Dizem que até a Wikipédia sorri quando registra o apelido desta cidade de menos de 20 mil habitantes na Serra Fluminense. Carmo é a “Cidade Bela”, um lugar que parece caber inteiro em uma fotografia em tons de sépia: igreja tombada, praça com geometria patriótica, fabricantes de produtos centenários e pouco conhecidos. Quer dizer, quase todos.
Porque Paraty pode ter suas cachaças, Areal seus vinhos e São João da Barra, o conhaque do milagre. Mas nenhuma dessas cidades etílicas ganhou fama internacional como a cachaça de Carmo, cantada no megahit Loirinha Bombril, dos Paralamas do Sucesso: “Häagen-dazs de mangaba/Chateau canela-preta/Cachaça made in Carmo dando a volta no planeta”.
No fim, visitar Carmo é escolher entre duas experiências: a tranquilidade de quem busca cachoeiras, praças e igrejas sem pressa, ou a ironia de perceber que mesmo a cidade mais pacata precisa de boas narrativas para se manter no radar. E, convenhamos, poucas narrativas são tão eficazes quanto ser lembrada como “Cidade Bela”.

História
Fundada como Arraial de Samambaia em meados de 1842, quando colonos ergueram uma capela em honra a Nossa Senhora do Carmo, a localidade foi elevada à freguesia em 1846, virou vila em 1881 e alcançou o status de cidade em 1889.
O nome “Carmo” perdura, embalado pela passagem do tempo e pela garra de seus primeiros moradores, ainda ecoando nos calçamentos coloniais e na paz serrana que insiste em ser tranquila demais para a frenética modernidade.
Em 1922, a Light instalou sua usina na Ilha dos Pombos, às margens do Paraíba do Sul. A usina só reforça o charme do paradoxo local: cidade rural com turbinas, a perfeita sinfonia do antigo encontrando o útil moderno.
A cachaça da música dos Paralamas
Patrimônio Cultural de Carmo e produzida desde o século XIX na Fazenda da Quinta, a premiada Cachaça da Quinta é o primeiro destilado brasileiro a receber a Grand Gold Medal no Spirits Selection, de Bruxelas, em 2013. Preserva três versões (Carvalho, Branca e Amburana), todas orgânicas.
Quanto à inspiração musical dos Paralamas, embora pareça um tanto óbvia, não há menções oficiais, nem em entrevistas ou livros sobre os Paralamas. Acredita-se que até hoje parte dos pesquisadores bugou sem entender a parte do “Häagen-dazs de mangaba”. Mas nem só de pinga vive Carmo.

Olha o relógio!
Em Carmo, você encontra marcas centenárias que provavelmente nunca viram uma gôndola do supermercado Zona Sul antes. A antiga estação ferroviária de 1885, parte do Ramal de Sumidouro, hoje abriga a cooperativa de produtores de leite, onde floresce a marca Relógio — um selo artesanal com mais de um século de história.
A marcou foi criada em 1912, pelo português Joaquim Simões de Araújo, que ergueu um laticínio na Fazenda João Dias. Com a proximidade da estação ferroviária, bastava o sino do trem e sua voz carregada em sotaque lusitano: “Olha o relógio! Olha o relógio!”, para os funcionários saberem que era hora de despachar leite e manteiga.
A bandeira do Brasil vista do alto
Patriotismo geométrico é isso aí. Faça um zoom mental a partir da Praça Getúlio Vargas, a principal de Carmo, com seu chafariz e paisagismo caprichado, como se estivesse brincando no Google Earth.
Do alto, ela ostenta um traçado idêntico à bandeira brasileira. Curiosamente, não há nenhum documento oficial explicando quando ou porque optaram por esse design urbanístico. De oficial apenas que ela foi tombada pelo município em 8 de janeiro de 2001, por meio da Lei nº 669. Vai que algum “patriota da pátria alheia” resolva redesenhá-la.
Qual é a história do ‘Túnel que chora’?
Também conhecido como Túnel Maria Nossar, é um antigo túnel ferroviário esculpido diretamente na rocha, sem revestimento, com calçamento de pedras de mão-de-moleque e iluminação original por lampiões elétricos. Tem aproximadamente 95–100 metros de extensão, cerca de 5 metros de largura e 3,5 metros de altura.
O nome poético vem dos filetes de água que caem do teto e das paredes do túnel, especialmente após chuvas ou em estações úmidas. A água infiltra-se nas rochas e goteja pelo interior — como se o túnel estivesse “chorando”.

Seu nome oficial homenageia a enfermeira Maria Komoid Nossar, que nos anos 1980, quando se pensou em demolir o túnel para ampliação da rodovia (RJ-137), mobilizou a comunidade em torno da preservação.
O que mais tem para fazer por lá?
Carmo tem igrejas centenárias, cachoeiras como a da Prata (7,5 m em três saltos) e trilhas como Pedreira da Prata e recentemente a Trilha da Pedra da Lua inaugurada em junho de 2024.
A cidade conta ainda com belos mirantes (como o da Boa Ideia), o Parque Municipal do Livramento e rodas de cultura no Centro de Tradições.
A Vila do Centro de Tradições oferece ainda artesanato, doces caseiros, defumados e o celebrado licor local (leia-se cachaça), numa vibe que mescla o bucólico ao gastronômico.

Onde fica e como chegar?
Carmo está na Região Serrana do Rio de Janeiro, na vizinhança de Sumidouro, Cantagalo, Duas Barras e Sapucaia, na bacia do rio Paquequer.
Da Guanabara até lá é uma viagem de cerca de três horas, com trajeto em rodovias estaduais. De ônibus é um convite a uma aventura consciente. É preciso pegar um buzão até uma das cidades vizinhas e, de lá, seguir de ônibus municipal, táxi ou app até Carmo.


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