EUA perdem nota máxima da Moody’s e acendem alerta global sobre dívida pública

Agência rebaixa classificação de crédito dos Estados Unidos para Aa1 por temores com déficit crescente

Os Estados Unidos deixaram de ostentar a nota máxima de crédito nas três principais agências internacionais de classificação de risco. A Moody’s Ratings rebaixou nesta sexta-feira (16) a avaliação da dívida soberana americana de Aaa para Aa1, citando preocupações com o crescimento persistente do déficit fiscal e o aumento das despesas com juros. A perspectiva, no entanto, foi alterada de negativa para estável.

Com a medida, os EUA perdem o chamado “triplo A” que ainda mantinham junto à Moody’s, após já terem sofrido rebaixamentos semelhantes por parte da Standard & Poor’s, em 2011, e da Fitch, em 2023. A informação é da Folha de São Paulo.

Em comunicado, a Moody’s destacou que projeta um avanço expressivo no déficit federal nos próximos anos, alcançando cerca de 9% do Produto Interno Bruto (PIB) até 2035 — patamar significativamente superior ao registrado em 2024, de 6,4%. A agência apontou que a deterioração se deve a fatores como o aumento dos gastos com direitos adquiridos, os juros crescentes da dívida e uma geração de receitas aquém do necessário.

“O rebaixamento reflete o aumento, ao longo de mais de uma década, da dívida pública e dos custos de pagamento de juros para níveis bem superiores aos de países com classificação semelhante”, informou a Moody’s.

Segundo analistas, o impacto é tanto simbólico quanto prático. A perda da classificação de risco mais elevada por todas as principais agências representa um marco inédito na história financeira dos EUA. O movimento já repercutiu no mercado: os rendimentos dos títulos do Tesouro com vencimento em dez anos subiram para 4,48%, refletindo o aumento da percepção de risco entre investidores.

Para Yesha Yadav, professora de Direito da Universidade Vanderbilt e especialista em títulos públicos americanos, o rebaixamento da Moody’s é mais um sinal de alerta num cenário fiscal cada vez mais instável.

“Embora não seja uma surpresa, ainda assim representa um choque considerável para um mercado já tenso — e uma repreensão aos formuladores de políticas, que precisam agir com urgência”, disse a especialista. “É essencial que o crédito dos EUA siga sendo visto como o ativo mais seguro do mundo.”

A reação imediata ao anúncio também evidenciou o impasse político em Washington. A proposta orçamentária dos republicanos, que incluía uma reforma tributária, foi rejeitada na Câmara dos Representantes na sexta-feira. Parte da bancada conservadora argumentou que o projeto agravaria ainda mais o déficit, contrariando os objetivos de austeridade.

O Comitê para um Orçamento Federal Responsável calcula que a proposta legislativa poderia adicionar até US$ 5,2 trilhões à dívida pública em dez anos, reforçando as preocupações que motivaram o rebaixamento.

Para Steven Grey, diretor da Grey Value Management, a perda do rating máximo é fruto de uma trajetória fiscal mal gerida ao longo de anos.

“Esse rebaixamento é o resultado de muitos, muitos anos de má gestão fiscal — incluindo, mas não se limitando ao governo Trump.”

Ann Rutledge, ex-analista da própria Moody’s e hoje presidente da consultoria CreditSpectrum, concorda:

“Essa decisão demorou para chegar — e é um alerta severo sobre a capacidade dos EUA de corrigirem sua trajetória fiscal.”

A situação também reacende o debate sobre o papel das políticas adotadas nos últimos anos, como cortes de impostos e guerras comerciais iniciadas durante a gestão de Donald Trump, que foram criticadas por economistas e pelo próprio Federal Reserve por pressionarem o orçamento público e afetarem a confiança no mercado de títulos.

Agora, diante da nova nota da Moody’s, cresce a pressão para que o Congresso e o governo encontrem formas viáveis de conter o avanço do endividamento e restaurar a credibilidade fiscal americana.

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