As localidades com os maiores índices de violência contra mulheres são Maré, Bangu, Rio do Ouro e Manguinhos. As informações são do Instituto Fogo Cruzado, que relata que nos últimos sete anos, mais de mil delas foram baleadas no Grande Rio e, deste total, quatro em cada dez morreram. Segundo o estudo, 43% dessas vítimas foram atingidas por balas perdidas. Mas a incidência é maior em situações em que os homens têm porte de arma, como agentes de segurança, por exemplo.
As informações foram apresentadas durante audiência pública da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), nesta terça-feira (29/08), na sede da Alerj.
“Só no primeiro semestre de 2023, 113 pessoas foram baleadas no estado, esse número é alarmante. Apesar de menos visibilizadas, as mulheres sofrem muito com a violência armada e engrossam essa estatística. Ao menos 33% das vítimas que foram baleadas nos últimos anos tiveram o corpo atingido durante operações ou ações policiais. É um número que choca, porque vemos quanto às operações policiais colocam em risco a vida de mulheres fluminenses”, explicou Íris Rosa, pesquisadora do Instituto.
Para a presidente da Comissão da Alerj, deputada Renata Sousa (PSol), esse é um dado importante que precisa ser analisado. “Esse dado para mim é inédito e muito relevante. Homens com porte de armas são mais propícios a cometer feminicídios e precisamos estar atentos a isso”, disse a parlamentar.
A coordenadora de pesquisas do instituto Redes da Maré, Isabel Barbosa, também revelou que entre os principais tipos de violências registradas por mulheres na comunidade estão as violações sexuais ainda na infância, agressões domésticas, crimes de racismo e ameaças contra mulheres que mantêm relacionamentos homoafetivos.
“Se você é mulher no território de favela, você sofre atos específicos. As mulheres também se organizam para criar estratégias para agir diante dessa realidade através de coletivos e movimentos sociais. Ao pedir suporte do Estado essas mulheres não se sentem acolhidas e por isso elas procuram sempre redes de apoio”, disse Isabel.
Ana Paula de Oliveira, que integra o Coletivo Mães de Manguinhos, é uma das mulheres que engrossam essas estáticas. Ela perdeu o filho, Jonatan de Oliveira Lima, de 19 anos, em 2014, vítima de bala perdida, em Manguinhos. “Não gosto de dizer que foi uma bala perdida, porque meu filho foi alvejado com um tiro nas costas. Ele estava voltando da casa da namorada quando foi baleado. Essas balas têm CEP, uma cor e ela não atinge todo mundo”, relatou.
Para ela, é preciso uma ação mais contundente do Estado nas fronteiras e aeroportos para coibir a entrada de armas nas comunidades do Rio. “Precisamos de uma política de segurança que atenda a todos e em que todas as vidas sejam preservadas. O tráfico de drogas também pode ser combatido muito antes deles entrarem nas favelas”, argumentou Ana Paula.
O Estado tem realizado ações para dar suporte a essas mulheres, segundo a superintendente de Enfrentamento à Violência contra a Mulher da Secretaria de Estado da Mulher, Tatiana Queiroz. “Estamos trabalhando na implantação de um programa chamado Serviço de Educação e Responsabilização do Homem, que tem o objetivo de inserir o homem nessa discussão e tentar aniquilar o papel machista que muitos têm sobre as mulheres. Além disso, estamos promovendo cursos de capacitação e pensando em outras formas de inserir essa mulher no mercado de trabalho”, pontuou Tatiana.





