Esta cidade vive do encontro entre mar e lagoa, entre devotos e surfistas, entre festas antigas e festivais de verão modernos, ela é ao mesmo tempo cartão postal e comunidade que preserva ritos e memórias. Em Saquarema, a igreja branquinha no alto morro observa a vila, como se a paisagem inteira tivesse sido pensada por um paisagista inspirado.
Saquarema hoje é conhecida como a Capital Nacional do Surfe, título que atravessa entrevistas, anúncios oficiais e as placas dos eventos que trazem atletas do mundo inteiro para a sua orla. Ao mesmo tempo que tem ligações musicais profundas como a (abandonada) casa onde viveu o roqueiro Serguei, o Teatro Mario Lago, batizado em homenagem ao multitalentoso artista que viveu lá e até um festival no verão que é uma espécie de versão em miniatura do pacote de atrações do Rock In Rio.
Nos meses de verão a população parece se multiplicar, as praças enchem de gente, os shows e os campeonatos fazem a cidade pulsar, e a administração local organiza programações que buscam transformar a fama em renda e infraestrutura.
E ao lado desse movimento todo sobrevive uma cidade antiga, com capelas, novenas e tradições que vêm do tempo em que pescadores e pequenos povoados marcavam o ritmo da vida.

Origem de Saquarema
Em 17 de março de 1531, uma expedição de Martim Afonso de Sousa atracou em frente ao Morro de Saquarema. Mas o explorador, primeiro donatário da Capitania de São Vicente, não teve poesia suficiente no coração para apreciar o lugar. Preferiu governar a Índia, certo de que a fortuna lhe sorriria com maior rapidez.
Com a instauração da Paróquia Nossa Senhora de Nazareth, em 12 de janeiro de 1755, foi criada a Freguesia de Nossa Senhora de Nazaré de Saquarema, inicialmente ligada a Cabo Frio. Em 1841, a freguesia foi elevada a vila, que permaneceu de maneira independente até 1859, quando a vila foi extinta e anexada a Araruama. Foi recriada em 1860, e elevada a cidade em 1890.
O nome Saquarema deriva do tupi, e para alguns estudiosos significa “socó fedorento”, em referência a uma espécie de gavião abundante na região. Outros pesquisadores dizem, entretanto, que quem fedia não era o socó, mas os caranguejos, sendo, portanto, Saquarema em Tupi a “Cidade dos caranguejos fedorentos”. Faz mais sentido.
Qual a história da Igreja Nossa Senhora de Nazaré?
Aqui entramos no território das lendas. Céticos dirão que imagem foi importada de Portugal para ser instalada na capela dedicada à padroeira da cidade. Mas a lenda é muito mais legal de contar. E, na dúvida, publique-se a lenda.
Ninguém sabe ao certo em que ano aconteceu, mas a memória popular garante que foi à beira da praia que tudo começou. Pescadores saíram para mais uma jornada no mar quando, entre redes e pedras, encontraram algo inesperado. Uma pequena imagem, molhada pela maré e encravada na areia, revelava a figura de Nossa Senhora de Nazaré.
A surpresa virou espanto quando tentaram levá-la para uma capela, porque, segundo contam os antigos, a santa sempre retornava para o alto do morro de frente para o mar, como se tivesse escolhido aquele ponto de vigília.
Nossa Senhora de Nazaré é tratada como padroeira local, e a festa em sua honra tem programação religiosa e cultural que mobiliza a cidade. A celebração dedicada à padroeira, tradicionalmente realizada entre o final de agosto e o início de setembro, combina novenas, missas e procissões com eventos culturais promovidos pela prefeitura, e é uma das festas religiosas mais antigas e relevantes da Região dos Lagos.

Por que é considerada a Capital Nacional do Surfe?
Foi nos anos 1970 que as ondas de Itaúna começaram a chamar atenção além das fronteiras da cidade. Surfistas do Rio e de São Paulo chegavam com pranchas debaixo do braço, atraídos pelas séries longas e pela força do mar aberto.
O boca a boca cresceu, até que em 1976 Saquarema recebeu uma das primeiras competições internacionais de surfe no Brasil. A partir dali a praia se transformou em palco, e o que era encontro de aventureiros virou festival, trazendo música, campeonatos e público cada vez maior, consolidando a cidade como a Capital Nacional do Surfe.
A competição costuma atrair nomes de relevância no esporte tanto no Brasil quanto do exterior. Kelly Slater, John John Florence, Stephanie Gilmore e Gabriel Medina já disputaram baterias por lá.

Quais são as principais praias da cidade?
Saquarema é famosa pelas ondas, mas cada praia tem seu charme e seu ritmo. Itaúna é a joia do surfe, com ondas longas e fortes que atraem atletas do mundo inteiro e um público que observa as manobras do alto das falésias.
A Praia da Vila é mais calma, com areia fina e águas mais tranquilas, ideal para famílias e para quem gosta de caminhar à beira-mar, observando os pescadores e os barcos coloridos. Já a praia de Jaconé, menor e cercada por pedras, oferece recantos para quem busca sossego, enquanto Praia de Barra Nova tem visual mais rústico, com ondas moderadas e um pôr do sol que colore a paisagem de dourado.
Há também trechos escondidos e menos movimentados, onde a natureza impera e o visitante pode sentir a sensação de estar sozinho diante do oceano, escutando apenas o bater das ondas e o canto das aves costeiras.
O que tem pra fazer na Lagoa de Saquarema?
A Lagoa de Saquarema é como um espelho que muda de cor ao longo do dia. De manhã, as águas calmas refletem o céu claro e abrigam pescadores em barcos pequenos, lançando redes como faziam seus avós. À tarde, as margens se transformam em ponto de encontro para famílias, casais e grupos de amigos, com crianças correndo pela areia fina e vendedores oferecendo quitutes simples.
Quem chega ali encontra opções variadas. É possível alugar caiaques ou stand up paddle para deslizar pela superfície da água, observar aves que sobrevoam os manguezais, ou simplesmente caminhar pelo calçadão que contorna parte da lagoa.
Em alguns pontos, há bares e quiosques com música ao vivo, mesas de frente para a água e cardápio de peixe fresco. Para os que preferem sossego, sempre há um canto silencioso para sentar-se na beira e ver o sol desaparecer atrás da serra, tingindo a lagoa de vermelho.
O que tem pra fazer na Serra do Matogrosso?
A Serra do Mato Grosso se ergue atrás das praias de Saquarema como um manto verde que protege a cidade, cortado por trilhas sinuosas e riachos que descem em pequenas quedas d’água.
Entre os pontos mais visitados estão a Cachoeira do Véu da Noiva, onde a água despenca em cortina sobre as pedras formando um espelho natural, e a Cachoeira do Rio Bonito, com poços tranquilos perfeitos para banho e descanso.
Outras quedas menores aparecem entre a mata fechada, convidando o visitante a se perder pelo verde e descobrir pequenos refúgios, enquanto a brisa e o som da água moldam um cenário de paz e aventura ao mesmo tempo.
Cada cachoeira tem seu encanto, e subir a serra revela não só essas maravilhas líquidas, mas também mirantes com vista para a lagoa, o mar e a cidade que parece suspensa entre água e montanha.
Para quem se anima com ecoturismo, há percursos que permitem ver a cidade de cima e entender a geografia que separa lagoa e mar, os quais demandam preparo físico moderado e atenção a sinalização. Agências locais e guias amadores costumam recomendar levar água, calçado adequado e evitar trilhas em períodos de chuva, além de contratar guias em trechos menos conhecidos.

O que é o festival de verão?
O Festival de Verão de Saquarema é um evento promovido pela prefeitura que reúne programação musical, esportiva e cultural durante o verão, com shows em praças, competições esportivas de praia e atividades para famílias.
A primeira edição ocorreu em janeiro de 2020, com um show de abertura da cantora Anitta na Praça do Coração, marcando o início de uma tradição que combina música, esportes e lazer durante a temporada de verão da cidade. Já tocaram por lá nomes e bandas de destaque como Leoni, Monobloco ou os Raimundos, entre outros.
Além dos shows, o festival também promove competições esportivas gratuitas em diversas modalidades, como altinha, futmesa, futebol de praia, beach tennis, futevôlei, vôlei de praia, skimboard, canoa, bodysurf, bodyboard e surf, realizadas em diferentes pontos da cidade.
A programação varia anualmente, e é anunciada oficialmente pela prefeitura e divulgada nas redes sociais do município.
Quais as principais festas religiosas?
Quando setembro chega, Saquarema se transforma em um mosaico de fé e cores. Na beira do mar, os barcos se alinham para a procissão de Nossa Senhora de Nazaré, decorados com bandeiras e flores, e a imagem da santa desliza sobre as águas enquanto os fiéis cantam e rezam, formando reflexos de luz que parecem fundir céu, mar e terra.
Nas ruas da vila, a procissão terrestre acompanha o mesmo ritmo de cânticos, com velas acesas e braços erguidos, lembrando a lenda dos pescadores que encontraram a santa e consagraram sua proteção sobre a cidade.
Ao longo do ano, outras festas religiosas pontuam o calendário: as celebrações de São Sebastião, com missas e fogueiras, e as festas juninas de São João, quando a praça se enche de quadrilhas, comidas típicas e risos de crianças, misturando tradição, alegria e espiritualidade.
Em cada evento, Saquarema mostra que a fé não é apenas ritual, mas experiência coletiva, um elo que conecta moradores, visitantes e o mar que banha a cidade.
Uma cidade que une o rock e o samba
Saquarema também carrega memórias de artistas que deixaram sua marca na cidade, tornando-a um refúgio de criatividade e cultura.
Uma das maiores e divertidas figuras do rock brasileiro, o cantor Serguei, transformou sua casa na cidade no que seria o “Templo do Rock”. Mas passados seis anos de sua morte, a residência foi totalmente depenada, e o museu nunca saiu do papel (apesar de ter até placa indicativa na rua). A antiga casa do músico foi totalmente descaracterizada e hoje mais parece um anúncio do Quinto Andar.
Outro ilustre morador foi Mário Lago, poeta, compositor e ator, que encontrou em Saquarema um refúgio para escrever, refletir e se conectar com a natureza. A cidade serviu de inspiração para alguns de seus versos e melodias, e sua presença contribuiu para fortalecer o vínculo entre arte e comunidade local. Sua casa foi vendida, mas a cidade o homenageou dando seu nome ao teatro municipal.

O que mais tem para fazer por lá
Além do surfe em Itaúna, da lagoa, e das trilhas na Serra do Mato Grosso, Saquarema oferece pontos para pesca, e uma rede de pousadas e restaurantes que atendem ao público de veraneio. Guias de turismo e sites de viagem também recomendam aulas de surfe, passeios de barco e observação de pôr do sol na orla.
No entorno há opções para turismo rural e visitas a pequenas localidades, além de eventos sazonais que movem a cidade, como campeonatos de surf, festivais de música e festas populares. Como a oferta varia conforme a época do ano, muitos visitantes combinam Saquarema com outros destinos da Região dos Lagos.
Onde fica e como chegar?
Partindo da Guanabara são cerca de 100 km o que dá uma viagem de mais ou menos uma hora e meia. De ônibus há saídas diárias da Rodoviária do Rio, com passagens em torno dos R$ 40.


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