A sala de atendimento da 76ª DP, no centro de Niterói, pode ser descrita com detalhes por Luíza (nome fictício), de 70 anos. Ela frequenta o local desde 2021, quando foi vítima de um golpe. Desde então, perdeu a conta de quantas vezes foi até lá em busca de ajuda e informação. A memória também a ajuda a descrever o lugar onde foi enganada: quatro ou cinco lances de escada até um escritório com paredes brancas, mesas e cadeiras organizadas e várias salas com atendimento para negociar a concessão de crédito. Não havia placa com nome da empresa, nem outra identificação. Ali, os golpistas mentiram para Luíza, que assumiu um empréstimo dividido em 84 vezes. O valor compromete cerca de 30% de sua renda, que é pouco mais de um salário mínimo.
Os estelionatos contra idosos tiveram um aumento de 57% no ano passado, quando foram registrados 30.243 casos no Estado do Rio. Em média, é como se um idoso fosse vítima a cada 17 minutos. Os dados, retirados do Instituto de Segurança Pública (ISP), revelam que este público é o principal alvo: um em cada quatro estelionatos é contra pessoas acima dos 60 anos. Apesar de alguns golpes já serem conhecidos, outros, pelo profissionalismo, acabam convencendo e enganando os mais vulneráveis e distantes das tecnologias atuais.
Pensionista há 42 anos, Luíza mora com um dos três filhos, epilético desde um acidente de carro, aos 5 anos. Só com os remédios para ele, a idosa conta gastar cerca de R$ 600 por mês. Em agosto de 2021, ela recebeu duas ligações de telemarketing. Recusou a primeira, mas a segunda, pela abordagem convincente, despertou a sua atenção. Na chamada, a atendente explicou que havia disponível um pagamento de R$ 1.360 referente a “juros abusivos de empréstimo” e incentivou Luíza a ir presencialmente ao escritório, localizado, à época, no centro de Niterói.
— Ela sabia tudo sobre as minhas contas, tinha os dados pessoais e bancários. Explicou que havia um ressarcimento, em meu nome, de empréstimos que eu tinha feito pelo INSS e pelo BMG. Eu acreditei, parecia tudo muito profissional. Era muita lábia — relembra.
No escritório, a idosa foi convencida a ir ao banco fazer a retirada do pagamento. Dois golpistas foram com ela e a “ajudaram” a fazer o procedimento no caixa eletrônico. Eles até entregaram o descritivo da operação para ela, mas só em casa Luíza percebeu o que havia acontecido. A dupla pediu um empréstimo de R$ 18.500, a ser pago em 84 meses por ela. O dinheiro foi transferido para um terceiro, e a idosa ficou com a dívida, a ser quitada com juros. Luíza voltou ao escritório, discutiu com os golpistas, sofreu ameaças e foi embora.
Com vergonha de contar para a família, a vítima procurou a polícia sozinha e paga, há dois anos, as prestações de R$ 450. No fim de maio, a Polícia Civil fez uma operação contra os estelionatários, denunciados por 45 idosos. Dois golpistas foram presos, o restante do grupo foi indiciado e segue foragido. A polícia conta ter encerrado o caso com êxito, mas a perda financeira e os prejuízos emocionais de Luíza estão longe de terminar.
— Os golpistas são problema da Justiça agora, mas eu continuo com a dívida. Tudo piorou para mim. Minha pressão está mais alta do que nunca. A polícia fala que não pode fazer mais nada por mim, conhecidos dizem que eu não vou conseguir parar com as prestações, mas eu não aceito, é muito injusto. Pegaram dinheiro em meu nome e eu nem comi ou bebi com essa quantia. Eu durmo e acordo com isso na cabeça, é muito duro — lamenta.
Os golpes também abateram a família de Fernando Wanderley, de 63 anos, e George Wanderley, de 87. Pai e filho foram enganados ao mesmo tempo e perderam, juntos, R$ 33 mil. O prejuízo só não foi maior porque o cartão de George tinha seguro e parte da perda foi ressarcida. O crime aconteceu em abril deste ano, quando uma pessoa ligou para eles se passando por uma funcionária do banco de George e o alertava sobre “movimentações suspeitas”.
Fernando assumiu a ligação para ajudar o pai, mas acabou sendo enganado em sequência, quando compartilhou dados pessoais e bancários, além de ter feito alguns “Pix testes” para a conta do golpista. A situação piorou quando entregaram os cartões para um mototaxista.
— Achei que estava isento desses golpes, mas aconteceu. A conversa era tão bem feita, tão convincente e cheia de detalhes, que eu nem suspeitei. A pessoa disse que era funcionária da parte de segurança do banco, explicou que meu pai havia sido vítima de hackers, citou até a Febraban (Federação Brasileira de Bancos). Foram três dias de inferno. Quando percebi o golpe, já era tarde. A vontade que dá é de deitar e chorar — diz Fernando.
De acordo com o IBGE, o Rio é o segundo estado do Brasil com maior percentual de pessoas acima dos 60 anos (19,4%), perdendo apenas para o Rio Grande do Sul (19,5%). Os golpes são mais recorrentes contra idosos entre 60 e 69 anos, cerca de 65% das vítimas. As mulheres são a maioria (56%), assim como as pessoas brancas (66%). Segundo a delegada Natacha Alves de Oliveira, titular da delegacia onde o golpe contra Luíza foi registrado, cidadãos da terceira idade são mais vulneráveis aos crimes de estelionato.
— Os criminosos preferem aplicar golpes contra os idosos por causa da vulnerabilidade. Muitas vezes, eles não sabem usar equipamentos tecnológicos, tendem a acreditar mais facilmente nas pessoas e desconhecem o funcionamento de alguns serviços. Muitos também procuram resolver as situações sem pedir ajuda, o que agrava a situação — explica a delegada.
Após o golpe, ensina ela, é importante procurar a delegacia mais próxima para fazer um registro de ocorrência e o banco, que pode oferecer até uma semana para contestação de compras e movimentações. Contudo, o ressarcimento do prejuízo não é garantia, como reforça a Febraran: “Cada instituição financeira tem sua própria política de análise e devolução, que é baseada em análises individuais, considerando as evidências apresentadas pelos clientes e informações das transações realizadas”.
Com informações do Extra online.





