A autoproclamada “Capital da Laranja” do Rio de Janeiro, consegue ser ao mesmo tempo um paraíso rural e um playground perigoso para aventureiros desavisados. De um lado, os pomares familiares produzem laranjas que rendem mais de seis milhões de litros de suco por safra, provando que a cidade leva a sério o título estadual; de outro, existe a famosa Lagoa Azul, uma antiga cava de mineração que resolveu se reinventar como atração turística.
Bonita, sim, mas mergulhar ali é equivalente a um “sim, eu aceito o risco” à moda antiga: profundidade de até 26 m, água ácida com metais dissolvidos e histórico de afogamentos — o tipo de convite que só os mais corajosos ou desavisados aceitam.
Mas, para quem prefere um banho menos químico e com risco físico mais controlado, Tanguá oferece a Cachoeira de Tomascar. Localizada na divisa com Rio Bonito, a queda d’água é cercada por trilhas e mata atlântica preservada, com poços para banho e mirantes perfeitos para selfies de aventureiros.
Entre laranjas, águas tóxicas e quedas d’água instagramáveis, Tanguá segue resistindo como destino turístico alternativo do estado do Rio de Janeiro. A cidade combina charme rural com riscos sutis, lembrando que, às vezes, o paraíso vem temperado com um pouco de adrenalina e cautela.

História
Tanguá nasceu e cresceu na dobradinha entre ser recanto rural e município da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. A Serra do Barbosão e o maciço de Tanguá deram ao município vocação para trilhas, nascentes e uma pequena indústria mineral — que moldou parte da sua geografia e da sua identidade econômica nas últimas décadas. A Câmara Municipal registra que, desde o fim dos anos 1970, a região atraiu interesse mineral (reserva de fluorita e outras rochas) e viu empresas se estabelecerem para exploração.
A exploração mineral trouxe empregos, mas também passivos ambientais — crateras, cavas e áreas de lavra que, quando abandonadas, ganharam nova vida como “pontos de visitação” — às vezes não oficiais.
O que é a tal Lagoa Azul?
A chamada Lagoa Azul de Tanguá é, na verdade, uma antiga cava de mineração, traduzindo, uma cratera formada por extração de minério que, após o encerramento das atividades, encheu-se de água. A extração mineral na serra (fluorita e sienito) ocorre na região desde o final da década de 1970; empresas como a Mineração Sartor e outras atuaram por longos períodos e deixaram áreas de lavra desativadas que deram origem a lagoas como essa. Estudos e levantamentos locais documentam esse processo de formação antrópica.
A exploração industrial na região teve picos entre as décadas de 1980 e 2010; o fechamento de frentes de lavra e o abandono gradual ocorreram nas últimas décadas — por isso a lagoa só existe no mapa de turistas há relativamente pouco tempo, depois que a cratera encheu e a cor tornou o lugar viral nas redes.
Quais são os componentes químicos que têm na água da Lagoa?
Análises científicas indicam que as águas da Lagoa Azul estão quimicamente alteradas: estudos apontam pH ácido e concentrações elevadas de alumínio, manganês, fluoreto e até traços de metais pesados como chumbo e cádmio em algumas amostras. Em outras palavras: a cor bonita tem explicação geoquímica, e essa explicação inclui elementos que não são exatamente “água mineral para beber”.
Pesquisas de avaliação ecotoxicológica e geoquímica destacam que a qualidade da água está comprometida e que a lagoa representa um passivo ambiental. Estudos e propostas de manejo têm recomendado restrições ao uso recreativo direto (banho, mergulho) até que haja monitoramento e ações de remediação.
O que acontece se as pessoas tomarem banho na Lagoa Azul?
Bom, morrer, tipo morrer mesmo, você a princípio não vai. Mas banhos e mergulhos na Lagoa Azul não são recomendados pelas análises disponíveis: a presença de metais e a acidez podem provocar irritação de pele, problemas oculares, e em exposições intensas aumentar risco toxicológico. Isso sem falar no perigo físico de quedas dos paredões e de profundidade desconhecida.
Além do risco químico, há o risco de afogamento em águas que podem chegar a quase 30 metros de profundidade, e de acesso irregular: já foram noticiados casos de pessoas que desapareceram ou morreram afogadas na Lagoa Azul de Tanguá.

Não dá mesmo para dar aquele tchibum?
Na Lagoa Azul é melhor não, mas há alternativa. Na divisa entre os municípios de Tanguá e Rio Bonito fica a Cachoeira de Tomascar, uma candidata perfeita para quem gosta de natureza mais rústica. O rio Tanguá nasce nas terras altas da Serra Redonda, e suas águas descem formando quedas d’água e piscinas naturais em meio à mata, com trilhas, mirantes e biodiversidade local preservada.
Há restaurantes de comida caipira nos arredores, locais para piquenique, e opções de passeios tranquilos ou levemente aventureiros. Por conta da vista de plantações de laranja, de limoeiros, da ponte simples marcando a divisa entre municípios, e do acesso que alterna estrada de terra e trilhas, a experiência é bastante ligada ao turismo rural e ecológico.
O nome “Tomascar” tem uma origem curiosa. Ela vem de Tomaz Carr Ribeiro de Bustamante, aventureiro português que se estabeleceu na região em 1803. As terras, herdadas por seus descendentes, acabaram dando nome à localidade (“Tomascar”, do nome + sobrenome).

Por que é a ‘Capital da Laranja’ do Rio de Janeiro?
Tanguá foi declarada Capital Estadual da Laranja pelo Projeto de Lei nº 4616/2021. As laranjas da região de Tanguá têm Indicação Geográfica (IG) específica, com variedades como Seleta, Natal Folha Murcha e Natal Comum, reconhecidas pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi). Elas são valorizadas, entre outras razões, pelo sabor doce, pela cor e suculência, características atribuídas ao solo, clima e ao modo de cultivo local.
São mesmo produtores familiares que garantem a produção?
Sobre recente reportagem da Forbes Agro e dados da prefeitura, há cerca de 200 sítios, em sua maioria de agricultura familiar, com aproximadamente um milhão de pés de laranja plantados na região.
Para quem gosta de estimativas, isso indica uma produção anual de de cerca de 60 milhões de laranjas, o que dá cerca de seis milhões de litros de suco por ano, ou 12 milhões de copos de 500 ml. Essa estimativa naturalmente está sujeita a variações reais de produtividade, perdas, sazonalidade, qualidade dos frutos, transporte etc. Mas já dá uma ideia da escala: não é pequena.

Onde fica Tanguá?
Tanguá inserido no Leste Metropolitano do Rio de Janeiro, e limita com municípios como Itaboraí, Rio Bonito, Maricá, entre outros. O território tem cerca de 145,5 km²; população estimada na casa dos 35 mil habitantes; densidade demográfica por volta de 200 habitantes por km².
De carro, saindo da Guanabara, percorre-se cerca de 66 a 68 km até Tanguá, levando aproximadamente 50 a 60 minutos dependendo do trânsito. Não há ônibus diretos, a rota mais comum é chegar por Manilha, e depois pegar um transporte local até Tanguá. A estimativa de custo total fica em torno dos R$ 80.


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