Ebenezer Baptist Church, em Atlanta. A igreja possui importância histórica no movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos por ter sido também a congregação de Martin Luther King Jr.

Adam Schiff, senador pela Califórnia, é judeu e construiu parte de sua projeção nacional em discussões sobre instituições democráticas, segurança e política externa. Antes de chegar ao Senado, presidiu o Comitê de Inteligência da Câmara dos Representantes.

Já Hillary Scholten, integrante da Câmara dos Representantes, teve atuação ligada à LaGrave Avenue Christian Reformed Church, em Grand Rapids, no estado de Michigan. A congregação desenvolve trabalhos comunitários e tem tradição religiosa reformada.

Ao procurar parlamentares com esses perfis, a delegação brasileira tenta estabelecer uma interlocução que combine questões religiosas, democráticas e diplomáticas.

Grupo pede canal permanente com parlamentares estadunidenses

Além de apresentar preocupações sobre as eleições de outubro, a Frente propôs a criação de um diálogo permanente com integrantes do Congresso dos Estados Unidos.

O grupo pede cooperação destinada ao fortalecimento da independência das instituições brasileiras e defende que autoridades estrangeiras se abstenham de promover intervenções no processo eleitoral.

A iniciativa também procura abrir espaço para que organizações brasileiras da sociedade civil apresentem diretamente a parlamentares estadunidenses diferentes perspectivas sobre a política brasileira.

O movimento acontece em um momento em que as relações políticas entre Brasil e Estados Unidos ganharam participação crescente no debate eleitoral nacional.

A Frente tenta, nesse contexto, acrescentar a voz de setores evangélicos que não se identificam com as lideranças religiosas alinhadas ao bolsonarismo.

A mensagem central levada a Washington é que divergências sobre candidatos e governos devem permanecer dentro do processo democrático brasileiro e que a disputa eleitoral de outubro precisa ser decidida pelos eleitores, sem pressões externas sobre as instituições responsáveis pela votação.

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