A decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou diligências da Operação Compliance Zero, revelou uma preocupação explícita com um possível vazamento de informações sigilosas da investigação envolvendo o senador Jaques Wagner (PT-BA) e pessoas ligadas ao Banco Master.
Os documentos, que tiveram o sigilo levantado pelo próprio relator, mostram que Mendonça considerou haver indícios de que investigados poderiam ter tido acesso antecipado às medidas solicitadas pela Polícia Federal (PF), circunstância que, segundo o ministro, justificava a adoção de providências urgentes para preservar a eficácia das diligências.
Pedido de audiência chamou atenção do relator
Um dos principais pontos destacados por André Mendonça foi um episódio ocorrido em 9 de junho de 2026, data em que a Polícia Federal protocolou os pedidos de quebra de sigilo e outras medidas cautelares no STF.
Segundo a decisão, Jaques Wagner solicitou uma audiência no gabinete do ministro no mesmo dia. O que chamou a atenção do relator foi o fato de o pedido ter sido apresentado antes mesmo da distribuição oficial de parte das representações encaminhadas pela PF.
Embora a decisão não afirme que o senador tivesse conhecimento das investigações, Mendonça registrou que a coincidência temporal reforçou a necessidade de preservar o sigilo das diligências diante da possibilidade de comprometimento da apuração.
PF aponta estratégias para dificultar investigações
Na decisão, o ministro também reproduz informações apresentadas pela Polícia Federal sobre supostas estratégias adotadas pelos investigados para reduzir a produção de provas e dificultar o trabalho dos investigadores.
Entre os elementos citados pela corporação estão o uso frequente de ligações de voz, áudios e mensagens temporárias, considerados meios de comunicação com menor possibilidade de rastreamento.
Outro ponto mencionado é a utilização de linguagem considerada cifrada. Segundo a PF, uma das mensagens analisadas fazia referência à frase “A altura do vão é 2,45 m”, interpretada pelos investigadores como uma possível alusão ao valor de R$ 2,45 milhões relacionado à negociação de um apartamento no edifício Poème Horto, em Salvador.
A Polícia Federal também apontou suspeitas de que integrantes do grupo investigado possuíam mecanismos para antecipar movimentações das autoridades responsáveis pelas investigações.
Operação investiga suposto favorecimento
A Operação Compliance Zero foi deflagrada em 18 de junho e investiga supostos favorecimentos envolvendo Jaques Wagner e pessoas ligadas ao ex-sócio do Banco Master, Augusto Ferreira Lima.
De acordo com a Polícia Federal, o senador teria recebido benefício indevido relacionado à negociação de um apartamento avaliado em cerca de R$ 2,5 milhões, em Salvador.
Jaques Wagner nega irregularidades e afirma que solicitou ao empresário apenas a compra temporária do imóvel, com o compromisso de recomprá-lo posteriormente para destiná-lo à filha.
No dia seguinte à operação, uma escritura de venda foi apresentada em um cartório de Camaçari (BA), mas a transação acabou sendo bloqueada por determinação do próprio ministro André Mendonça.
Alvos da decisão
Além de Jaques Wagner, a decisão autorizou diligências contra o ex-sócio do Banco Master Augusto Ferreira Lima, Eduardo Mendonça Sodré Martins, identificado pela PF como enteado do senador, David Lopes Monteiro, apontado como operador do núcleo jurídico-financeiro investigado, Guilherme Henrique Sodré Martins, conhecido como “Tio Guiga”, e Andréa Lima Novaes, diretora da PKL One Participações S.A. e prima de Augusto Ferreira Lima.
A investigação segue em andamento, e até o momento não há decisão judicial sobre o mérito das suspeitas levantadas pela Polícia Federal.





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