EUA cancelam acordo que permitia a culpados por ataques de 11 de setembro trocar julgamento que poderia levar à morte por prisão perpétua

Para tentar colocar um ponto final ao caso, promotores vinham negociando, ao longo de mais de dois anos, um acordo para que acusados se declarassem culpados por todas as acusações

O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Lloyd Austin, anulou o acordo de culpabilidade alcançado junto a Khalid Sheikh Mohammed, apontado como organizador dos atentados de 11 de setembro de 2001 às Torres Gêmeas, por não incluir a possibilidade de pena de morte como punição. Austin justificou a decisão afirmando que, dada a importância de chegar a acordos prévios ao julgamento com os acusados, a responsabilidade por essa decisão deveria recair sobre ele.

O acordo havia sido negociado por uma supervisora do tribunal militar de Guantánamo, onde Khalid Sheikh Mohammed está preso, e foi anunciado pelas autoridades americanas recentemente. Pelo pacto, Khalid Sheikh Mohammed e dois outros homens evitariam uma condenação à pena de morte.

Preso em 2003 no Paquistão, Khalid Sheikh Mohammed passou por diversas instalações secretas da CIA até ser levado para a prisão militar da base de Guantánamo, em Cuba. Durante esse período, ele ficou anos sem acesso a advogados e foi submetido a quase 200 sessões de tortura.

Em 2008, a promotoria pediu a pena de morte, mas o caso se arrastou por mais de uma década devido a alegações de que os interrogatórios, que incluíram atos de violência, teriam contaminado o processo.

A decisão de Lloyd Austin reflete a complexidade e a sensibilidade em torno do julgamento de Khalid Sheikh Mohammed, especialmente considerando as graves acusações e os métodos controversos usados durante sua detenção e interrogatórios.

Entenda o acordo

Em uma tentativa de colocar um ponto final ao caso, promotores vinham negociando, ao longo de mais de dois anos, um acordo para que Sheikh Muhammad, Walid bin Attash e Mustafa al-Hawsawi se declarassem culpados por todas as acusações, incluindo o assassinato das 2.976 pessoas que morreram nos ataques. Em troca, seriam condenados à prisão perpétua, evitando uma possível pena de morte e um julgamento ainda mais longo.

As declarações de culpa devem ser apresentadas diante de um tribunal militar já na semana que vem. Ao longo das negociações, parte das famílias das pessoas que morreram nos ataques às Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova York, ao Pentágono, em Washington, e na queda do Voo United 93, se opuseram a um acordo, e defendiam que os três fossem julgados e condenados à morte. O acordo prevê que as famílias possam enviar questões aos acusados até meados de setembro, e recebam respostas até o fim do ano.

— As muitas pessoas cujas vidas foram tocadas por estes eventos terão algo que esperaram por muito tempo — afirmou ao New York Times o advogado de Khalid Sheikh Muhammad, Gary Sowards, garantindo que seu cliente responderá a “todas as questões sobre como e por que o 11 de Setembro aconteceu”. — O governo também concordou com nosso compromisso para permitir que as vítimas e sobreviventes possam contar as histórias de como o 11 de Setembro afetou suas vidas.

Dois dos réus iniciais no caso não integram o acordo: Ramzi bin al-Shibh, acusado de organizar uma célula terrorista em Hamburgo, foi declarado incapaz pela Justiça. Ammar al-Baluchi, que prestou apoio na organização das viagens e gastos dos sequestradores, deve enfrentar um julgamento à parte.

Khalid Sheikh Muhammad é apontado como o principal organizador dos ataques, e tinha a confiança do líder da rede al-Qaeda, Osama bin Laden, morto no Paquistão em 2011. Além de planejar os atentados, ele também confessou ter matado e decapítado o jornalista americano Daniel Pearl, em 2002, e de ter colaborado com um atentado anterior ao World Trade Center, em 1993, que matou seis pessoas.

Walid bin Attash é acusado de ter treinado dois dos homens que sequestraram as aeronaves usadas nos ataques, e ele confessou nos interrogatórios em Guantánamo que comprou explosivos carregados pelos sequestradores, e que participou de um ataque da al-Qaeda contra o navio americano USS Cole, em 2000, que matou 17 marinheiros. Ele foi capturado com Sheikh Muhammad, no Paquistão, em 2003.

Já Mustafa al-Hawsawi é acusado de cuidar do financiamento dos ataques, e foi preso no Paquistão em março de 2003, e enviado para Guantánamo em 2006, local que abrigou até 800 pessoas no auge da chamada Guerra ao Terror, e que foi acusado de ser uma espécie de “buraco negro legal” por organizações de defesa dos direitos humanos.

Desde então, vários presidentes, inclusive o atual, Joe Biden, prometeram fechar a prisão, que segue em funcionamento.

Com informações de O Globo.  

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